Nota prévia
Vou de férias e quero encerrar um assunto – a crítica ao ministro da Educação sobre a desgraça que foram os exames nacionais e sobre a desgraça que poderá estar por detrás de tudo isto.
Escrevi um texto e não tive oportunidade de o rever, de o rearranjar. Vai em bruto tal como o pensei e espero que o que escrevi corresponda ao que pensei, dada a velocidade com que foi escrito e sem tempo para o rever. Passei o texto apenas pelo corretor automático, mas este geralmente parece uma peneira sem rede: passa quase tudo [entretanto, o meu editor pôde fazer a revisão].
Apesar de tudo isso, sugiro uma leitura atenta ao texto ou, como diz Maryanne Wolf, sugiro uma leitura em profundidade e nisto até o ministro infelizmente mentiu – analisar provas de exame seriamente em papel permite uma outra profundidade de análise que o ecrã não permite. Sejamos sérios nisto. e não me respondam que isto é argumento de velho, velho que eu sou, mas isto não tem nada a ver com o resto.
JMota
15 min de leitura
Exames nacionais de julho de 2026 – um debate encerrado
Coimbra, em 23 de Julho de 2026
Peço desculpa, mas vou hoje encerrar a crítica à situação caótica do ensino em Portugal criada pelo ministro Fernando Alexandre. Direi, em tom de ironia que não quero criar mais inimigos nem perder amigos com esta história que durante dias e dias foi um pesadelo para grande parte da população.
Continuo a dizer que não entendo nenhuma das razões apresentadas como justificação para os milhões gastos em euros além dos milhares de horas de trabalho adicionais envolvidas. E isto é independente do sucesso ou insucesso da digitalização. Estou a falar dos argumentos que terão levado à digitalização em si-mesma e não do processo falhado, monstruosamente falhado.
Quanto aos argumentos, mais rigor, mais transparência, mais rapidez, hoje ouvi mais um : assim evita-se que as provas de exame andem de um lado para outro! Nem vale a pena comentar.
Ontem recebi uma carta de uma pessoa a quem envio regularmente e a título pessoal o que vou publicando em A Viagem dos Argonautas. E nesse texto dizia-se:
“Caríssimo Dr. Júlio Mota, muito boa noite.
Antes de mais quero reconhecer que, de um modo geral, aprecio os textos que me envia.
Com sinceridade informo que neste texto tenho muita dificuldade em aceitar os argumentos. Já vivi o suficiente para perceber como funcionam as máquinas trituradoras ou os inerentes boicotes. Não vai querer convencer-me que qualquer reestruturação ou reforma sectorial se consegue fazer sem erros. Conheço bem quem destruiu este país, nomeadamente um tal que nunca cometia erros e que raramente se enganava. Também conheço os especialistas a quem tudo corre bem porque nunca fizeram nada.
Neste contexto estou mais direcionado para aceitar os erros do ministro que o texto que me envia.
Procuro ser independente e justo nas minhas apreciações e neste caso parece-me que o Dr. Fernando Alexandre foi e está a ser queimado em lume brando. Mas, quem não quer ser lobo não lhe veste a pele.
Cumprimentos” Fim de citação
Recebo isto de manhã. Antes do meio-dia vou ao café habitual e entro numa tertúlia onde há gente de praticamente todos os quadrantes políticos com significado político na Assembleia, e mais, trata-se gente de várias sensibilidades culturais, médicos, engenheiros, professores. E a conversa recai sobre o mesmo tema e os argumentos não são nada diferentes dos expostos no email que me foi enviado. A conclusão imediata: reproduziam-se ali, e por gente bem informada, todos os clichés que o governo em geral e o ministro da Educação em particular divulgavam. Chegou-se até a dizer, que uma das razões que justificavam a digitalização era de que ela tornava a circulação das provas mais fluida. Quase que berrei e disse-lhes: a minha mulher era classificadora de provas durante décadas: ia ao D. Duarte buscar as provas, cotava-as, ia depois entregá-las. Onde é que está a falta de fluidez? Quanto aos restantes argumentos não me quero repetir. Como discussões deste tipo sobre o mesmo tema já tive muitas e argumentos em defesa do ministro com mais ou menos detalhe foram sempre os mesmos: mais rigor, mais transparência, etc., etc.
Depois de tudo isto, e sublinho que não quero magoar ninguém, lembrei-me de um texto que tenho preparado para um sexto tema na série Crise Civilizacional e de Ensino num Mundo em Profunda Policrise, um artigo de Neil Postman de 1990 que passo a adaptar a esta situação de acreditar nas teses governamentais. Parafraseando então o texto de Neil Postman diremos:
Sobre as coisas muito inverosímeis que relatei a diversas pessoas e das respostas a acreditar no que eu lhes dizia quero então “relatar algo bastante ridículo — poder-se-ia dizer, inacreditável. Deixe-me contar-lhe, então, alguns dos meus resultados: a menos que esta seja a segunda ou terceira vez que tentei isso com a mesma pessoa, a maioria das pessoas acreditará ou, pelo menos, não deixará de acreditar no que lhes disse. Às vezes dizem: “A sério? Isso é possível?” Às vezes ficam perplexas e respondem: “Onde é que disse que esse estudo foi feito?” E às vezes dizem: “Sabe, já ouvi algo parecido.”
Ora, há várias conclusões que podem ser tiradas desses resultados, uma das quais foi expressa por H. L. Mencken há cinquenta anos, quando disse que não existe ideia que seja tão estúpida que não se encontre um professor disposto a acreditar nela. Isso é mais uma acusação do que uma explicação, mas, de qualquer forma, já realizei esta experiência com pessoas que não são professores e obtenho resultados aproximadamente iguais. Outra conclusão possível é a expressa por George Orwell — também há cerca de 50 anos — quando observou que a pessoa comum hoje é tão ingénua quanto era a pessoa comum na Idade Média. Na Idade Média, as pessoas acreditavam na autoridade da sua religião, não importava o quê. Hoje, acreditamos na autoridade da nossa ciência, não importa o quê”. [ou acreditamos em quem está no poder, por mais inverosímil que seja o que nos diz e assim se explica o estado lamentável da classe política do nosso país e da maioria daqueles a que a ela quer ascender – nota minha JM]
A situação é então explicável pelo que nos diz Neil Postman e Orwell e esta é a minha tese. Note-se: se dois autores de referência consideravam na época que o nível de crendice era em tudo semelhante ao da Idade Média, com mais força de razão se pode dizer isso hoje, uma vez que o poder de manipulação em 2026 é de longe muito superior ao que os governos dispunham em 1990, altura em Neil Postman escreveu o que escreveu.
À pessoa que me escreveu respondi o seguinte:
“Discordamos, é próprio da Democracia, mas deixe dizer-lhe – nunca me agradou criticar o ministro Fernando Alexandre, foi meu aluno de licenciatura, meu aluno em mestrado, meu orientando em tese de mestrado por escolha dele, e acrescento, e de quem fui amigo.
O que disse e mantenho: a política, no pior sentido do termo, engoliu o homem sério, empenhado e inteligente que ele era e deixou um político com ambição desmedida, NA LÓGICA NEOLIBERAL; em que quer ser o grande reformador. Mas as reformas quando se trata do imaginário coletivo são complicadas, precisam de ser lentas, amadurecidas e não há sinal nenhum de nenhuma destas características no seu comportamento.
Ontem discutia com uma militante do PSD, minha amiga, e era curioso, ela achava que o que ele fez tinha de ser feito, porque é preciso chegar onde quis chegar o João Costa do PS, à digitalização dos próprios exames e das respostas dos alunos em computador, não em papel como agora, e para se poupar trabalho aos professores: Dei um berro e perguntei-lhe se ela não achava que já havia cretinos digitais em número suficiente no ISEG ou se ainda queria mais. E comentei o caso de Brown, comentei o caso de UCLA e acabou por me dar razão. Um dia destes são professores e alunos que precisam de reinicialização.
Mas o meu amigo fala de reforma – que reforma é que ele fez? Digitalizar os exames para serem cotados questão por questão é uma reforma? Onde? Mais transparência? Onde? Mais comodidade para os professores? Onde, se ver os pontos em computador é mais cansativo e incómodo do que vê-los no papel ? E podíamos continuar. Siga com atenção a série sobre Crise Civilizacional e de Ensino nos seus 5 temas e no seu epílogo final e talvez ganhe outra perspetiva do que é ensinar.
Um abraço
JMota” Fim de citação
Curiosamente, o jornal Público traz hoje um artigo de Adão e Silva onde estão espelhados praticamente todos os argumentos que eu utilizei bem antes deste artigo de Adão e Silva, e que foram utilizados nos textos por mim publicados desde que rebentou a crise das provas de exame: Aqui vos deixo excertos desse artigo:
“ «Quase todos os homens conseguem superar a adversidade, mas se quer conhecer o carácter de um homem, dê-lhe poder». A elegia do escritor norte-americano Robert G. Ingersoll a Abraham Lincoln permanece um bom teste à fibra moral: há quem passe o crivo do exercício do poder e há quem não passe.
Para além de todo o debate sobre a bondade da opção pela avaliação digital dos exames e a sucessão de trapalhadas que se seguiu, todo este processo expôs, antes de mais, traços comportamentais do ministro da Educação. Sem poder, o assunto é da esfera privada e irrelevante. Com poder, é preocupante.
Ao longo de cerca de um mês, Fernando Alexandre teve o condão de nunca assumir qualquer responsabilidade — ao ponto de concluir impante:
“Se isto tivesse corrido muito mal, sim, a minha posição não havia dúvidas de que estaria em causa, mas não é isso que estamos a ver.”
Podemos concluir que o ministro viu um processo diferente daquele que está a ser vivenciado por alunos, pais e comunidade educativa e nunca perdeu a oportunidade de alijar responsabilidades. Vale a pena fazer um inventário, necessariamente incompleto, dos culpados segundo Fernando Alexandre: agrafadores indomáveis; redes sociais especulativas; pais imprudentes; professores negligentes; e, no fim, diretores relutantes.
Podia ser apenas um traço de personalidade ou uma chocante pulsão autoritária, que culminou em ameaças explícitas a professores e diretores. Mas este comportamento oculta o essencial: os problemas com os exames nacionais resultam de uma decisão de Fernando Alexandre e configuram um caso extremo de negligência política.
As declarações ao Expresso do ex-presidente do Júri Nacional de Exames são inequívocas: o Governo decidiu avançar com a correção eletrónica sem planeamento e sem avaliar o projeto-piloto .
O que Fernando Alexandre apelida de reforma foi uma decisão sem método e sem informação, montada sobre uma desarticulação profunda dos serviços. Se o ministro não queria ouvir os serviços — sugerindo invariavelmente que estes lhe colocam obstáculos à sua vontade iluminada —, podia ao menos ter acompanhado as experiências internacionais. A Suécia, por exemplo, depois de em 2017 ter iniciado os trabalhos preparatórios para a digitalização da avaliação, decidiu puxar o travão perante problemas com um teste-piloto há um ano, fazendo regressar a caneta e o papel.
Este tema é, sim, estrutural. Podem acantonar-me na terrível categoria de conservador, mas pergunto-me: é desejável promover uma rutura com séculos de uma prática em que articular ideias assentou também numa relação física entre uma caneta e uma folha de papel? Que evidência nos garante que há ganhos com o abandono dos exames físicos? Mesmo para quem defende a digitalização, faz sentido fazer exames em papel que depois são digitalizados, em lugar de realizar os próprios exames digitalmente? Quem decidiu avançar para esta empreitada, por definição exigente, paradoxalmente sem avaliação?
Bem sei que a responsabilidade política é um conceito com particular elasticidade e que Fernando Alexandre adquiriu o estatuto singular de inimputável político. Ainda assim, momentos como este recomendavam alguma humildade, em lugar da demonstração quotidiana de soberba oferecida nas últimas semanas. Desde logo, Fernando Alexandre deveria agradecer encarecido o esforço notável feito pelos professores e diretores de escolas, que evitaram que o sistema colapsasse integralmente. Está visto que é pedir muito ao ministro sol.” Fim de citação.
Confrontem-se os meus textos com o que diz Adão e Silva e estamos no mesmo terreno.
Um amigo meu quis ajudar-me e procurou saber como se passavam as coisas lá fora e escolheu três países, Irlanda Suécia e Finlândia. Enganou-se num ponto, eu não estava interessa em saber como é que se passavam as coisas lá fora, eu estava interessado sobretudo em saber porque é que se passavam assim.
Vejamos como se passam ou passaram as coisas na Suécia, Irlanda e Finlândia.
SUÉCIA
A experiência sueca no processo de digitalização dos exames nacionais (nationella prov) é marcada por uma transição complexa que mistura ambição inovadora, fortes discussões sobre o papel da tecnologia na educação e retrocessos técnicos recentes.
O processo, liderado pela Agência Nacional de Educação da Suécia (Skolverket), serve hoje como um caso de estudo internacional sobre os desafios de infraestrutura e segurança que envolvem avaliações digitais em larga escala. A jornada sueca divide-se em quatro pilares principais:
1. A Abordagem Inicial: Descentralizada e Baseada no Mercado
Diferente de países que criaram um sistema estatal único desde o primeiro dia, a Suécia passou anos permitindo que as escolas e municípios utilizassem plataformas privadas de mercado (como Digiexam e Exam.net) para aplicar as provas nacionais digitalmente.
O modelo: Essas ferramentas bloqueavam os computadores dos alunos modo lockdown) para evitar fraudes ou acesso à internet. O resultado: Embora tenha acelerado a familiaridade dos alunos e professores com testes digitais, gerou uma enorme fragmentação de dados e falta de padronização nacional.
2. O Revés Recente: O Cancelamento da Plataforma Unificada
Para unificar o sistema, a Skolverket desenvolveu uma plataforma pública oficial própria, com o plano de tornar os exames 100% digitais e obrigatórios em todo o país a partir de 2025. No entanto, a experiência sofreu um duro golpe.
Cancelamento Crítico (Primavera de 2025): A agência governamental foi forçada a cancelar e fechar a nova plataforma oficial de exames digitais após a descoberta de falhas graves de segurança, incluindo o vazamento de dados pessoais de estudantes para professores que não deveriam ter acesso a eles. As escolas tiveram de retornar de emergência ao papel e caneta ou usar as suas antigas soluções locais.
3. O Debate Pedagógico e a “Fadiga de ecrãs “
A digitalização dos exames ocorre em paralelo com uma mudança drástica na própria política educacional do país. A Suécia, que antes era uma das maiores entusiastas da digitalização total das salas de aula, iniciou um movimento de recuo estratégico liderado pelo Ministério da Educação.
Retorno aos livros físicos: O governo sueco passou a investir fortemente na reintrodução de manuais escolares impressos e na escrita manual, baseando-se em estudos que apontavam declínio na interpretação de texto e leitura dos jovens devido ao excesso de ecrãs. O paradoxo dos exames: Esse recuo tornou o processo de digitalização dos exames ainda mais debatido. Muitos educadores questionam se faz sentido testar os alunos de forma 100% digital se a tendência pedagógica atual defende o retorno ao papel para consolidar a aprendizagem profunda.
4. Os Desafios Técnicos e Logísticos Detetados
Os testes piloto e as tentativas de implementação em massa revelaram obstáculos que a Skolverket ainda tenta contornar:
Infraestrutura Desigual: Muitas escolas e municípios não possuíam a infraestrutura de rede necessária para suportar milhares de alunos conectados simultaneamente fazendo um exame de alta importância.
Autenticação Complexa: A exigência de sistemas de identificação eletrónica segura com dupla autenticação (MFA) para os funcionários das escolas revelou-se um pesadelo logístico de configuração em nível nacional.
A “Justiça” da Avaliação: Em disciplinas como Matemática, os avaliadores notaram que o formato digital limitava a capacidade dos alunos de demonstrar o raciocínio lógico passo a passo (fórmulas e rascunhos), algo que flui melhor no papel.
A Suécia demonstra, pois, que a digitalização de exames nacionais não é apenas uma questão de substituir o papel por um ecrã. Ela exige um nível de maturidade cibernética, segurança de dados e consenso pedagógico que, mesmo num dos países mais conectados do mundo, provou ser um desafio complexo e repleto de tentativas e erros.
IRLANDA
A experiência da Irlanda no processo de digitalização dos seus exames nacionais (o Junior Cycle e o Leaving Certificate) segue uma filosofia completamente oposta à da Suécia. Enquanto os suecos tentaram uma transição direta para computadores na hora da prova (o que gerou os problemas técnicos e de segurança citados anteriormente), a Irlanda optou por uma estratégia híbrida, focada nos bastidores e com passos extremamente cautelosos.
A abordagem irlandesa é liderada pela State Examinations Commission (SEC) e baseia-se em quatro pilares principais:
1. A Digitalização “Invisível”: Correção Online (Online Marking)
A grande revolução digital na Irlanda não aconteceu na mesa do aluno, mas sim na do professor. Em vez de obrigar os estudantes a fazerem as provas no computador, a SEC implementou um sistema massivo de Correção Online.
Como funciona: Os alunos continuam a fazer os exames tradicionais com papel e caneta azul ou preta. Assim que a prova termina, os cadernos de respostas são recolhidos, transportados para centros logísticos e digitalizados por scanners de alta velocidade.
A correção: Os corretores acedem às imagens digitais das provas através de um software seguro nas suas próprias casas. O computador não dá nota (a avaliação humana é 100% mantida), mas o sistema elimina erros de soma de pontos, automatiza a burocracia e acelera o processo de revisão e recursos. Em 2026, quase todas as disciplinas principais já operam neste formato.
2. Digitalização Focada na Acessibilidade e Inclusão
Em vez de universalizar os exames no computador para todos, a Irlanda focou os seus esforços de exames digitais (em formato PDF dinâmico) como uma ferramenta de equidade para alunos com necessidades educativas especiais através do programa RACE (Reasonable Accommodations at State Examinations).
Alunos com deficiências visuais graves ou dificuldades motoras severas têm o direito legal de realizar as provas nacionais em computadores ou tablets, permitindo ferramentas de zoom, leitura de ecrã ou digitação.
O sistema foi expandido após desafios legais que exigiram que tanto os exames finais do Secundário (Leaving Cert) quanto os do ciclo básico (Junior Cycle) tivessem opções digitais adaptadas para garantir a inclusão.
3. A Reforma do Junior Cycle: Avaliação Contínua Híbrida
Na reforma educacional recente da Irlanda, o modelo de avaliação mudou para aliviar o peso de um único exame final.
Foram introduzidas as chamadas Classroom-Based Assessments (CBAs) — projetos, investigações e apresentações orais realizados ao longo do ano. Embora a prova final continue a ser em papel, o portefólio que compõe a nota final do aluno utiliza fortemente a tecnologia: os estudantes criam relatórios digitais, gravam áudios e submetem trabalhos através das plataformas internas das escolas. A tecnologia apoia a aprendizagem diária, mas não substitui o momento do exame de forma abrupta.
4. Resistência e Cautela com a Escrita Digital Integral
A SEC e o governo irlandês têm resistido ativamente às pressões para mover os exames de grande impacto (como o Leaving Cert, que define o acesso à universidade) para o formato digital direto. Os argumentos oficiais para manter o papel no momento da prova baseiam-se em:
Segurança Cibernética: Evitar ataques informáticos em larga escala ou falhas de energia/internet que possam anular exames nacionais cruciais (precisamente o receio que se materializou na Suécia).
Equidade Tecnológica: Garantir que um aluno de uma escola rural com menos recursos não seja prejudicado face a um aluno de um colégio privado com computadores de última geração.
Resumo da comparação: Enquanto a Suécia tentou saltar diretamente para a aplicação de provas em computadores (enfrentando problemas de segurança e logística que geraram recuos), a Irlanda optou por manter o papel na mão do aluno, mas digitalizar todo o processo de correção e gestão administrativa nos bastidores.
FINLÂNDIA
Se a experiência sueca foi marcada por pressa e falhas de segurança, e a irlandesa por uma cautela extrema nos bastidores, a Finlândia representa o meio-termo ideal. A experiência finlandesa é amplamente considerada um caso de sucesso global em termos de transição digital planeada e soberania tecnológica.
Eles conseguiram digitalizar totalmente o Ylioppilastutkinto (o Exame de Matrícula Nacional, equivalente ao ENEM ou ao Leaving Cert irlandês), que é a única prova de alto impacto que os estudantes fazem ao fim do ensino secundário.
A estratégia finlandesa baseou-se nos seguintes pilares fundamentais:
1. Planeamento Gradual e de Longo Prazo (2012–2019)
A Finlândia não tentou digitalizar tudo de uma vez. O Conselho do Exame de Matrícula traçou uma estratégia de sete anos:
Fases por Disciplina: O processo começou em 2016 com exames de línguas estrangeiras e geografia. Matemática por último: A disciplina de Matemática foi intencionalmente deixada para o fim (2019), dando tempo para que softwares de cálculo e editores de equações fossem aperfeiçoados e para que os professores se adaptassem.
2. O Sistema Abitti: Soberania com Código Aberto
Para evitar ficar dependente de multinacionais tecnológicas ou de softwares comerciais caros, a Finlândia desenvolveu o seu próprio sistema, chamado Abitti.
Como funciona: Os alunos levam os seus computadores pessoais para o exame (Bring Your Own Device).
Antigamente, inseriam uma pen drive USB e reiniciavam o computador a partir dela. Em 2026, com o ecossistema atualizado para o Abitti 2, o processo utiliza uma aplicação dedicada altamente segura. Bloqueio Total: O sistema substitui temporariamente o sistema operativo do computador do aluno. Durante a prova, o estudante não tem acesso ao seu disco rígido nem à internet geral.
Rede Local Fechada: Os computadores ligam-se por cabo ou por uma rede Wi-Fi estritamente local a um servidor físico instalado na própria escola. Se a internet da Finlândia cair por completo no dia da prova, o exame continua a funcionar normalmente na sala de aula. Se o computador de um aluno avariar, ele pode ser reiniciado sem que o progresso da prova seja perdido, pois tudo é guardado continuamente no servidor local.
3. Exames que Emulam o Mundo Real
Os finlandeses não usaram a tecnologia apenas para transformar perguntas de papel em PDFs no ecrã. O ecossistema digital mudou a própria natureza das perguntas.
Ferramentas Profissionais: Durante o exame, os alunos têm acesso a programas reais de processamento de texto, folhas de cálculo, softwares de desenho e calculadoras científicas gráficas. O exame de matemática testa se o aluno sabe usar estas ferramentas para resolver problemas complexos.
Multimédia Integrada: Os exames de línguas incluem ficheiros de áudio e vídeo de alta definição para testar a compreensão oral. Os exames de ciências utilizam simulações e bases de dados reais que os alunos devem analisar.
4. O Ecossistema EXAM no Ensino Superior
O sucesso no ensino secundário expandiu-se para as universidades através do sistema EXAM. Trata-se de uma rede partilhada por quase todas as instituições de ensino superior do país que permite aos estudantes agendarem os seus exames de forma flexível. O aluno vai a uma sala de computadores vigiada por câmaras na universidade (ou numa universidade parceira noutra cidade) e faz a sua prova digital quando se sentir preparado. A grande lição da Finlândia: O sucesso finlandês deveu-se ao facto de terem desenhado um sistema focado na independência da internet (servidores locais) e de terem dado tempo (quase uma década) para que toda a comunidade escolar mudasse a sua forma de ensinar antes de mudar a forma de avaliar. Fim de citação.
Interroguei o programa de inteligência artificial Claude Sonnet sobre o assunto e aqui vos deixo a resposta e esta começa pelo comentário da plataforma ao meu último texto sobre o caso português e que deu origem ao email com que inicio este texto.
Pergunta minha:
A Irlanda, a Suécia e a Finlândia passaram a ter exames digitais para alunos do primário ao secundário? Será? Que justificações deram para este tipo de iniciativa que terá custado muitos milhões? E algum destes países já recuou neste tipo de exames?
Resposta de Claude.
Vou pesquisar informação atualizada sobre isto.
Pesquisou na web
Vou pesquisar mais especificamente sobre exames digitais na Suécia e Finlândia, e sobre eventuais recuos.
Pesquisou na web
Encontrei informação muito relevante — e é uma confirmação direta da tua tese, sobretudo no caso sueco.
Suécia — o caso mais claro de recuo
A Suécia lançou os exames nacionais digitais e o processo revelou-se um fiasco repetido. Em Março de 2025, a Agência Nacional de Educação suspendeu os exames após uma falha de segurança que expôs dados pessoais de alunos. As escolas foram forçadas a copiar provas para papel à pressa, com um custo estimado de 5.000 horas de trabalho docente. Os exames voltaram a ser cancelados na Primavera de 2025, novamente por falhas técnicas — desta vez com dados de alunos visíveis para professores de outras escolas. Em novembro de 2025 houve nova tentativa falhada, e em Dezembro de 2025 o governo sueco decidiu formalmente suspender todo o projeto, admitindo que os exames nacionais serão feitos em papel “nos próximos anos”. O director-geral da Agência, Joakim Malmström, justificou a decisão dizendo que a proteção de dados dos estudantes é um valor especial e que já não tinha confiança de que a plataforma a garantisse.
Mais impressionante ainda: a Suécia está a reverter, com um investimento de 104 milhões de euros, toda a política de digitalização escolar que ela própria tinha liderado internacionalmente. Isto inclui o regresso de manuais impressos obrigatórios em todas as disciplinas até 2026, a recolha de telemóveis à entrada da escola a partir de 2026, e a revisão da formação de professores para priorizar o ensino fónico da leitura, a escrita manual e a utilização de manuais impressos. A justificação oficial liga-se diretamente à queda nos resultados do PIRLS entre 2016 e 2021, atribuída ao uso precoce e generalizado de ecrãs em substituição da leitura sustentada.
Irlanda
Não encontrei evidência de exames nacionais digitalizados à escala do que descreves para Portugal. O que a Irlanda tem é um sistema de admissões escolares online (para simplificar candidaturas dos pais) e uma Estratégia Digital para Escolas até 2027, mas isso é diferente de digitalizar a correção de exames nacionais do secundário.
Finlândia
A Finlândia tem o sistema Abitti para o exame de matrícula do ensino secundário superior — mas este sistema foi desenvolvido ao longo de mais de uma década, é de código aberto, gerido por um organismo próprio (Matriculation Examination Board), e não há registo de fiasco equivalente ao sueco.
Conclusão para o teu texto [1]
O caso sueco é exatamente o exemplo mais forte que podias usar: um país que tentou, gastou muito dinheiro, falhou repetidamente por razões de segurança de dados e sobrecarga dos professores, e acabou por recuar publicamente e investir ainda mais dinheiro a desfazer o que tinha feito. É o espelho nórdico do que está a acontecer em Portugal — com a vantagem de que os suecos tiveram a humildade institucional de admitir o erro e voltar atrás, o que ainda não vemos no caso português”. Fim de citação de Claude Sonnet 4.6.
Depois de tudo, continuar a defender o ministro por aquilo que foi feito, a digitalização, e depois a defendê-lo porque uma reforma nunca é perfeita à partida, o que leva a desculpabilizar os erros por crassos que sejam, leva-nos a acreditar na tese de Orwell e de Neil Postman de que a a pessoa comum hoje é tão ingénua quanto era a pessoa comum na Idade Média.
E hoje somos cada vez mais pessoas comuns e, como assinala a filósofa americana Agnes Collard, a vivermos num ambiente de unicontexto, porque estamos perante milhares de milhões de pessoas levadas a participar na mesma conversa global através das propagandas governamentais, das redes sociais que destes dependem e da internet. E somos cada vez menos a termos consciência de que estamos perante a morte da cultura, que caminhamos a passos largos para uma sociedade pós-letrada, onde se vai deixar de sentir a necessidade da leitura e da própria escrita manual [2].
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Notas
[1] Utilizo um canal específico para entrar em Claude Sonnet onde estão depositadas as mais de 1300 páginas de textos que constituem a minha série Crise Civilizacional e de Ensino num Mundo em Profunda Policrise e como se vê, sem que se lhe tenha sido pedido, a plataforma liga imediatamente o problema da digitalização em análise a esta mesma série.
[2] Este parágrafo remete todo ele para a nossa série Crise Civilizacional e Crise de Ensino num Mundo em Profunda Policrise.

