Se no início não conseguir encontrar-me, não desanime
Se não me encontrar num lugar, procure noutro,
Eu pararei em algum lugar à sua espera
“Song of Myself” de Walt Whitman
Parte I – Morte da cultura e o regresso à barbárie e ao pensamento mágico
“Sem a palavra, sem a escrita dos livros, não há história, não há conceito de humanidade”
Hermen Hesse
7 min de leitura
Texto 17. Algumas reflexões em torno dos textos nº10 e nº11 da Parte I – Morte da cultura e o regresso à barbárie e ao pensamento mágico
Coimbra, em 5 de Julho de 2026
Sublinho a importância do texto nº 10
Crises de civilização e de ensino, num mundo em profunda policrise —- Parte I – Texto 10. Como é que a educação pública falhou nos redutos liberais que mais se preocuparam com ela (2/2). Por Andrew Rice (ver aqui).
e francamente sugiro que o leiam e que olhem à vossa volta, porque encontrarão vários pontos de semelhança entre o que Andrew Rice descreve sobre uma das zonas mais privilegiados dos Estados Unidos e o que se passa no nosso burgo. Lá como cá, as reformas sucederam-se e hoje, século XXI, discute-se vivamente nos EUA como é que se deve ensinar as crianças a ler e a escrever, se se deve aprender ou não a tabuada por memorização, como em Portugal se poderia discutir como é que se deve ensinar português na primária e no secundário ou como é que na primária se deve ensinar a fazer as quatro operações algébricas fundamentais.
Tal como nos Estados Unidos, reformas sobre reformas, é o que está também a acontecer em Portugal e à conta dos seus fiascos já se começa a falar na queda do atual ministro da Educação, talvez o melhor ministro da Administração Montenegro. E se tal acontecer, isso mostra como é que o poder político tritura as pessoas por mais competentes e diferenciadas que elas sejam à partida, para serem depois todas iguais, desumanizadas. Se essa queda acontecer, direi que é pena, e é pena porque garantidamente o ministro que vier a seguir será bem pior que ele. O atual ministro da Educação sabe da poda, é um tipo inteligente, e tem o sentido de humanidade raro para um ministro no poder, um sentido que claramente falta a vários ministros da atual Administração.
Se tal acontecer, frise-se, será curioso, porque cairá então por querer dar passos mais compridos que a própria perna, com a mania de querer reformar repentinamente o sistema, mas de modo que possa ficar tudo na mesma e com uma nova roupagem. É a lógica de Montenegro. Ao contrário, as reformas ao nível das instituições são coisas para fazer devagar, muito devagar, sobretudo quando se envolve nelas muitas pessoas, e a serem realizadas só depois de asseguradas as condições materiais para a sua concretização. Porém, a fome de reformas para se parecer melhor que qualquer dos ministros anteriores leva muitas vezes a opções apressadas e isso paga-se caro. É o que poderá estar a acontecer agora. Mesmo supondo que o sentido das reformas propostas pelo ministro possa ser considerado correto, e seguramente não o é, ao falhar-se publicamente como se está agora a falhar, isso significa que aos erros anteriores que não se corrigem se adicionam os erros gerados por estas novas falhas e a situação degrada-se cada vez mais. E é assim que muitos ministros caem. É da história.
A escrever este texto recebo de um amigo meu o seguinte email:
“Caro Júlio;
O que está a acontecer com os exames nacionais é o maior escândalo das últimas décadas.
Se o teu ex-aluno tivesse um mínimo de pudor, demitia-se. Falas dos perigos da IA; aqui a coisa é mais rasteira e pobrezinha: o deslumbramento com a mais que testada tecnologia informática, usada com incompetência, precipitação e desleixo.
O governo é muito fraco, mas este Ministro acompanha o nível pobrezinho da equipa do provinciano Montenegro.
Finalmente, já viste o grau de estupidez a que se pode chegar criando uma IA nacional? Amália é o exemplo máximo da inépcia de quem nos governa. A Google assenta na solidez dos dados que da melhor e da pior maneira reuniu.
A Amália é a omelete sem ovos.” Fim da citação
Mas deixemos Portugal que no contexto da nossa série de textos é apenas um ponto e que cabe a cada um dos leitores depois desenvolver e por razões que passo a explicar.
Quando pedi relatórios e recensões sobre cada uma das 5 partes que constituem a série à ferramenta Claude Sonnet 4.6 uma das críticas que me foi levantada foi de que não havia nenhum texto específico sobre Portugal. Expliquei que isso era intencional e por três razões:
- O problema da crise civilizacional e de ensino é um problema geral e, portanto, podia procurar mais facilmente fora do espaço português uma maior e mais profunda variedade de textos. Não é por acaso que um dos textos da primeira parte nos fala da degradação sem fronteiras dos nossos cérebros.
- Não falando em termos da situação portuguesa evitávamos assim leituras que poderiam ser tomadas como ajuste de contas contra pessoas ou instituições e leituras destas minimizariam o impacto pretendido. E não tenho contas a ajustar com ninguém. Evita-se também que se politize a série em excesso se bem que, quer se queira quer não, o plano político das opões de ensino que têm sido desenvolvidas está sempre implicitamente presente na explicitação dos grandes fiascos na educação.
- E, por fim, mas não menos importante, pretende-se que o leitor parta da leitura em profundidade dos próprios textos e consiga inserir-se com eles na compreensão da realidade portuguesa quer quanto à ideia de crise civilizacional quer da crise do ensino em geral num mundo em profunda policrise. Esse é um trabalho do leitor, o de procurar olhar para a realidade que o rodeia ou em que está a nível nacional inserido, a partir dos textos publicados e tirar as suas próprias conclusões para a situação em Portugal.
A crise é geral é e disso que nos fala o texto nº 11 de Mary Harrington:
Crises de civilização e de ensino, num mundo em profunda policrise —- Parte I – Texto 11. O pensamento está a tornar-se um bem de luxo. Por Mary Harrington (ver aqui) e é este um texto sobre a perda da capacidade de pensar, de refletir, de julgar, que se está a generalizar e à escala mundial.
A situação no ensino é grave, mas não podemos esquecer que se o ensino está doente, muito doente, numa sociedade que quanto a isto está calada, e quem cala consente, é porque a sociedade também está ela muito doente, tanto ou mais que o sistema de ensino que ela alimenta.
O exemplo da fraude massiva que ocorreu em Brown com o professor Roberto Serrano a exigir medidas perante o silêncio da direção da Universidade Brown mostra isso mesmo, que a crise é geral e que é incorreto a conclusão de Jesús G. Maestro, no artigo “Deserção nas salas de aula? A solução é muito clara e está nas tuas mãos: dá conhecimentos úteis aos teus estudantes e não terás lugar na sala de aula para todos eles”, onde conclui:
“Em suma, a minha resposta e conclusão perante a pergunta que dá título a este artigo não é psicológica nem geracional («os jovens não se querem esforçar»), mas institucional: a universidade perde interesse e frequência porque renunciou a exigir e a oferecer conhecimentos úteis, menosprezou a autoridade académica e substituiu a ciência pela ideologia. E para satisfazer as ideologias das pessoas, as instituições são dispensáveis”. Fim de citação.
Diremos que o artigo tem muitíssimo de verdade na sua exposição, mas é perigoso na sua conclusão porque esta é muito redutora. Quando sinto que nas esplanadas de Coimbra há estudantes a mais e alunos a menos nas aulas, as razões para esta realidade serão muitas e a apontada por Maestro pode até ser a menos importante delas porque não pode expressar nenhuma generalidade. O exemplo de Brown pela tripla realidade que representa, em termos de professores, alunos, instituições, internas e externas, diz-nos isso mesmo. Para uma visão da crise pela parte dos jovens em vez da explicação de Maestro prefiro a seguinte explicação de Kyla Scanon expressa no artigo “Uma geração de trapaceiros: o fim da honestidade académica, patrocinado pelo ChatGPT” (original aqui) onde ela levanta a seguinte questão: Para que serve a educação, afinal?
E explica:
“Afinal, o que é que um diploma certifica hoje? O que é que uma média alta, impulsionada pelo ChatGPT, realmente garante? Se a IA vai eliminar metade dos empregos de nível inicial, que tipo de “integridade” estamos a tentar proteger no processo educativo?
Muitos pais estão a ter dificuldade em fazer cumprir as regras de um jogo no qual já não acreditam. Chris Camillo, investidor e autor, disse em voz alta o que muitos pensam em silêncio num recente programa na internet:
“Mas havia uma parte de mim, lá bem no fundo, que me dizia: ‘Será que isso ainda é importante?’ Eu olhava para o meu filho e pensava: ‘Porque é que andas na escola agora?’ Sei que isso parece loucura e que não posso realmente dizer-lhe isso, mas eu questionava-me: ‘Será que tudo isto tem ainda sentido, neste momento? O mundo está a mudar tão rapidamente, e eu nem consigo imaginar de quantas são as coisas que tu ainda aprendes e até que ponto tudo isso pode avançar tão lentamente.”
Pais, professores e alunos precisam de lidar com o significado da educação na era da IA, e muitos defendem a criação de cursos de literacia em inteligência artificial, já que essas ferramentas “não vão desaparecer”, como afirmou Victor Lee, professor associado da Escola de Educação de Stanford, numa entrevista de 2023.
Alguns pais nem sabem como abordar o assunto. O Pew Research Center descobriu que cerca de 30% dos pais não sabem se os seus adolescentes usam ferramentas de IA, e aproximadamente 40% nunca tiveram uma conversa com seus filhos sobre robôs de conversação.
Esse problema está relacionado com uma ansiedade económica mais ampla que se tem vindo a acumular desde há anos. A Geração Z viu a cultura da hiperprodutividade e do “trabalhar sem parar”, consumir a geração do Milénio (pessoas nascidas aproximadamente entre 1981 e 1996.) e decidiu que talvez esse não fosse o sonho ideal, dando origem a fenómenos como o “quiet quitting” (desistência silenciosa). A geração que está a entrar na escola agora tem irmãos mais velhos que fizeram tudo certo — tiraram boas notas, conseguiram os estágios perfeitos — e, ainda assim, hoje não conseguem sequer um emprego de nível inicial.
Talvez ainda mais alarmantes sejam as descobertas recentes de dois economistas que estudam o crescente desespero entre os jovens trabalhadores. O retorno psicológico proporcionado pelo trabalho deteriorou-se mais para os jovens do que para qualquer outro grupo. Antigamente, o trabalho ajudava a proteger as pessoas do desespero. Para os jovens americanos, isso está a deixar cada vez mais de acontecer. O padrão tradicional, no qual um emprego funcionava como uma força de proteção psicológica, deixou de existir para a geração mais jovem de trabalhadores dos Estados Unidos.
Ter um diploma universitário ameniza um pouco esse desespero, mas, assim como o prémio salarial associado ao ensino superior parece estar a diminuir, o mesmo acontece com o ganho de bem-estar proporcionado pela formação universitária.
As empresas estão a apostar que podem crescer sem contratar mais pessoas. Isso vai além dos jovens — trabalhadores de todas as idades estão a receber uma parcela cada vez menor do rendimento interno bruto. CEOs de empresas de IA, como Dario Amodei, da Anthropic, aparecem em todos os tipos de veículos de media a dizer coisas como: “A IA não é um substituto para empregos humanos específicos, mas sim um substituto geral do trabalho humano.”
A mensagem que estamos a transmitir aos nossos jovens é: ‘Já não precisamos de vocês’. Assim, é claro que fazer academicamente batota parece uma escolha lógica, porque a escada do trabalho árduo, neste momento, não parece levar a lado nenhum.
Eis o problema: o custo de fazer batota caiu para zero. O sistema de recompensas que antes fazia com que a honestidade valesse a pena está a desmoronar-se. E a resposta institucional tem-se concentrado em métodos de deteção ineficazes. Mas não é possível resolver esta crise de legitimidade apenas através da imposição de regras.
A versão otimista desta história é que a educação se irá reorganizar em torno daquilo que a IA não consegue fazer: síntese, discernimento, criatividade e a capacidade de formular a pergunta certa, em vez de apenas responder à que lhe é apresentada. Afastar-nos-emos da memorização mecânica e aproximar-nos-emos da demonstração do pensamento, algo que os professores por todo o país já estão a fazer.[1]
A versão menos otimista é que estamos a assistir às fases iniciais de uma erosão da legitimidade que vai além do desenho curricular. Se mais de metade dos estudantes do ensino secundário já concordavam (antes do ChatGPT) que «as pessoas bem-sucedidas fazem o que têm de fazer para vencer, mesmo que os outros considerem isso uma forma de batota», então a questão da IA está a expor um problema que já existia e a eliminar a última barreira que o mantinha sob controlo.
(…)
O custo de cometer fraude académica ou de ser desonesto caiu para zero. A recompensa por ser honesto já não parece convincente. E os adultos que deveriam fazer cumprir regras criadas para um mundo diferente têm dificuldade em explicar porque é que essas regras ainda fazem sentido.
A questão aqui não é se os estudantes estão a ser desonestos na escola. A verdadeira questão é saber se conseguimos reconstruir algo que valha a pena ser honesto.” Fim de citação (n.t. O negrito é nosso)
Voltando ao ministro da Educação e às suas reformas, direi que Fernando Alexandre ; é talvez o primeira figura no cargo de ministro da Educação que tenha tido consciência de um grave problema social: a de que temos uma juventude mentalmente doente, um problema grave que vem de muito atrás e que o COVID e a desregulação dos mercados de trabalho aceleraram, um problema que se complicaria ainda muito mais se a atual ministra do trabalho, Maria do Rosário Palma Ramalho, levasse avante a sua Lei Laboral. A insensibilidade, ou até mesmo a desumanidade reina na atual Administração de Montenegro.
Consciente do problema o que é que nos propõe o ministro Fernando Alexandre? Uns cheques para ir ao psicólogo., uma experiência que há décadas terá sido tentada no Instituto Superior Técnico e pelas notícias de então, creio que sem resultados significativos. Naturalmente assim, uma vez que, sem alteração das condições materiais que geram esses desequilíbrios, as idas ao psicólogo poderão ajudar não a resolver a situação, mas a que cada um se molde à situação. Lampedusa em grande escala.
Parafraseando Kyla Scanlon diremos:
A questão de base aqui não é se os estudantes estão a ter um comportamento doentio ou não. A verdadeira questão é saber se conseguimos reconstruir a sociedade de modo a dar-lhes outro sentido de vida, de modo a dar-lhe razões pelas quais possam bater-se e por elas conviver e viver
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[1] Nota do tradutor. Curiosamente, o artigo a que a autora se refere tem como título e subtítulo: “The Rise of AI Tools Forces Schools to Reconsider What Counts as Cheating High school and college educators say that student use of artificial intelligence has become so widespread that they need to rethink how to assign and assess students


