Mãe, porque quiseste que eu dormisse toda a noite no teu colinho?
Mãe, porque é que tenho medo de olhar para o céu?
Mãe, onde está o pai?
Mãe, ensinaste-me que quando anoitecia o céu ficava mais escuro para podermos ver as estrelas brilharem e sorrirem para nós. E era verdade, porque a avó dizia que as estrelas têm cara e, por isso, sorriam e piscavam o olho para nos dizerem que nos portámos bem.
Mãe, agora o céu fica tão escuro, que não as conseguimos ver. Agora vemos uma outra luz, uma luz má que não sorri.
Não meu filho, não há luzes más, os homens e as mulheres é que as fazem para serem más. Sabes como se chamam essas luzes que tu dizes que são más?
Sei, mãe, já toda a gente sabe, são os drones que vêm para destruir as nossas casas, as nossas escolas, os nossos hospitais!
Os drones sabem, que no meio das pedras dos prédios, ficam adultos e crianças soterradas e que acabam por morrer sem ninguém saber? que ficam adultos e crianças sem pernas ou sem braços? E que há crianças que ficam tão assustadas, porque não veem as suas famílias? e vão sempre andando, sem saberem para onde? Andam, andam de noite e de dia, sem rumo e sem companhia. Sozinhos no mundo dos drones e dos mísseis?
Mãe, sabes que tenho medo de ouvir o barulho de uma folha, da nossa árvore, quando alguém passa e esmaga-a com o pé? Com o pé sim, porque já não tem sapatos…
Mãe, porque não me dizes para eu ir para a escola? É porque ela foi bombardeada e tens medo que eu tropece nas pedras das paredes ou me magoe nos vidros partidos das janelas? Os vidros partem quando, sem querer, a bola de futebol vai contra eles.
Sabes mãe, eu tenho sempre muito cuidado, foi o pai que me ensinou a andar na rua cheia de pedras e de pessoas a gritarem.
Mãe, porque não dizes para eu ir brincar, mas dizes para ir buscar água num garrafão muito pesado?
Mãe, ele é tão pesado!
Mãe, porque passamos os dias na rua, sempre com medo?
Mãe, o que é um acordo de paz?
Onde está a menina que depois de ouvir a história do Capuchinho Vermelho dizia: Oh! Conta lá outra vez.
Onde está o menino que pôs pedrinhas no chão, para não se perder com a irmã, quando quisesse ir de novo para casa?
Onde estão as crianças que sabem sonhar com o seu crescimento?
Será que o menino, que tinha medo do céu que já não tinha estrelas, com cara para lhe sorrir e dizer és um bom menino, será que esse menino ainda está vivo ou anda sozinho pelo mundo à procura dos seus pais?
CANÇÃO DE EMBALAR (José Afonso)
Dorme meu menino a Estrela D` Alva
Já a procurei e não a vi
Se ela não vier de Madrugada
Outra que eu souber será para ti
Outra que eu souber será para ti
Outra que eu souber na noite escura
Sobre o teu sorriso de encantar
Ouvirás cantando nas alturas
Trovas e cantigas de embalar
Trovas e cantigas de embalar
Trovas e cantigas muito belas
Afina a garganta meu cantor
Quando a luz se apaga nas janelas
Perde a estrela D´Alva o seu fulgor
Perde a estrela D’Alva o seu fulgor
Perde a estrela D’Alva pequenina
Se outra não vier para a render
Dorme que ainda a noite é uma menina
Deixa-a vir também adormecer.
Canção de Embalar, é um poema de extrema ternura, simboliza a proteção à infância para expressar a busca do conforto e da esperança perante a incerteza. Enquanto os adultos dormem, as crianças levantam-se para encontrar as estrelas.
As crianças são capazes de encontrar beleza e consolo, mesmo em momentos de incerteza ou de escuridão. Há sempre a possibilidade de encontrar novas formas de afeto.
Esta canção, para crianças, tornou-se um símbolo de esperança coletiva e de resistência em tempos difíceis.