Se no início não conseguir encontrar-me, não desanime
Se não me encontrar num lugar, procure noutro,
Eu pararei em algum lugar à sua espera
“Song of Myself” de Walt Whitman
Parte I – Morte da cultura e o regresso à barbárie e ao pensamento mágico
“Sem a palavra, sem a escrita dos livros, não há história, não há conceito de humanidade”
Hermen Hesse
Nota de editor:
Este décimo quinto texto da parte I – Morte da Cultura e o Regresso à Barbárie e ao Pensamento Mágico é composto por oito textos sujeitos ao tema Degradação Mental sem Fronteiras., do sítio The Bafler. Hoje publicamos o primeiro texto a modo de introdução da autoria de Nicolás Medina Mora.
FT
Seleção e tradução de Júlio Marques Mota
3 min de leitura
Texto 15. Degradação mental sem fronteiras (1/8)
Despachos de um mundo pós-letrado
Publicado por
Baffler Symposium no. 81, em Novembro de 2025 (original aqui)

Tanto em termos de números absolutos quanto como proporção da população global, mais pessoas sabem ler hoje do que em qualquer outro momento da história. E, no entanto, se considerarmos a literacia não como a capacidade de decifrar frases simples, mas como a aptidão para compreender e fruir textos complexos — e, em última análise, como uma sensibilidade que torna o próprio mundo mais próximo como um texto que requer interpretação — é evidente que vivemos um declínio sem precedentes daquilo que a neurocientista Maryanne Wolf denomina “literacia profunda”. As manifestações desta catástrofe vão desde a ascensão de teorias da conspiração de carácter psicótico até ao regresso da propaganda de Estado e ao colapso da esfera pública. A crise torna-se, porém, mais nítida no declínio súbito e acentuado da prática cultural que primeiro nos ensinou a todos a ler o grande livro do mundo. Já não faz sentido negá-lo: a literatura, tal como a conhecemos, está bem encaminhada para se tornar uma arte perdida.
Considere, por exemplo, o estado perturbador da leitura e da escrita nos Estados Unidos. Discordo da proclamação de Philip Roth, de 2009, segundo o qual o romance em breve passaria a ser apenas um exercício de “culto” — não porque acredite que a ficção literária esteja a viver algum tipo de apogeu no âmago do império americano, mas porque estou convicto de que a literatura sempre foi uma prática esotérica nos Estados Unidos. Na altura da sua morte, Roth era mais famoso do que quase qualquer outro escritor literário americano vivo, mas isso é apenas uma maneira tortuosa de dizer que a sua influência sobre a cultura mais ampla era insignificante. Ao contrário de Gabriel García Márquez, ele nunca se tornou a voz da nação — ou sequer da língua — não por falta de talento ou dedicação, mas porque os Estados Unidos reservam esses papéis para músicos como Bob Dylan, o único laureado com o Nobel de Literatura com atividade predominantemente na tradição oral. Na década e meia transcorrida desde que Roth profetizou o recolhimento do romance americano para o templo sem janelas de uma seita marginal de cismáticos, a literatura nos Estados Unidos e no mundo anglófono deteriorou-se a um ritmo mais acelerado do que o aquecimento climático do nosso planeta. Como evidência disso, observe-se uma seleção das cinquenta obras de ficção que, desde 2020, figuraram na lista anual de bestsellers dos EUA da Publishers Weekly: Dog Man: Grime and Punishment, Dog Man: Twenty Thousand Fleas Under the Sea, Dog Man: Fetch-22, Dog Man: Mothering Heights e Dog Man: The Scarlet Shredder. O facto de as novelas em banda desenhada destinadas a ensinar crianças a ler constituírem uma proporção tão grande do mercado editorial americano talvez sugira que a maioria dos adultos americanos perde todo o interesse pela literatura assim que atingem a alfabetização básica.
O estado da literatura anglófona é tão lamentável que pensar no declínio das letras americanas já não provoca desespero — apenas irritação e tédio. Num esforço para sacudir esse incómodo e escapar, ainda que brevemente, das garras da hegemonia cultural norte-americana, The Baffler convidou sete escritores que trabalham em línguas diferentes do inglês para escreverem sobre o estado da pós-literacia nas suas terras natais e línguas maternas.
Os relatos desses correspondentes são revigorantes precisamente por estarem inteiramente livres dos lugares-comuns com que os americanos costumam explicar o declínio da palavra escrita — como, por exemplo, confundir o sintoma com a doença e culpar o ChatGPT pela queda vertiginosa da compreensão da leitura entre os estudantes, como se as pessoas não tivessem começado a esquecer como se lê muito antes de as máquinas Faustianas baseadas nos modelos das cadeias de Markov se tornarem o objeto fetiche de uma teologia apocalíptica – e que nos lembram que há mais coisas no céu e na terra para além daquilo com que sonham as editoras americanas, em que as pessoas acreditam que ler literatura traduzida é prova de sofisticação cosmopolita, e não o refúgio natural do monolinguismo.
É meu infeliz dever advertir o leitor que os textos incluídos neste dossier nos dão poucas razões de esperança. Da Coreia do Sul ao Sudão, da China ao México, de Marrocos às Filipinas, a literatura parece estar em retrocesso. O pior é que, embora cada infeliz literatura seja infeliz à sua própria maneira, as várias distopias que os nossos correspondentes descrevem parecem estar a convergir numa única catástrofe literária. E embora as causas da mensagem comum que estes escritores apresentam variem enormemente, é possível discernir uma tendência aterradora: a perda da literacia profunda não é um desenvolvimento orgânico nem um acidente sem autor, mas antes a consequência intencional de ações concretas levadas a cabo pela aliança profana do capital e do Estado, que se serviu da tecnologia para lentamente corroer a nossa capacidade de compreender o que lemos — e, portanto, de imaginar um futuro mais justo.
Deprimente, eu sei. Mas como Gramsci nos ensinou, o desespero transforma-nos em reacionários. Seria ingénuo fingir que ler um romance ou traduzir um poema pode constituir uma forma de resistência. Mas quem sabe? Talvez reinventar as velhas formas literárias pudesse ajudar-nos a inverter o impulso do momento atual em direção à estupidez. Melhor ser academicista do que estúpido
___________
Nicolás Medina Mora é um romancista mexicano. O seu primeiro romance, América del Norte, foi publicado em 2024 (Soho Press). Publica una newsletter en inglés, Foreign Correspondence. É licenciado em Humanidades por Yale e mestre em Criação literária pela Universidade de Iowa.


