INTERROGAÇÕES INCONVENIENTES – Por José Fernando Magalhães

 

 

À CONVERSA COM A VIDA

 

Todo o cogumelo é comestível. Alguns, só uma vez.

A sabedoria popular tem destas profundidades inesperadas. Há tratados de filosofia inteira que não conseguem dizer tanto sobre a condição humana. Andamos todos por aqui a provar cogumelos, ideias, amores, ideologias, certezas absolutas e dietas milagrosas, convencidos de que a experiência nos fará crescer. Por vezes faz. Outras vezes é apenas a primeira e a última.

Mas insistimos.

Isto porque somos, porventura, criaturas estranhas, dotadas de uma capacidade quase sobrenatural para caminhar em direcção ao precipício, enquanto discutimos a cor das flores que crescem à sua beira.

Tenho ouvido muita gente falar do medo. Medo do futuro. Medo do passado. Medo da inteligência artificial. Medo do aquecimento global. Medo dos estrangeiros. Medo dos vizinhos. Medo das palavras.

Das palavras?

Quais?

E porquê?

As palavras não passam de pequenos recipientes onde despejamos os nossos fantasmas. Não mordem. O problema começa quando alguém decide acreditar nelas, e as interpreta à sua maneira.

Entretanto, o mundo prossegue a sua marcha triunfal. Um desfile magnífico de vaidades, estupidezes e indignações a prazo. Este mundo é um nojo, dizem uns. É uma maravilha, respondem outros. Suspeito que ambas as facções tenham razão e que nenhuma tenha percebido verdadeiramente do que está a falar.

O filósofo, que por acaso vive algures dentro da minha cabeça e paga uma renda vergonhosamente baixa, recorda-me frequentemente que sou apenas uma centelha de energia a viajar do nada para lugar nenhum. Uma breve perturbação estatística num universo indiferente. Um acidente cósmico convencido da sua importância.

E, no entanto, dou por mim a preocupar-me.

Com a idade.

Com o colesterol.

Com a mortalidade.

Com o destino da civilização ocidental.

Com a possibilidade de me esquecer onde deixei os óculos.

É extraordinário.

Uma centelha que vai do nada para lugar nenhum e que, apesar disso, acha indispensável emitir opinião sobre tudo.

Já estou velho para morrer.

Não porque a morte me assuste particularmente. Mas porque tenho mais o que fazer. Além disso, preocupar-me com a morte ocupa demasiado tempo à vida. E eu não quero.

Tenho ainda demasiadas conversas para ter comigo e com o mar, demasiados pôres-do-sol para contemplar sem qualquer utilidade prática, demasiados livros para deixar a meio e demasiadas pessoas para continuar a gostar em silêncio.

Pode vir quem quiser dizer que as minhas decisões de vida nada valem. Que escolhi mal. Que devia ter sido outra coisa, seguido outro rumo, acreditado noutras verdades.

Escuto com atenção.

Depois sigo caminho.

Porque tenho uma âncora.

Não uma dessas âncoras enferrujadas que repousam no fundo dos portos, mas uma outra, invisível, que me permite saber onde estou mesmo quando ignoro para onde vou.

Ela dá-me referências. Orientações. Norte.

Conheço-me razoavelmente bem. Pelo menos melhor do que aqueles que me explicam quem sou.

E isso basta-me. Tem-me bastado sempre. E isso permite-me arriscar nas minhas escolhas.

Vivemos tempos de uma certa morrinha intelectual. Há opiniões em excesso e pensamento em défice. Muito ruído e pouca música. Muita convicção e escassa reflexão. Nunca foi tão fácil falar. Nunca pareceu tão difícil dizer alguma coisa.

Mas talvez seja assim desde que o primeiro macaco descobriu a eloquência e decidiu explicar aos outros macacos como deveriam viver.

No fim de tudo, continuo à conversa com a vida.

Ela fala pouco.

Eu também.

Sentamo-nos os dois à mesma mesa, observando a comédia humana passar diante da janela. Às vezes rimo-nos. Outras vezes abanamos a cabeça. Frequentemente não percebemos nada.

E talvez seja essa a parte mais divertida.

Porque, afinal, uma centelha de energia a caminho de lugar nenhum não tem obrigação de compreender o universo.

Tem apenas o dever de o atravessar com alguma curiosidade, um resto de ternura e sentido de humor suficiente para, de vez em quando, olhar para toda esta extraordinária confusão e dizer:

– Ri-te, carago!

 

 

 

 

 

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