Se no início não conseguir encontrar-me, não desanime
Se não me encontrar num lugar, procure noutro,
Eu pararei em algum lugar à sua espera
“Song of Myself” de Walt Whitman
Parte I – Morte da cultura e o regresso à barbárie e ao pensamento mágico
“Sem a palavra, sem a escrita dos livros, não há história, não há conceito de humanidade”
Hermen Hesse
Nota de editor:
Dada a extensão e densidade deste décimo sexto texto da parte I – O Rei e o Enxame, por Mary Harrington -, o mesmo é publicado em duas partes, hoje a segunda.
FT
Seleção e tradução de Júlio Marques Mota
11 min de leitura
Texto 16. O Rei e o Enxame (2/2)
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(2ª e última parte)
A transformação digital foi, nos seus primeiros dias, em grande parte recebida como mais um passo em frente na revolução contínua da modernidade. A internet pareceu, à primeira vista, representar apenas uma democratização adicional do espaço discursivo, semelhante àquela proporcionada pela imprensa. Obras como Here Comes Everybody, de Clay Shirky, celebravam as possibilidades que ela parecia oferecer, com um novo exército de especialistas amadores transformando novamente a cultura, de baixo para cima. Ao mesmo tempo, formas de participação pública mediadas digitalmente ampliariam e aperfeiçoariam o processo político democrático, de acordo com o paradigma da era da impressão. A política seria transformada de baixo para cima, num processo agora tecnologicamente turboalimentado, dentro de uma visão da realidade presumida como inerte, dessacralizada e atomística.
Mas esta interpretação inverte os termos da questão. Em termos whigs, o digital não é uma revolução, mas um golpe de força (putsch), pois a comunicação digital difere da impressa não apenas em quantidade, mas em natureza. Todas as evidências sugerem que o digital é hoje tão poderoso quanto a imprensa foi após Gutenberg na formação da consciência daqueles que passam grande parte do tempo envolvidos com ela. No entanto, o digital molda essa consciência de maneiras radicalmente diferentes, algumas das quais enfraquecem o desenvolvimento daquela subjetividade racional e analítica sobre a qual se fundamenta o projeto modernista, bem como o seu modo preferencial de governança.
Hoje não faltam comentários preocupados por parte de académicos que estão na linha da frente, sobre o já muito evidente declínio cognitivo de um corpo estudantil que trocou a leitura pelo deslizar incessante no ecrã. Um professor de uma universidade pública regional, que escreve sob o pseudónimo “Hilarius Bookbinder”, descreve a sala de aula típica como estando cheia de “zombies desligados da realidade e viciados no telemóvel”, alguns dos quais não conseguem assistir a uma aula de cinquenta minutos sem sair para verificar os seus telefones. O autor descreve como é que “o nosso licenciado médio, literalmente, não conseguiria ler um romance sério para adultos do princípio ao fim e compreender o que leu. Simplesmente não conseguiria. Não tem o desejo de tentar, o vocabulário necessário para compreender o que lê e, certamente, não tem a capacidade de atenção necessária para acabarem de o ler”. E se o efeito distrativo do deslizar contínuo nas redes sociais, característico da chamada “economia da atenção”, fragmenta a capacidade de absorver e envolver-se com raciocínios longos e complexos, alguns começam a suspeitar que a dependência excessiva da IA generativa atrofia de forma ainda mais radical a capacidade de pensar. Um estudo recente realizado por investigadores da Microsoft e da Carnegie Mellon indica que uma maior dependência da IA generativa está correlacionada com níveis mais baixos de pensamento crítico.
Uma reportagem do Financial Times publicada no início deste ano mostrou que, em todo o mundo, as capacidades de raciocínio verbal e numérico, bem como a concentração, estão em declínio, depois de terem atingido o seu auge na década de 2010. O autor associa esse declínio à ascensão de uma sociedade “pós-letrada” e à substituição da leitura focada e intencional por mudanças constantes de contexto e pela rolagem interminável de conteúdos. Apenas 54% dos americanos terão lido um único livro no último ano. A queda na leitura está diretamente ligada à disseminação de alternativas digitais.
O uso excessivo de dispositivos está, por sua vez, correlacionado com a pobreza, mas não se limita às pessoas menos favorecidas. Como exemplo anedótico, num voo recente de São Francisco para Boston, contei quantos dos meus companheiros de viagem (presumivelmente, em grande parte os “americanos das costas”, que se orgulham da sua educação e racionalidade) estavam a ler livros ou e-books: o número rondava os 10%. Os restantes estavam a ver vídeos ou a percorrer conteúdos nos seus dispositivos.
O quadro incontornável que emerge, a partir de praticamente todos os indicadores disponíveis, é inequívoco: a literacia profunda está a desaparecer rapidamente. Se essa amostra anedótica de 10% dos passageiros do voo for minimamente representativa, a literacia profunda poderá acabar por se tornar uma prática minoritária, aproximando-se dos padrões culturais do Ocidente anteriores à invenção da imprensa. E este desenvolvimento representa uma espécie de golpe de força porque, como argumenta o pensador Adam Garfinkle, as normas e os hábitos mentais cultivados pela leitura extensa e aprofundada são precisamente aqueles sobre os quais assenta o projeto de uma ampla participação democrática.
Por um lado, uma transição desse tipo compromete radicalmente a capacidade dos líderes políticos de contar com a aptidão do público para o raciocínio analítico de longo prazo. Isso já pode ser percebido nas críticas de todos os liberais clássicos à deterioração de normas associadas à cultura impressa, como a racionalidade científica e o debate público civilizado. Cada um desses comentadores está, na verdade, a lamentar a derrota da cultura impressa pela cultura digital. A isso poderíamos acrescentar inúmeros outros fenómenos discursivos possibilitados pelo ambiente digital: cultura do cancelamento, pânicos morais, polarização, guerras de memes e assim por diante. O alarme que os educadores em todo o mundo desenvolvido têm vindo a fazer soar destaca o quanto essa transformação da cidadania se tornará ainda mais acentuada à medida que sucessivas gerações verdadeiramente nativas da internet atingirem a idade adulta.
Não há como reverter essa transformação: a internet não tem um botão de “desligar” e, em julho de 2025, já existem adultos em idade de votar que nasceram depois do lançamento do primeiro iPhone. Todas as culturas que passaram de um modelo centrado nos media impressos para um modelo centrado no digital deixaram, nesse processo, de formar a sua população para a cidadania democrática. Muito simplesmente, ela passou a produzir o tipo errado de sujeito para a democracia.
Mas a diminuição da capacidade de pensamento objetivo e analítico não é a única consequência do golpe digital. A leitura digital não está a “tornar as pessoas mais burras” em qualquer sentido absoluto, apenas menos analíticas. E, no meio do alarmismo em torno dos telemóveis e do QI, há outro efeito transformador da consciência que tem passado relativamente despercebido: o ressurgimento de modos de pensamento que realçam padrões, imagens e simbolismo.
A forma física da literatura impressa convida ao raciocínio linear de longo fôlego, à reflexão analítica e ao aprofundamento da interioridade subjetiva. Em contraste, como argumenta o crítico social Nicholas Carr, a leitura digital está repleta de distrações e ligações multidirecionais, sendo caracterizada por um volume e uma variedade avassaladores de informação. Navegar por informações nesse formato exige um modo diferente de consumo de conteúdo — um modo que responde à sobrecarga informacional filtrando menos pela lógica linear e mais pelos padrões latentes.
Na minha própria observação, o consumo de conteúdo na internet prejudica a concentração prolongada, mas aumenta a perceção de padrões de significado compartilhado, que ecoam formas mnemónicas de comunicação mais características da cultura medieval do que da modernidade. O jornalista Tyler Cowen relata ter tido correspondência com um professor que confirma essa observação entre os seus alunos. Segundo esse professor, “a capacidade dos alunos de processar e trabalhar com um texto de forma linear e convencional diminuiu”, mas, ao mesmo tempo, a sua capacidade de “encontrar padrões ou ligações entre textos aumentou substancialmente”.
É claro que uma pessoa condicionada a detetar e interpretar padrões dessa maneira não necessariamente aplicará essa capacidade ao mundo offline. Mas, assim como a experiência da leitura prolongada produziu efeitos epistemológicos muito além da página impressa, é razoável esperar que essa nova tecnologia da informação faça o mesmo. E isso, por sua vez, tem consequências de longo alcance, não apenas políticas, mas também metafísicas — sobretudo ao recuperar aqueles aspetos da conceção medieval da realidade que foram rejeitados no surgimento da ciência moderna: as causas formal e final.
Mais recentemente, investigadores do campo interdisciplinar da biossemiótica reavaliaram descobertas das ciências naturais à luz da filosofia contemporânea para argumentar que o “significado” não é um fantasma projetado pelos seres humanos sobre uma realidade mecanicista e atomística, mas sim um componente fundamental dessa própria realidade. O significado não reside no “sinal”, isto é, em ocorrências excecionais ou incidentais. Ele reside no quotidiano ou no normativo, ou seja, nos padrões. Disso decorre que uma renovada capacidade popular de discernir padrões implicará um interesse renovado por — e uma maior capacidade de apreender — o significado como uma característica real do mundo, e não apenas como um obstáculo fantasmagórico ao seu estudo. Como argumenta a filósofa Wendy Wheeler, o estudo das ecologias como sistemas produtores de significado requer uma “ontologia das relações”, isto é, uma ontologia baseada na direccionalidade ou na finalidade.
Em termos mais simples, o golpe digital concentra o poder cognitivo. Mas também reabre espaço para o retorno do significado e do propósito, bem como das causas formal e final, à consciência pública quotidiana. Com esse retorno surge uma avaliação menos instintivamente hostil dos padrões “naturais” ou dados, como se observa, por exemplo, na crescente rejeição popular do dogma da tábua rasa em relação ao dimorfismo sexual humano. Um renovado realismo acerca desses dados implica uma avaliação pragmática das assimetrias de poder que não podem ser erradicadas. E tudo isso prepara o terreno para uma reavaliação crítica das nossas formas políticas predominantes.
Esta não é, contudo, uma história reconfortante de um marginal “reencantamento” do mundo que deixaria o restante intacto. O golpe digital levanta questões graves, talvez mais urgentemente no que diz respeito à forma política e ao governo justo. Se, coletivamente, “Nós, o Povo” já não parecemos sujeitos racionais da era da imprensa, é provável que a nossa contribuição eleitoral para a tomada de decisões políticas acabe ainda mais diluída do que numa “democracia televisiva”. E a mais amarga batalha metapolítica contemporânea recupera o problema político medieval de como evitar que a autoridade absoluta degenere em tirania. Os polos emergentes são, por um lado, aqueles que desejam evitar a tirania redobrando a aposta nos “valores” democráticos da era da imprensa e, por outro, aqueles que acreditam que esses mesmos valores deram origem a uma nova forma de opressão.
O primeiro polo é o modelo que é chamado afetuosamente por seus apoiantes, e de forma depreciativa pelos seus opositores, de “Nossa Democracia”. Brevemente ascendente durante a crise da COVID-19, ele mobiliza a “representação” digital em direção a uma ordem política que parece maximamente emergente, enquanto esvazia a liderança humana a favor de um procedimento supostamente neutro sempre que possível. Misturando governança por ONGs, tratados e “partes interessadas” (stakeholders) com rituais rigidamente delimitados de aclamação democrática, esse modelo demonstra como as normas democráticas da era da imprensa funcionam na prática quando aplicadas a um demos cada vez mais pós-imprensa.
Um dos visionários do projeto blairista pós-liberal, Peter Mandelson, percebeu claramente essas implicações em 1998. “O governo representativo”, observou ele, “está a ser complementado por formas mais diretas de participação, desde a Internet até aos referendos”. Mas, na perspetiva de Mandelson, esses parlamentos já não são capazes de responder com a flexibilidade necessária às exigências políticas do momento. Implicitamente, portanto, uma elite tecnocrática teria de preencher essas lacunas. Talvez o defensor contemporâneo mais eloquente deste modelo seja o futurista Benjamin Bratton, que, após a COVID-19, defendeu um afastamento da “sobre-individualização” em direção a uma ordem automatizada, global e apoiada pela tecnologia, capaz de fornecer a cada pessoa aquilo de que necessita. Na visão de Bratton, o entrelaçamento económico e político global exige novas formas de governação que tornem obsoletas as capacidades lentas e desajeitadas dos “parlamentos cerimoniais” e dos “interesses privados limitados”, em nome da “competência planetária”. Contudo, para Bratton, nenhuma pessoa isoladamente pode estar no comando de uma tal ordem. Ser competente e legítimo significa dispor de mais e melhores tecnocratas, munidos de mais e melhores tecnologias.
Talvez a tentativa mais completa até hoje de concretizar um regime desse tipo tenha sido a presidência de Biden, liderada por um homem que, tal como Carlos I, perdeu a cabeça enquanto estava no cargo — neste caso, devido a um declínio cognitivo relacionado com a idade. Ao contrário de Carlos, Biden permaneceu no trono, um presidente-fantasma (phantom POTUS), sustentado por uma multidão de burocratas que controlavam o acesso ao Presidente, encenavam as suas aparições públicas, redigiam decretos em seu nome e, de modo geral, operavam coletivamente uma carcaça presidencial vazia em nome de um programa político que parecia coordenar-se de forma quase espontânea.
Será isto o melhor que conseguimos fazer neste momento? Na ausência da literacia em massa que tornou a democracia uma escolha tão evidente para a jovem república americana, uma redução do papel direto desempenhado por “Nós, o Povo” na tomada de decisões pode muito bem ser do interesse do próprio povo. Mas daí não se segue que mais e melhor tecnocracia seja a única resposta possível. Na verdade, a resposta eleitoral americana [n.ed. retorno de Trump] a quatro anos de uma governação por “autopen” [n.ed. replicação mecânica da assinatura do presidente] [Biden] sugere fortemente que, embora hoje em dia as pessoas talvez leiam menos livros, esse facto de modo algum impede — e provavelmente até favorece — a crescente perceção de que há algo profundamente errado com a Nossa Democracia.
O problema central de tais enxames tecnocráticos é que a governança de enxame “democrática” que eles propõem normalmente rejeita qualquer forma ordenadora — por vezes de maneira bastante literal, na abolição tácita das fronteiras. Também rejeita a finalidade, agora reduzida a um liberalismo procedimental vazio. Mas isso é compreender mal o enxame enquanto metáfora. Um enxame de abelhas, por exemplo, não é o resultado de uma emergência pura produzida pelas abelhas individuais. Há algo em ação que é mais do que a soma de estímulos externos aleatórios e das ações contingentes de cada abelha. As abelhas são abelhas, e o princípio que ordena o seu ser não é um efeito emergente do enxame; ele preexiste a cada abelha individual e até mesmo ao ser de toda a colmeia. Podemos chamar esse princípio ordenador de natureza das abelhas ou, em termos mais clássicos, de sua causa formal. Considerado em conjunto, o ser das abelhas não é aleatório, mas intencional: elas têm uma finalidade, a saber, ser abelhas.
Para aqueles que foram re-sensibilizados por meio do reconhecimento digital de padrões para esta dimensão da realidade, a pretensão de enxame [multidão] quanto à legitimidade política democrática é claramente falsa. Sob essa perspetiva, a ideia de que a mera emergência possa produzir ordem é absurda, e aqueles que defendem essa tese parecem estar a argumentar de má-fé. Isto, por sua vez, suscita suspeitas quanto aos verdadeiros princípios organizadores deste regime de governação ostensivamente emergente. Um povo menos predisposto ao pensamento analítico, mas mais atento a padrões, intui corretamente que a verdadeira causa formal do suposto enxame emergente não é “Nós, o Povo”.
O reconhecimento de padrões também revela com dolorosa clareza a realidade de que as tecnocracias de enxame são tipicamente orientadas para fins distintos do florescimento do seu povo. Isto é menos uma questão de malícia ativa do que de herdar da democracia representativa a pressuposição de que governantes e governados mantêm necessariamente uma relação de adversários. Numa democracia, essa dinâmica está incorporada no próprio sistema, como nos cuidadosamente calibrados mecanismos de freios e contrapesos da Constituição dos Estados Unidos, e é sustentada pela possibilidade de remover um governo indesejado através do voto. Mas, uma vez transposta para a pós-democracia da era pós-imprensa, a relação agonística entre governantes e governados deixa de funcionar como salvaguarda e transforma-se num passivo — pois o poder passa a residir numa burocracia tecnocrática permanente, que encara a sua relação com o povo como agonística, mas que não pode ser afastada pelo voto.
Essa situação lamentável não pode ser evitada simplesmente substituindo tal burocracia por um líder forte. Quando os opositores de Trump marcham pelos Estados Unidos sob o lema “Sem Reis”, o receio predominante é que a burocracia permanente esteja prestes a ser substituída por um único governante absoluto — mas o princípio de uma relação agonística (isto é, de confronto ou antagonismo) entre governante e governados permanecerá. Em essência, é isso que se entende por “ditadura”. Evitar essa forma alternativa de tirania não significa apenas trocar o enxame burocrático por um indivíduo, mas também reexaminar a suposição, herdada da era da imprensa, de que deve existir necessariamente uma relação antagónica entre papéis assimétricos dentro de uma hierarquia de poder.
Um tema central do pensamento político pré-moderno, de Aristóteles a Tomás de Aquino, era o papel crucial desempenhado pela amizade entre governantes e governados. Segundo Aquino, essa amizade não é tanto uma questão de sentimento, mas de orientar as decisões políticas, tanto quanto possível, para o bem comum:
“Os bons reis (…) são amados por muitos quando demonstram amar os seus súbditos e se dedicam diligentemente ao bem-estar comum, e quando os seus súbditos podem sentir que recebem muitos benefícios desse zelo e desse cuidado.”
A insatisfação rebelde atualmente visível em muitas sociedades políticas ocidentais é consequência da perceção, partilhada até por membros do eleitorado que não leem um único livro de um ano para o outro, de que os seus líderes não os amam nem têm os seus interesses em consideração. Esta é também uma parte central do apelo de Donald Trump: a sensação de que, por mais caótico e imperfeito que seja, ele não é um burocrata, mas sim um indivíduo humano que sente uma afeição genuína pelo povo e pela nação que lidera. Em contraste, um enxame não pode sentir absolutamente nada, muito menos amizade.
Nada disto significa que o único modelo possível de legitimidade política na era pós-imprensa seja uma monarquia explícita. Mas há muito que deixámos de formar cidadãos democráticos, enquanto a transposição dos ideais democráticos para a era pós-imprensa produz não uma democracia perfeita e sem cabeça, governada por um enxame, mas sim regimes tecnocráticos frágeis e manipulados, amplamente percecionados como hostis e ilegítimos. O povo pode já não ser constituído por cidadãos que leem, mas isso não significa que seja estúpido ou incapaz de tirar conclusões. No meio das dinâmicas rápidas e íntimas da esfera pública digital, a coisa mais difícil de falsificar ao longo do tempo é a amizade política. O consequente défice de legitimidade política, talvez mais evidente do que em qualquer outro lugar na minha Grã-Bretanha natal, leva-nos a reconsiderar se haverá lugar no nosso futuro, tal como houve no nosso passado, para indivíduos identificáveis investidos não apenas de autoridade executiva, mas também de autoridade sagrada.
No entanto, uma política eficaz continua a exigir reflexão aprofundada. Assim, um líder da era pós-impressa, por mais indireta ou explicitamente régio que seja, só pode governar de forma eficaz e com apoio popular trabalhando em dois registos ao mesmo tempo: o racional, próprio da cultura impressa, e o simbólico, característico da era digital. Talvez o governante que mais deliberadamente atua desta forma seja o presidente de El Salvador, Nayib Bukele. Retratado como um tirano pelos liberais ocidentais, alegadamente popular entre o seu próprio eleitorado e autodescrito no X como “Rei Filósofo”, Bukele governa como um “progressista de direita”. A sua abordagem combina uma aplicação firme da ordem pública, preocupação com os cidadãos comuns, um elitismo tecno-otimista e indiferença em relação ao procedimentalismo [n.t. isto é, não liga a métodos e procedimentos estabelecidos]. Importa salientar que Bukele utiliza a internet como fonte de legitimidade, publicando iconografia cuidadosamente concebida, anúncios públicos e respostas contundentes aos seus críticos, ao mesmo tempo que participa ativamente no debate digital, tudo isso dentro do registo acessível da “oralidade secundária”. Neste sentido, seja por instinto ou por estratégia, ele mobiliza um encantamento de meme possibilitado pela oralidade secundária, que recorda a pompa cuidadosamente calculada dos monarcas pré-modernos, como as entradas reais e as procissões triunfais.
A abordagem de Bukele prenuncia um futuro pós-liberal de líderes que operarão em mundos de pensamento paralelos: tanto no registo analítico e baseado em políticas públicas da literacia de longo formato, cujo modo de expressão é a lógica, como no registo encantado e monárquico da oralidade secundária, cuja realização expressiva é a amizade. Para um governante ou uma pequena elite capaz de alternar entre esses códigos, não é necessário escolher entre o rei e a multidão. Um líder assim, em vez de ser absorvido pela multidão, servirá como sendo a sua cabeça ou causa formal.
À medida que os agentes de IA evoluírem a ponto de reduzir a dimensão da classe administrativa, poderemos descobrir que aquilo que realmente tem o poder de destruir a tecnocracia do século XX não são os mercados livres e a responsabilidade individual, nem sequer os utilizadores anónimos a publicar memes, mas sim os avanços na inteligência artificial. Se assim for, os liberais clássicos poderão ficar desapontados ao descobrir que, tal como o “discurso civilizado” não regressará, aquilo que vier depois do Estado profundo (deep state) também não será um retorno a um governo republicano pequeno e limitado.
É mais provável que seja um governo grande, mediado por grandes volumes de dados (big data), processados por agentes de máquina numa espécie de enxame digital quase totalmente integrado. Caso este resultado se concretize dentro do paradigma democrático tradicional, acabará inevitavelmente por produzir uma forma de governação ainda mais impessoal, menos responsabilizável e menos capaz de cultivar relações de proximidade ou amizade com os governados do que os burocratas impessoais e sem prestação de contas que ela própria tornou obsoletos.
Se isso acontecer — e acredito que acontecerá —, o retorno do rei será não apenas possível, mas urgentemente necessário. Privado de uma cabeça que o governe, um regime de procedimentalismo sustentado em algoritmos, enxameado por algoritmos, representaria a mais monstruosa de todas as tiranias pseudodemocráticas. A nossa melhor salvaguarda contra esse destino é o poder ordenador de um governante humano, com uma mente humana capaz de prudência e justiça, e um coração humano capaz de amizade.
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A autora: Mary Harrington é uma escritora baseada no Reino Unido, e editora contribuinte de UnHerd, onde escreve uma coluna semanal. Interessa-se (entre outras coisas) pelos efeitos secundários políticos e culturais da globalização, a substituição da política de classes por políticas de identidade, a alegria dos limites, e os direitos das mulheres na era da biotecnologia, que é o tema do seu livro Feminismo Contra o Progresso. Autora do recém editado livro The King and the Swarm.

