Se no início não conseguir encontrar-me, não desanime
Se não me encontrar num lugar, procure noutro,
Eu pararei em algum lugar à sua espera
“Song of Myself” de Walt Whitman
Parte I – Morte da cultura e o regresso à barbárie e ao pensamento mágico
“Sem a palavra, sem a escrita dos livros, não há história, não há conceito de humanidade”
Herman Hesse
Seleção e tradução de Júlio Marques Mota
13 min de leitura
Texto 6. Estupidologia: a externalização da nossa capacidade de pensar
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A primeira e a segunda administração Trump provocaram reações críticas marcadamente diferentes. O choque de 2016 e as suas consequências geraram uma onda de ansiedade liberal sobre o destino do conhecimento objetivo, não apenas nos Estados Unidos, mas também no Reino Unido, onde o referendo do Brexit daquele ano tinha sido ganho por uma campanha que deturpou factos e números importantes. Imediatamente a seguir surgiu um rico vocabulário para descrever essa quebra epistémica. O Oxford Dictionaries declarou “pós-verdade” a sua palavra de referência do ano de 2016; a da Merriam-Webster foi “surreal”. O flagelo das “fake news”, impulsionadas por robôs em linha e grupos de desinformação russos, sugeria que a autoridade do jornalismo profissional tinha sido fatalmente enfraquecida pela nova hegemonia das media sociais. E quando a conselheira presidencial Kellyanne Conway cunhou a expressão “factos alternativos” alguns dias após a posse de Trump no início de 2017, a duplicidade da nova Administração parecia quase oficial.
O pânico da verdade teve o efeito colateral indesejado de encorajar aqueles a quem procurava opor-se. “Falso” era uma das reprimendas favoritas de Trump, especialmente contra veículos de notícias que publicavam factos desfavoráveis sobre ele e os seus associados. Um dos media MAGA em expansão amplificou ainda mais as mentiras e negações do presidente. As ferramentas do saber liberal pareciam impotentes diante de tanta duplicidade descarada. Uma referência daquele momento era Hannah Arendt, que observou em As Origens do Totalitarismo que “o sujeito ideal do regime totalitário não é o nazi convicto ou o comunista dedicado, mas pessoas para as quais a distinção entre facto e ficção… já não existe.”
Em 2025, as denúncias têm um sabor diferente. Para muitos de nós, o problema central é que vivemos não tanto numa época de mentiras, mas sim numa época de estupidez. Este diagnóstico tem credibilidade em todo o espectro político. Em janeiro, o sinistro David Brooks escreveu uma coluna para o Times intitulada “Os Seis Princípios da Estupidez.” A nova administração, escreveu ele, estava “a agir de um modo que ignora a pergunta: O que é que pode acontecer, a seguir?” Em março, Hillary Clinton — não, talvez, a conselheira ideal — deu a sua opinião num artigo no mesmo jornal, com o título “Quão mais burro é que que isto vai ficar?” “Não é a hipocrisia que me incomoda”, escreveu Clinton, “é a estupidez”. E em abril, o escritor e intelectual marxista Richard Seymour publicou um ensaio sobre “A Estupidez como Força Histórica”. Em vez de Arendt, Seymour citou Trotsky: “Quando o nível da política baixa, a estupidez domina o pensamento social”.
As mentiras de Trump não são menos constantes ou descaradas do que em 2016, mas agora já parece familiar, já estão “precificadas”. O que mais há a dizer sobre a “guerra contra a verdade”, uma década após o início da carreira política de Trump? Ainda assim, pelo menos dois aspetos da sua segunda administração são novos e indiscutivelmente “estúpidos”. Um é a incompetência caótica e num grau tal que levou um jornalista da Atlantic a ser adicionado por engano a um grupo no Signal sobre operações militares dos EUA, cujos outros membros incluíam o vice-presidente e o secretário de Defesa (foi esse fiasco que motivou o artigo de opinião de Clinton). O segundo é uma determinação incompreensível de avançar com políticas — como tarifas e o corte de financiamento para investigação médica — que causarão danos profundos sem qualquer ganho aparente, mesmo para os apoiantes e clientes de Trump, e menos ainda para os seus eleitores. O espetáculo de um cético destacado relativamente às vacinas e charlatão do bem-estar como Secretário de Saúde e Serviços Humanos vai além do abandono da verdade; parece um ataque ao progresso humano. Proibições de flúor na água da torneira, aprovadas por legisladores em Utah e na Flórida a pedido de Robert F. Kennedy Jr., marcam uma nova hostilidade ao próprio conceito de valores de bens e serviços fornecidos pelo setor público. A escalada de Trump I para Trump II viu a irracionalidade espalhar-se da esfera pública deliberativa para inundar as veias do governo.
Quando interpretamos as ações dos outros, um princípio metodológico básico é assumir que as pessoas têm razões para agir como agem, mesmo que essas razões possam ser emocionais, passageiras, míopes ou cínicas. Após o fiasco do bate-papo em grupo e o tumulto das tarifas, utilizadores das redes sociais transformaram num tipo de passatempo o estar a encaixar as ações do governo Trump no seu paradigma explicativo favorito. O Signalgate deve ter sido deliberado; as tarifas devem ser um grande plano para derrubar o dólar em benefício de uma ou outra fação económica. O risco é que explicações cada vez mais elaboradas para ações estúpidas acabem por atribuir erradamente a essas ações uma espécie de inteligência — confirmando, assim, a perceção da cientista política Robyn Marasco de que “a teoria da conspiração é um caso de amor com o poder que se apresenta como sendo a sua crítica”.
Tais especulações são frequentemente recebidas com uma réplica comum que insiste ainda mais na alegação de estupidez. Não, Trump e a sua gente não estão a jogar xadrez em quatro dimensões, diz a resposta habitual — estamos simplesmente a testemunhar as consequências de permitir que um homem perturbado assumisse o mais alto cargo, apoiado por um grupo de comparsas obtusos e sem qualquer qualificação para os lugares que ocupam. Quando a sociologia política falha, a psiquiatria médica e um darwinismo social não declarado preenchem o vazio. O sentido literal de estupidez — estar a ser um estúpido — é ter falta de faculdades mentais e consciência básica, quase ao ponto da inconsciência. A entonação verbal única e estranhamente hipnotizante de Trump, sem qualquer crescendo ou mudança de ritmo, ou qualquer polimento da retórica política comum, embala o ouvinte num dado tipo de transe, como uma faixa de áudio de teor racista gravada cuja audição pretende ter o efeito de relaxar, através da utilização de sussurros, de sons suaves, etc.
A escalada de Trump Um para Trump Dois fez com que a irracionalidade se espalhasse da esfera da deliberação pública até inundar as veias do governo.
Os primeiros meses da segunda administração Trump geraram comparações com o filme Idiocracia (2006), de Mike Judge, no qual um soldado de inteligência mediana acorda quinhentos anos no futuro e descobre uma América governada pela idiotice. Culturalmente, tecnologicamente e ecologicamente, a representação parece sombriamente profética. O lixo e a poluição estão fora de controle. O presidente é uma celebridade da TV com os modos e o estilo de uma estrela de luta livre. Os médicos foram substituídos por máquinas de diagnóstico desajeitadas. Os consumidores sentam-se em frente de ecrãs inundados de anúncios e slogans que eles repetem como memes. Quando o soldado aconselha as pessoas a pararem de tentar irrigar as suas colheitas fracassadas com uma bebida parecida com Gatorade, e usarem água em vez disso, elas rapidamente abandonam essa sugestão prática quando os lucros do fabricante da bebida caem a pique. “Você realmente quer viver num mundo onde está a tentar destruir a única pessoa que está a tentar ajudá-lo? ”, pergunta o soldado em desespero, depois das pessoas se terem virado contra ele. E, sim, ao que parece elas querem.
.Podemos reconhecer o estupidificante consumismo e a maximização do lucro como sintomas de nossa própria era de idiotice, mas a premissa da sátira de Judge é politicamente desagradável. A razão pela qual os Estados Unidos desceram a esse abismo ao longo dos séculos é que pessoas inteligentes (retratadas como profissionais neuróticos) pararam de se reproduzir, enquanto pessoas burras (retratadas como lixo agressivo de gente embrutecida ) não conseguem parar, acabando por inundar o fundo genético com estupidez. Num momento em que a eugenia racial, a política sobre a taxa de natalidade e a preocupação sobre a evolução do QI estão novamente em ascensão, como fica bem esclarecido com a leitura iluminada pelo livro Os bastardos de Hayek, de Quinn Slobodian, esta forma dificilmente pode ser tomada como um modo de crítica social que muitos liberais ou gente de esquerda possam assumir. Por outro lado, quem é que pode ter certeza de que opositores da estupidez reacionária não abrigam às vezes fantasias eugenistas próprias? O período após o voto do Brexit — como tarifas, um ato aparentemente sem sentido de auto-lesão económica — testemunhou murmúrios liberais de que os eleitores típicos do “Leave” eram tão idosos que, quando o Brexit finalmente entrasse em vigor, muitos deles já teriam morrido.
Não é preciso que nos entreguemos a fantasias biopolíticas para supor, ou esperar, que a estupidez oficial eventualmente enfrente o seu merecido castigo. Certamente políticas económicas estúpidas devem resultar em estratégias políticas igualmente estúpidas, levando à perda de poder. Mais uma vez, a experiência recente do Reino Unido oferece um precedente: quando a primeira-ministra Liz Truss colocou os seus próprios dogmas orçamentais acima do julgamento dos mercados de títulos, em setembro de 2022, ela foi rapidamente retirada do cargo (com a ajuda do Banco da Inglaterra), uns meros quarenta e nove dias depois de assumir o cargo. Com Trump, muitos olharam para os mercados de títulos como o último bastião de inteligência num mundo estúpido, como o poder que eventualmente força idiotas a enfrentar as consequências. Isso funciona até certo ponto, especialmente quando os prejuízos financeiros recaem pessoalmente sobre executivos empresariais que têm a proteção do presidente — mas isso apenas apara as bordas da estupidez, afastando os seus piores excessos. A falta de entendimento causal básico de Trump, de como a política A leva ao resultado B, não se limita à política económica, nem ao próprio Trump.
O desafio colocado por esta crise política é como levar a estupidez a sério sem a reduzir totalmente a um fenómeno mental ou psiquiátrico, muito menos reduzi-la a uma questão genética. A estupidez pode ser compreendida como um problema de sistemas sociais, e não de indivíduos, como André Spicer e Mats Alvesson exploram no seu livro The Stupidity Paradox. A estupidez, escrevem eles, pode tornar-se “funcional”, uma característica do modo como organizações operam diariamente, obstruindo ideias e inteligência apesar das consequências negativas evidentes. No entanto, é difícil identificar qualquer coisa funcional na estupidez à Trump, que é menos uma forma de inércia organizacional ou desordem do que um ataque de “terra queimada” às próprias coisas — universidades, saúde pública, dados de mercado — que ajudam a tornar o mundo inteligível. A estupidez trumpista não é um efeito colateral emergente da falha de pessoas inteligentes em assumir o controle; ela é imposta e reforçada. Isso deve ser abordado no plano político e sociológico, sem cair na armadilha oposta do “branquear a estupidez” ou de a defender como sendo uma astúcia estratégica a ponto de se tornar teoria da conspiração
“A deficiência na faculdade de discernir é realmente o que chamamos de estupidez, e não há remédio para isso”. Assim observou Kant, numa nota de rodapé peculiar na Crítica da Razão Pura. A “faculdade” à qual Kant se referia é a capacidade mental da qual, segundo a sua filosofia, dependem tanto o conhecimento como a moralidade: a capacidade de aplicar princípios gerais a casos particulares. Esse tipo de raciocínio é o que nos permite tomar o conceito de um coelho e identificar corretamente uma criatura com orelhas grandes e cauda fofa, ou assumir o princípio de que “se deve dizer a verdade” e aplicá-lo a uma situação social concreta. Kant argumentou que existem várias maneiras de evitar o exercício individual do raciocínio, como a conformidade ao dogma, permitindo que as pessoas escondam assim a sua estupidez. O mesmo tema aparece na sua conhecida definição de Iluminismo como “a saída do homem da sua menoridade autoimposta”. E menoridade, por sua vez, “é a incapacidade de usar a própria capacidade de discernir sem a orientação de outro”. Kant via essa capacidade fundamental de discernir como uma dotação inata e desigual das mentes individuais, oferecendo talvez um protótipo da imaginação eugenista que tomaria forma nas ciências estatísticas um século mais tarde.
A nota de rodapé de Kant foi retomada por Arendt no seu ensaio “Compreensão e Política”, publicado em 1953, dois anos após As Origens do Totalitarismo. As suas reflexões ecoavam em parte o pessimismo das críticas da Escola de Frankfurt à “indústria da cultura”:
Desde o começo deste século, o crescimento do não-senso foi acompanhado pela perda do senso comum. Em muitos aspetos, isso apresentou-se simplesmente como uma crescente estupidez. […] A estupidez no sentido kantiano tornou-se a enfermidade de todos, e, portanto, já não pode ser considerada como “sem remédio”.
Se a versão kantiana do iluminismo agora parecia uma memória distante, um vislumbre de esperança permanecia: a estupidez em escala social tinha de ser remediável, se apenas porque, ausente alguma paranoia eugenista, ela já não podia ser explicada como uma mera deficiência cognitiva entre indivíduos. As pessoas em massa — intelectuais tanto quanto “as massas” — tinham deixado de exercer as suas capacidades de raciocínio, independentemente da sua capacidade de o poderem fazer.
Outra maneira de expressar os pontos de Kant e Arendt seria dizer que a estupidez é a incapacidade de comparar coisas semelhantes ou de medir as coisas; em vez disso, a estupidez apenas repete lugares comuns ou obedece a ordens. Mas quais são as condições sociais e políticas que normalizam isso? Uma delas é uma sociedade em que as pessoas esperam instruções de outrem sobre como pensar: esta é a condição de “menoridade”, como Kant a via, ou de “totalitarismo”, para Arendt.
Esse modelo social da estupidez — cristalizado na imagem orwelliana de drones doutrinados, treinados para obedecer — tem uma plausibilidade superficial como representação do autoritarismo contemporâneo, mas perde uma dimensão crítica das sociedades liberais conforme elas tomaram forma no final do século XX. O raciocínio não foi substituído por uma autocracia pessoal, mas sim externalizado para sistemas impessoais e superinteligentes de coleta e análise de dados. Ao longo das décadas centrais do século XX, o argumento neoliberal a favor dos mercados, feito de forma mais contundente por Friedrich Hayek, sempre realçou que a sua função principal era organizar o conhecimento de uma sociedade. Onde os mercados funcionassem sem atritos e os preços fossem livremente estabelecidos, não haveria necessidade de ninguém exercer capacidades de discernimento além dos seus próprios desejos, vontades e expectativas imediatas. A pessoa “estúpida” tem tanto potencial para prosperar numa sociedade neoliberal quanto a pessoa “inteligente”, porque o sistema de preços, em última instância, decidirá os resultados coletivos. No início do século XXI, à medida que o capitalismo de plataforma tomou força, argumentos semelhantes têm sido apresentados para a “big data” pelo ideólogo do Vale do Silício e ex-editor da Wired, Chris Anderson, e para os exemplos randomizados por controle (RCTs) pelo economista do MIT Abhijit Banerjee: de que eles alegremente tornarão redundantes as teorias, julgamentos e explicações humanas — com todos os seus enviesamentos e erros. Uma vez que tudo seja quantificado, até aos nano-detalhes, nem mesmo a medição será necessária, apenas o reconhecimento algorítmico de padrões. Você não precisa de um conceito de “coelho” para identificar a coisa peluda com orelhas grandes; basta projetar máquinas para identificar qual a palavra que aparece com mais frequência ao lado de uma tal imagem.
Assim, quando as pessoas recorrem aos mercados de títulos para nos salvar da estupidez, elas não estão à espera do retorno do “esclarecimento” ou do “senso comum”, mas apenas que certos comportamentos e políticas recebam pontuações mais baixas do que outros. Da mesma forma, os grandes modelos de linguagem, que hoje prometem tanto, não oferecem julgamento, muito menos inteligência, mas sim um poder incomparável de processamento de padrões, baseado num vasto corpus de precedentes [1]. Às vezes, esse poder pode imitar efetivamente o raciocínio no sentido de Kant, como em diagnósticos médicos gerados por IA. Desde a crítica neoliberal ao planeamento na década de 1970 até ao DOGE de Elon Musk, ataques políticos às formas governamentais e profissionais de autoridade humana servem ao projeto paralelo de abrir espaço para quantificação, comparação e avaliação meta humanas. Ampliar o escopo do comportamento “estúpido” representa uma oportunidade para aqueles que constroem e possuem as plataformas financeiras e digitais que prometem algum grau de inteligência.
A estupidez trumpiana é menos uma forma de inércia ou desordem organizacional do que um ataque de cortar e queimar as próprias coisas -universidades, saúde pública, dados de mercado – que ajudam a tornar o mundo inteligível.
Ainda assim, a busca tecnológica por “ir além” do resto da sociedade, reduzindo assim o papel do julgamento humano, antecede o neoliberalismo. Em A Condição Humana, Arendt identificou o lançamento do Sputnik em 1957 como um ponto de viragem histórico, oferecendo a possibilidade de uma perspetiva extramundana sobre os assuntos mundanos, rebaixando estes últimos no processo. A Guerra Fria, que deu origem à internet e a uma miríade de ferramentas de controle e vigilância, foi uma batalha para alcançar o ponto de vista global mais completo. Nenhum comportamento ou movimento era considerado irrelevante para descobrir as intenções do inimigo — uma visão que o historiador da ciência Paul Edwards apelida de “mundo fechado”. A fixação de Musk com o espaço (a Starlink já tem quase oito mil satélites em órbita) está alinhada com a sua atitude leviana em relação ao julgamento humano. Questionado sobre porque é que afirmou falsamente, como pretexto para cortar o orçamento, que a USAID gastou 50 milhões de dólares em preservativos para Gaza, Musk respondeu casualmente: “Algumas das coisas que eu digo estarão incorretas.”
A plataformização da vida humana significa que verdade e falsidade, facto e boato, tornam-se meros pontos de dados de valor igual. Informações falsas e políticas estúpidas podem movimentar os mercados tanto quanto informações precisas e políticas inteligentes, e assim oferecem oportunidades iguais aos especuladores. Numa manhã de abril, o S&P 500 subiu 6% depois de um boato viral afirmar que a política tarifária de Trump estava a ser suspensa — um boato que o Financial Times rastreou até um utilizador pseudónimo do X chamado Walter Bloomberg, sedeado na Suíça, sem qualquer credencial fora da internet. Um hayekiano poderia apontar que o erro foi rapidamente corrigido — o mercado caiu 6% novamente dentro de uma hora — mas esta foi uma viragem manifestamente estúpida dos acontecimentos.
Num mundo totalmente plataformizado, tudo se reduz ao estatuto de comportamentos e padrões; significado, intenção e explicação tornam-se irrelevantes. Um dos relatos mais incisivos dessa tendência na política contemporânea dos Estados Unidos vem dos cientistas políticos Nancy Rosenblum e Russell Muirhead, na sua análise do “novo conspiracionismo”. A teoria da conspiração clássica (sobre, por exemplo, o assassinato de JFK ou o 11 de Setembro) baseia-se numa imaginação teórica excessivamente elaborada, com cadeias causais complexas, estratégias e alianças. As suas exigências de coerência e significado são excessivas, enquanto a sua tolerância à contingência é atrofiada. Em contraste,
O novo conspiracionismo dispensa o fardo da explicação. Em vez disso, temos insinuação e gesto verbal… não evidência, mas repetição. … O novo conspiracionismo — toda acusação, nenhuma evidência — substitui a validação científica pela validação social: se muitas pessoas estão a dizer, para usar a frase característica de Trump, então isso é suficientemente verdade.
Há forças ideológicas complexas em ação aqui — Rosenblum e Muirhead vêem o novo conspiracionismo como um esforço para deslegitimar a democracia *ponto final* — mas o novo conspiracionismo tem a sua base tecnológica nas plataformas digitais e na ascensão de influenciadores reacionários e “empreendedores da conspiração”. Fantasias extravagantes e sem propósito, como as conspirações disseminadas pelo QAnon [2] ou a suposta encenação do massacre na escola Sandy Hook, existem para serem recitadas e compartilhadas, funcionando como instrumentos de influência e coordenação online em vez de narrativas para dar sentido ao mundo. Elas podem identificar inimigos e reforçar preconceitos, mas não explicam nada nem oferecem um plano político. A única exigência do novo conspiracionista é que as suas afirmações sejam vividas com entusiasmo, curtidas, compartilhadas e repetidas. Empenhamento — e receita — é tudo.
Esta análise leva-nos além do pânico da era de 2016 sobre a “verdade” para nos ajudar a traçar as atuais enchentes políticas da “estupidez”. Quando políticos republicanos vão à TV e fazem afirmações absurdas sobre tarifas, vacinas ou imigração, isso deve ser entendido como “mentira” ou como algo totalmente diferente? Muitas vezes eles estão simplesmente a repetir afirmações que já andavam em circulação, irradiando-se para fora a partir de certos núcleos — especialmente Trump e RFK Jr. — dentro da rede conspiracionista. Algumas afirmações funcionam como juramentos de lealdade (afirmações de que a eleição de 2020 foi roubada), mas a maioria é apenas insana e bizarra, para não mencionar doentia, como a afirmação de que políticas de contratação baseadas em diversidade, equidade e inclusão foram responsáveis pelos incêndios que devastaram Los Angeles em janeiro e pela colisão fatal de aeronaves que matou sessenta e sete pessoas naquele mesmo mês. Tomadas como julgamentos ou explicações, elas levantam questões sobre as faculdades cognitivas ou a saúde mental do orador, mas talvez sejam melhor vistas como memes. Os indivíduos podem parecer estúpidos, mas não são os arquitetos de uma esfera mediática na qual a explicação causal foi sacrificada em favor da imitação simbólica, para preencher tempo e gerar conteúdo.
A estupidez irrita quando é tão flagrante e sem remorso quanto o trumpismo. Nas palavras de Arendt, ela torna-se “insuportavelmente ofensiva entre pessoas ‘inteligentes’”, como aqueles membros do Partido Republicano que permanecem passivos enquanto os interesses nacionais e globais são destruídos. Mas, no âmbito económico, atos de autodestruição gratuita não começaram repentinamente com tarifas. A noção whig [n.t. progressão linear] de que gestores e líderes seguem algum tipo de interesse próprio inato para proporcionar sempre maior eficiência, produtividade e prosperidade — com medo de que fazer o contrário possa resultar na sua queda — foi desmentida repetidamente. O panfleto de Thorstein Veblen de 1919, “Sobre a Natureza e os Usos da Sabotagem”, sugere que adquirimos uma visão distorcida de sabotagem como algo excecional e violento. Se retornarmos ao significado central do termo — derivado do francês sabot, um tipo de tamanco de madeira que trava quem o usa — poderemos entender que a retirada deliberada de eficiência é uma parte frequente e constitutiva do capitalismo. As grandes empresas dependem de bloquear a eficiência social para obter lucro, limitando concorrentes mais ágeis por meio da lei (como patentes) ou até mesmo adquirindo-os para bloqueá-los, como o Facebook/Meta fez repetidamente. As tarifas já serviram como uma forma útil e lucrativa de sabotagem económica no passado (como Trump parece vagamente saber), embora sejam tipicamente uma forma útil para estimular economias situadas num nível muito mais baixo de desenvolvimento industrial do que os Estados Unidos atuais.
Os mercados de títulos vêem com muito bons olhos a sabotagem económica, desde que seja do tipo “certo”. O crescimento económico tende a tornar a dívida pública menos atraente para os operadores em bolsa, enquanto a estagnação económica e a austeridade são bem-vindas. Os preços dos títulos sobem e os rendimentos caem quando os governos se envolvem em atos estúpidos de sabotagem social, como reduzir o financiamento dos serviços públicos, cortar drasticamente orçamentos de bem-estar social e pensões de reforma, e privatizar bens públicos — a maioria dos quais tem consequências orçamentais negativas no longo prazo. A descrição memorável de Yanis Varoufakis das medidas de austeridade impostas à Grécia em 2015 pela Troika como uma “tortura orçamental por afogamento simulado” aponta para como o comportamento “racional” dos credores pode destruir a capacidade dos devedores de se recuperar ou se desenvolver. As perspetivas de um capitalismo bem-sucedido e produtivo foram sistematicamente destruídas por uma fação estreita e pela racionalidade do capital. O vandalismo orçamental tecno-libertário conduzido por Musk e o DOGE pode carecer de tal justificação financeira, mas seria um erro presumir que a classe capitalista não tem tolerância para sabotagem ou estupidez.
No mesmo ensaio refletindo sobre a estupidez, Arendt distinguiu entre compreensão “preliminar” e “verdadeira”. O tipo de juízo que preocupava Kant na Crítica da Razão Pura (cuja ausência constituía “estupidez”) era, para Arendt, necessário, mas apenas “preliminar”. Porque envolve aplicar conceitos e regras já existentes a situações particulares, a compreensão preliminar possui uma espécie de circularidade. Ela pode ser extremamente inteligente e correta, mas fracassa ao confrontar a novidade genuína das ações humanas. Pode-se escapar da forma mais bruta de estupidez e, ainda assim, não compreender verdadeiramente o significado do momento político e histórico. Da mesma forma que os especialistas em cálculo e os estatísticos lutam para calcular mudanças climáticas inéditas e de escala histórica mundial, porque os seus dados vêm totalmente do passado, até mesmo a pessoa ou o sistema mais inteligente pode ficar preso a uma compreensão “preliminar” dos eventos.
Arendt argumentou que existia uma segunda faculdade humana, além da capacidade de julgar, que permitia que a compreensão avançasse para uma apreensão mais verdadeira do significado: a imaginação. A política exige que naveguemos sobre situações incomparáveis e imensuráveis, porque são genuinamente novas. Isso, por sua vez, requer algo mais próximo da capacidade de julgar em estética (como é analisado na terceira Crítica de Kant) do que da capacidade de raciocínio científico (como é analisada na primeira)“. Apenas a imaginação”, escreveu Arendt,
nos permite ver as coisas na perspectiva correta, para ser suficientemente forte para colocar o que está muito próximo a uma certa distância, para que possamos ver e entender sem parcialidade e preconceito, para ser suficientemente generoso para aproximar abismos de afastamento até que possamos ver e entender tudo o que está muito longe de nós, como se fosse o nosso próprio caso.
O desafio que Arendt nos coloca é pensar a verdade e o significado não a partir da perspetiva do economista, analista financeiro, cientista de dados ou sociólogo, mas sim do historiador — daquele tipo que vê os eventos humanos como uma série de ruturas, anomalias e iniciações. É isso que o “mundo fechado” da vigilância de plataformas e do mercado não pode oferecer: uma forma de compreensão que não é redutível ao empírico. A “inteligência” artificial ou de mercado tem a capacidade de aprender em velocidade ultrarrápida a partir de dados existentes, mas o seu leque de resultados possíveis, embora extremamente amplo, é ainda numerável e, portanto, finito. No espaço de tais “mundos fechados” enquadrado pelas dinâmicas dos jogos, a história está concluída, e tudo o que resta são muitos e muitos comportamentos. Todo o acontecimento, fala ou ideia concebível já está lá fora, seja no computador em tempo real do mercado, seja no arquivo do banco de dados, esperando para ser descoberto.
Trump e a sua administração são, sem dúvida, ofensivamente estúpidos. Eles não sabem o que estão a fazer, não entendem os precedentes ou os factos envolvidos, e não têm nenhuma curiosidade sobre as consequências, humanas ou não humanas. O fiasco das tarifas foi o maior impulso à legitimidade da profissão de economia na memória recente, mostrando, por uma série de resultados experimentais brutos, que o comércio internacional, no geral, aumenta a prosperidade e a eficiência. Acontece que os conceitos fundamentais da macroeconomia têm, afinal, algum controle empírico sobre o mundo, e ignorá-los é um ato de estupidez. Tragicamente, um processo semelhante de “fazer asneira e descobrir as consequências” está em andamento na saúde pública. A destruição promovida pelo DOGE e pelos republicanos do Congresso contra o setor público, e por várias alas do governo federal contra as universidades, é potencialmente explicável como um ato de sabotagem capitalista em favor do capital de IA: desmantelando centros de conhecimento humano para permitir que a aprendizagem não humana explore a estupidez resultante. Mas, mesmo na interpretação mais indulgente e libertária de uma tal estratégia, os efeitos sociais e culturais serão devastadores.
Se a nossa única alternativa à estupidez é reinstalar a “compreensão preliminar” da ortodoxia especializada (por mais bem-vinda que possa ser em algumas áreas), então não haverá reflexão sobre as condições históricas mais amplas da estupidez, nem sobre a extensão de políticas e processos estúpidos que não são apenas tolerados mas sim valorizados pelo capitalismo contemporâneo. A externalização do raciocínio para os mercados financeiros, plataformas digitais e fusões entre os dois também é um convite para que as pessoas se comportem de forma estúpida, embora dentro de sistemas governados por alguma forma esotérica de razão matemática. Seria absurdo procurar esperança em Trump e no trumpismo, mas talvez a estupidez em um nível histórico-mundial como esse possa, ao menos, oferecer uma oportunidade para a “verdadeira” compreensão. Nada — mercados, robôs de conversação ou máquinas — nos pode salvar, exceto a nossa imaginação.
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Notas
[1] Os modelos LLMs da IA (modelos de linguagem de grande escala) também apresentam um modo de raciocínio que é inteligente dentro dos seus próprios limites, mas comicamente estúpido quando ultrapassados esses limites. O recurso de busca gerado por IA do Google foi solicitado a explicar o significado de idiomas absurdos inventados e sem sentido — como “não se pode lamber um texugo duas vezes” e “desenhe uma vez, apague duas vezes,” —, o que fez com confiança, produzindo torrentes de asneiras. Os professores também estarão familiarizados com a experiência de ler redações de estudantes que não são nem muito boas nem muito más,, mas que apresentam aquela combinação estranha do inteligente com o estúpido, característica da escrita de IA.
[2] N.T. QAnon é uma teoria da conspiração infundada de extrema-direita que alega a existência de uma cabala global de elites (políticos, empresários, celebridades) adoradores de Satanás e pedófilos que controlam o mundo e conspiram contra Donald Trump. Originado em 2017 no 4chan, o movimento ganhou força com a pandemia e influenciou eventos como a invasão do Capitólio em 2021.
O autor: William Davies [1976 – ] é um escritor, político e sociólogo britânico. É professor de Economia Política na Goldsmiths, Universidade de Londres. Os seus trabalhos centram-se sobre os problemas do consumismo, felicidade e a função da experiência na sociedade. Publicou artigos em diferentes revistas e jornais, como The Guardian, New Left Review, London Review of Books, openDemocracy e The Atlantic. Em 2015 publicou o seu segundo livro, intitulado A felicidade da indústria, no qual avalia a relação entre o capitalismo de consumo, o big data e a psicologia positiva. Davies é co-diretor do The Political Economy Research Centre em Londres.

