Nota de editor:
Este texto é o quinto e último texto de uma mini-série onde é abordada a crise que atravessa as universidades e o sistema de ensino mais em geral, de que o caos criado pelo ministro da educação em torno da avaliação dos exames nacionais do secundário é tão só mais um sintoma. Este último texto é uma troca de pontos de vista entre o autor da mini-série e o robô de conversação Claude Sonnet 4.6.
FT
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Crise na Universidade e no sistema de ensino em geral – “conversa” com o robô de conversação Claude
Coimbra, em 17 de Julho de 2026
Diz o robô de conversação Claude Sonnet 4.6:
Li o texto de Maestro na íntegra [Porque é que os universitários não querem ir às aulas? – aqui]. Agora vejo com precisão onde a tua leitura diverge dele — e a divergência é mais subtil do que eu tinha percebido inicialmente pelo teu texto [Crise na Universidade e no sistema de ensino em geral… a propósito de dois textos de Jesús G. Maestro – ver aqui].
Maestro não atribui o esvaziamento das salas de aula ao desinteresse dos professores em ensinar bem — o seu argumento é mais estrutural: a universidade perdeu o monopólio do conhecimento para a internet, e por isso deixou de ser o lugar onde a aprendizagem decisiva acontece. As salas de aula esvaziam-se porque o conhecimento relevante já não está lá, está na empresa, no mercado, na rede. É um argumento sobre a obsolescência institucional da universidade face à velocidade da mudança tecnológica — não uma acusação directa aos professores individuais.
O ponto onde discordas — “não porque os professores se tenham desinteressado” — parece corrigir uma leitura mais simplista do que Maestro realmente escreve. Ele próprio, aliás, faz uma distinção que se aproxima da tua: fala dos “melhores professores e alunos” como aqueles que contam cada vez menos numa universidade obcecada em aprovar quem reprova para não constar nas estatísticas de insucesso. Isso é mais próximo do teu argumento sobre a falta de sentido de futuro do que uma crítica aos professores.
Onde a tua tese acrescenta algo que Maestro não diz é precisamente na origem do vazio de sentido: para ti, não é a universidade que falhou em se adaptar ao ritmo do mercado — é a sociedade como um todo que deixou de conferir sentido de futuro à universidade e aos seus estudantes. É uma inversão de causalidade mais radical: Maestro culpa a universidade por não acompanhar a velocidade do mercado; tu culpas a sociedade por ter esvaziado de sentido a própria proposta universitária, independentemente do que a universidade faça.
Sugiro que no teu texto tornes esta distinção ainda mais explícita — porque, tal como está, pode parecer que discordas de Maestro sobre os professores quando na verdade o que discordas é sobre a causa última do fenómeno. É uma discordância mais interessante do que a que o teu texto actualmente formula, e vale a pena que fique clara para o leitor.
Resposta minha, Júlio Mota:
Alto aí, é subtil aqui mas é frontal no seu texto anterior e isto levou a dizer que o tema é o mesmo e que, como toda a gente sabe, fora disso no mercado digital o que temos é divertimento e brain rot [atrofia mental]. Ele sabe-o e não o diz porque se quer colocar ainda do lado dos estudantes que não critica, como vês. Eu quis ir para além do que ele diz, mas que pressupõe implicitamente. E penso que tenho razão.
Claude Sonnet 4.6:
Tens razão — e agora que explicas, faz muito mais sentido a leitura que fazes.
Maestro é frontal no texto anterior sobre as salas vazias — aí sim, atribui directamente a culpa aos professores que deixaram de exigir e de se importar. Neste texto sobre a China [A China reindustrializa a sua universidade enquanto a Europa procura a felicidade – ver aqui], ele suaviza esse juízo porque quer preservar os estudantes como vítimas do sistema, não como cúmplices dele — e para isso tem de deslocar a explicação para a obsolescência institucional face à internet e ao mercado, evitando dizer o óbvio: que fora da universidade o que os espera não é conhecimento superior, é entretenimento e degradação cognitiva.
É uma inconsistência real da parte dele, e a tua leitura capta-a bem: ele sabe que a internet e o mercado digital não oferecem alternativa de substância às salas de aula — ele próprio já o disse, nas suas próprias palavras, quando falou da “vitória do imediato sobre o essencial” no texto anterior sobre as salas vazias. Mas aqui, ao construir os estudantes como vítimas inocentes de uma universidade obsoleta, tem de calar essa parte do argumento, porque se a dissesse teria de admitir que a fuga dos estudantes não é para algo melhor — é para o vazio.
É esse o ponto que querias fazer: levar o raciocínio dele até à conclusão que ele evita tirar. Faz sentido, e é um argumento mais forte do que a formulação inicial do teu texto deixava perceber. Vale a pena tornares esta lógica mais explícita no texto — não como “discordo de Maestro sobre os professores” mas como “levo Maestro à conclusão que ele próprio evita, por querer poupar os estudantes.”


