Espuma dos dias… sobre o circo, os palhaços e as suas vítimas — Crise na Universidade e no sistema de ensino em geral… a propósito de dois textos de Jesús G. Maestro .  Por Júlio Marques Mota

Nota de editor:

Este texto é o quarto de uma mini-série composta por cinco textos onde é abordada a crise que atravessa as universidades e o sistema de ensino mais em geral, de que o caos criado pelo ministro da educação em torno da avaliação dos exames nacionais do secundário é tão só mais um sintoma.

O último texto da série é uma troca de pontos de vista entre o autor da mini-série e o robô de conversação Claude Sonnet 4.6.

FT


4 min de leitura

Crise na Universidade e no sistema de ensino em geral… a propósito de dois textos de Jesús G. Maestro

 Por Júlio Marques Mota

Coimbra, em 16 de Julho de 2026

 

Enviaram-me um texto escrito por Jesús Maestro, professor na Universidade de Vigo – A China reindustrializa a sua universidade enquanto a Europa procura a felicidade [publicado ontem, ver aqui].

Tal como no seu texto anterior sobre as salas vazias e por nós publicado – Porque é que os universitários não querem ir às aulas?  [aqui] -, faz uma descrição do que se passa no ensino superior que eu subscrevo ponto por ponto, exceto num: as salas de aulas estão vazias de estudantes e com o silêncio de muita gente e as esplanadas estão cheias de estudantes, e isto acontece não porque os professores se tenham desinteressado de dar boas aulas, o que Maestro a dado passo argumenta, mas porque as aulas deixaram de conferir sentido a estes mesmos alunos, no sentido de futuro. E isto, ao contrário do que Maestro diz, terá muito pouco a ver com o muito ou pouco interesse que o professor confere ao que leciona, mas tem a ver com a falta de interesse que a sociedade confere à própria Universidade e aos seus estudantes como um todo.

Na mesma linha de análise discordo do que ele diz quanto ao ensino profissional a quem confere uma dignidade que a Universidade terá deixado de ter. Não, não é assim, o ensino profissional debate-se com o mesmo problema de sentimento de vazio que se sente na Universidade. Ambas as vias de ensino podem hoje ser definidas como parques de estacionamento onde permanecem não carros, mas sim, jovens, onde permanecem os nossos filhos ou netos à espera que o tempo passe e que sejam substituídos pela geração seguinte. Relembro, e disso fiz um texto [em Setembro de 2024 – ver aqui], as minhas conversas com jovens de Faro que me descreveram com detalhe a situação no ensino técnico-profissional, onde nem sequer se pode reprovar alguém. Senti-me enganado, dizia-me um deles, não aprendi nada.

Mas o texto de Jesús G. Maestro é cirúrgico e o centro da sua análise é a Reforma dita de Bolonha. Quanto a esta direi apenas o seguinte: na Faculdade onde lecionava terei sido o único a manifestar-me publicamente contra a implantação da reforma de Bolonha. Os mandarins de então, João de Sousa Andrade, Pedro Ramos, José Reis, Carlos Fortuna, Paulino Teixeira, entre outros de menor peso, estavam do outro lado, ou por convicção, por puro carreirismo – a concretização a reforma de Bolonha foi feita no governo PS -, ou ainda por ingenuidade, já que a barraca que tem vindo a ser gerada pela reforma de Bolonha até hoje, já era previsível. Nenhuma destas hipóteses é, para mim, aceitável como explicação, dada a elevada estatura intelectual das pessoas em presença. Penso numa quarta hipótese: todos eles quiseram ser macacos de imitação, correndo atrás do golpe da Universidade Nova que recebeu de braços abertos a reforma de Bolonha. E não esqueçamos que esta reforma teve a mão do PSD, ou melhor da ministra Maria da Graça Carvalho (PSD) e depois do PS, pela mão do ministro Mariano Gago. E já agora: o texto de Maestro significa, logicamente, que o problema não é nacional, é europeu. E do problema enorme que Bolonha criou, na linha do que nos diz Jesús Maestro, nunca ouvimos o ministro falar. Naturalmente assim. De outro modo, seria preciso coragem, muita coragem, e esta é na Universidade uma qualidade tão rara, tão rara, que é necessário poupá-la. Daí o brutal silencio que ouvimos sobre o problema que Maestro levanta.

Hoje, aquela ministra e aquele ministro tiveram como seus clones Fernando Alexandre pelo PSD e João Costa pelo PS, ambos fortemente defensores da digitalização do ensino, a tal modernização que se mostra agora no que é, e com o infeliz ministro a dizer claramente que a culpa não é do ministro, não senhora, a culpa é do sistema educativo português que ele transformou e que ele conduziu à situação de palhaçada que se está agora a viver. Dito com este descaramento, bom, o ministro poderia depois também dizer que a culpa é apenas dos professores, depois pode dizer ser apenas dos estudantes e, por fim a culpa pode ser apenas dos pais que tiveram como filhos estes meninos e meninas!

Mas mais uma vez ninguém levanta a pergunta central que nesta palhaçada, e que está a deixar o país suspenso, deveria ser levantada: independentemente de ter corrido mal, para que é que foram estes gastos públicos, foram milhões e fora os muitos milhares ainda a serem contabilizados, qual o ganho que o país, as famílias, os professores, os estudantes, quem é que ganhou com isso, fora dos criadores das plataformas que até funcionaram mal. Vamos até admitir que tudo correu bem, e vejamos:

  1. O país gastou milhões e criou uma máquina pesada.
  2. Os professores perderam a noção de prova de exame, ao analisarem apenas uma pergunta e isso é importante, mas mais, tiveram de refazer as rotinas de cotação de pontos porque uma coisa é ver a pergunta no papel, outra é vê-la num ecrã, e são, pois, coisas bem diferentes. Isto, por sua vez, significa que o cansaço gerado não é o mesmo. O cansaço gerado é bem maior ver no ecrã do que no papel e tanto mais quanto maior for a concentração do docente e ver provas exige muita concentração. O ministro foi professor, logo, deveria saber isso.
  3. Os estudantes. O ministro argumenta que isso é mais transparente. É mentira. Porque é que será mais transparente? Porque o aluno pode ver a sua nota no ecrã! Se é para satisfazer a curiosidade, bom, o ministro está a gozar comigo. Se é para poder contestar a nota, nunca ninguém foi impedido de o fazer e por isso falar de mais transparência agora é estar apenas a insultar todos aqueles que durante anos viram provas.
  4. A ter corrido bem, para os pais seria indiferente salvo no custo que os contribuintes terão de pagar pela despesa publica efetuada.
  5. Quanto às criadoras privadas de plataformas digitais gostaria de saber quanto é que gasta no total a Administração central em pagamento às empresas privadas pela criação das ditas plataformas.

Mas voltemos ao texto de Jesús G. Maestro e à reforma de Bolonha. Falei deste texto a um amigo catedrático da Universidade de Coimbra e disse-lhe da minha posição solitária na FEUC contra a reforma de Bolonha. Olha para mim, sorri e aponta-me uma bala produzida com a sua longa experiência:

Sabes quando se é professor catedrático não se contesta o Governo em exercício porque se quer viver com as benesses que este lhe pode oferecer, quando se é professor associado, aguarda-se ansiosamente o lugar de catedrático para depois usufruir das mesmas benesses e para isso o melhor é surfar nas ondas em que anda a Administração em exercício, e quando se é professor auxiliar, o melhor é estar calado para não pôr em risco a sua própria carreira.

Ora, eu estou fora da carreira e isso quer dizer…

Quer dizer, retorquiu o meu amigo, que dispuseste de uma grande liberdade que os outros não têm. É só isso que quero dizer.

Mas isso significa que falar em Democracia na prática universitária é uma enorme mentira.

Claro que é, qual é a dúvida? retorquiu

Nenhuma dúvida, acrescentei e a conversa ficou por aqui.

 

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