À ESPERA DE UM NOVO ENCONTRO por Luísa Lobão Moniz

olhem para  mim

Tinha 8 anos quando a mãe morreu.

Durante 8 anos viu o pai bater na mãe.

Durante 8 anos foi fisicamente protegida pelo corpo da mãe.

A mãe, “ a minha querida mãe morreu, não sei porquê. O meu pai batia muito nela…era violência doméstica, não era?”

“ Eu, uma criança de 8 anos, tive que aprender, de um dia para o outro, a ir sozinha para a escola e a ir para casa sozinha”

Assim o disse esta menina de 8 anos, agora mulher com 30 anos.

Considerava-se sozinha apesar das vizinhas, amigas da mãe, a irem levar e buscar à escola, apesar de o pai, um pouco depois, ter assumido esse papel. Não lhe interessava quem ia com ela, o que ela sentia era que não era com a mãe.

O seu corpo de menina parecia pedir licença para estar ali, quase sempre afastada dos colegas da turma.

Os colegas quando se referiam a ela diziam “coitada” e ela sorria com uma expressão que perturbava alguns meninos. Ela respondia com um encolher de ombros.

Na escola aprendeu a ler e a gostar de ler. Dos livros que lhe passaram pelos dedos não mais se esqueceu…até se lembra de quem fez as ilustrações do livro de Lobo Antunes “A história de um hidro avião”!

“Foi o senhor chamado Vitorino, não foi?”

É verdade, o Vitorino foi à sala de aulas desta menina e, tal como eu, encantou-se com estes meninos, “nós os cambojanos”.

Não sabe como, perdeu o livro História do hidro avião que lhe tinha sido dado pela C.M.de Lisboa e pela editora quando tinha 9 ou 10 anos.

Agora, mulher com 30 anos, conseguiu comprar outro exemplar numa feira do livro de um grande supermercado.

Estes meninos viviam, alguns sobreviviam e outros morriam num Bairro de barracas com telhados de zinco ondulados, ali perto do aeroporto de Lisboa.

Viam e ouviam durante todo o dia os aviões a passar por cima das suas cabeças e sonhavam que um dia iriam num deles “ eu vou com o meu pai ver o jogo do Benfica a Barcelona”.

Os aviões não lhes traziam grandes sonhos. Alguns meninos da Guiné-Bissau tinham chegado da Guerra, outros tinham vindo da Índia, só com o pai. A mãe tinha morrido e o pai veio ter com um familiar para poder educar os filhos. Um menino alto, magrinho, com ar desprotegido foi assediado para ir ao aeroporto com um homem que ele não conhecia…mas ficou a conhecê-lo bem de mais.

Esta menina de 8 anos, agora com 30 anos, fez-me estar ainda mais convicta de que a escola da vida e a escola formal não devem estar separadas mas para isso a escola formal tem que ser uma escola inclusiva.

A escola não pode ser só escola, mas uma comunidade educativa.

“Até logo, professora, gostei muito de estar consigo, eu sabia, eu sabia…”

Deu-me um grande abraço e eu agradeci-lhe o esforço que fez para me encontrar. E novo encontro ficou marcado.

Esta menina entrou na minha alma de mãos dadas com tantos outros e outras crianças…entraram devagarinho, pois “nós somos os cambojanos”.

Leave a Reply