INTERROGAÇÕES INCONVENIENTES – Por José Fernando Magalhães (2)
José Fernando Magalhães
À CONVERSA COM A VIDA 2
Dantes, quando alguém queria assustar o próximo, falava-se do Apocalipse. Havia cavaleiros, trombetas, bestas de muitas cabeças e outras comodidades imaginativas destinadas a inquietar os espíritos.
Hoje temos a IA Agêntica.
Convenhamos que o nome não ajuda.
Parece uma dessas personagens burocráticas encarregadas de encerrar a humanidade por falta de comparência.
Dizem-me que funciona como um verdadeiro solucionador de problemas. Age de forma proactiva. Aprende. Decide. Corrige-se. Avalia cada passo e ajusta o plano se algo correr mal.
E ainda estamos a começar.
O mundo não vai mudar.
Já mudou.
E ninguém parece importar-se com isso.
Olho para os mais novos, para essa vasta multidão de gente que já trabalha, situada entre os vinte e cinco e os quarenta e cinco anos, e vejo uma serenidade que me desconcerta. Caminham para o emprego como quem embarca num paquete convencidos de que o mar permanecerá sempre calmo.
Têm benefícios. Têm horários. Têm direitos. Têm as constantes reivindicações atendidas. Têm cursos de desenvolvimento pessoal. Têm aplicações para gerir a ansiedade produzida pelo excesso de aplicações destinadas a gerir a ansiedade.
E acreditam, com uma fé que faria inveja aos santos antigos, que o amanhã será uma repetição ligeiramente melhorada do dia de hoje.
Talvez seja. Talvez não.
Olho para eles e invejo-lhes a serenidade com que caminham para um futuro que eu já não consigo imaginar.
O reflexo no espelho receia olhar-me de volta.
A IA Agêntica não dorme, não almoça, não adoece, não faz greve, não chega atrasada por causa do trânsito nem precisa de reuniões para preparar reuniões destinadas a marcar futuras reuniões.
Trabalha vinte e quatro horas por dia, trezentos e sessenta e cinco dias por ano, sem uma única crise existencial.
É difícil competir com semelhante falta de humanidade.
Mas não é isso que mais me inquieta.
O que me inquieta é a tranquilidade com que assistimos ao espectáculo.
Como passageiros de um comboio que acelera em direcção a um destino desconhecido e que, em vez de olharem pela janela, discutem a qualidade do café servido no bar.
Vão salvar-se poucos.
Talvez os excelentes. Talvez os imprevisíveis.
Talvez aqueles que conservarem a capacidade de pensar para além do manual de instruções.
Ou talvez nenhum.
Nunca se sabe.
Entretanto, vivemos uma vida virtual.
O dinheiro não existe, a não ser para o pobre e para o remediado. Os restantes limitam-se a mover algarismos de um lado para o outro, como sacerdotes de uma religião cujos deuses habitam servidores remotos e cujos milagres se realizam por débito directo.
Sabemos que o dinheiro é uma convenção.
Mas uma convenção extraordinariamente persuasiva.
Experimentem dizer isso ao padeiro quando chegar a hora de pagar o pão.
Vivemos também o tempo das palavras proibidas.
Ou talvez das palavras receadas.
Toda a gente se declara defensora da liberdade de expressão, desde que ninguém expresse aquilo que ela não deseja ouvir.
Temos direito à indignação. Temos direito ao sentimento de indignação.
Temos até direito à indignação pela insuficiente valorização da nossa indignação.
Mas já não temos grande prática na arte da conversa.
As palavras andam cercadas.
As pessoas calam-se. Auto-amarfanham-se.
Medem sílabas.
Pesam adjectivos.
Vigiam metáforas.
E acabam por dizer apenas aquilo que já foi previamente autorizado pelo consenso do momento.
Não porque tenham mudado de opinião. Mas porque têm medo.
Medo das palavras.
Quais? Porquê?
Ninguém sabe muito bem.
A palavra tornou-se uma questão moral. E quando a linguagem entra para o tribunal da moralidade permanente, o pensamento começa a pedir liberdade condicional.
Pergunto-me, por vezes, o que aconteceu aos princípios.
Não aos princípios proclamados nas redes sociais, que esses nascem de manhã e morrem antes do jantar.
Refiro-me aos outros. Àqueles que serviam de âncora.
Tenho uma âncora. Sempre tive.
É ela que me permite saber onde estou quando o mundo inteiro parece ter perdido a bússola.
Conheço demasiadas virtudes que acabaram em desastre e demasiados erros que produziram beleza, para acreditar cegamente nos juízos alheios.
Na verdade, a centelha de energia que sou, escreve, ama, sofre, contempla o mar, enterra amigos, guarda memórias e, de vez em quando, ri-se.
O que não é pouco.
As esperanças caem como tordos. Cada dia, uma. Felizmente há muitas.
E algumas sobrevivem. Escondidas. Teimosas. Ridículas até.
Talvez seja nelas que reside o último escândalo da condição humana.