LÊ. SONHA. AGE por Luísa Lobão Moniz

Dois olhinhos pretos e brilhantes sorriem e ficam suspensos em pensamentos secretos, pensamentos sobre a sua vida passada…

Muitos foram os dias em que não sabia como era VIVER.

Muitos foram os dias em que o brilho dos olhos embaciava a sua visão para não ver o caminho que trilhava.

Não sabia nada da Vida.

Tinha oito anos quando lhe fizeram muito mal.

Tinha oito anos quando o medo e a dor abraçaram o seu corpo magoado, a sua alma despedaçada…

Ele era irmão da sua mãe. A menina, que era a culpada, nada dizia. Quando ele chegava a casa ela fugia para a varanda, a mãe ia buscá-la. Ele era seu tio!

A sua pele reagia à presença daquele homem que a magoava e a culpabilizava…A sua alma ficava vazia de vida e cheia de lágrimas que ninguém via.

O homem não se cansava de a magoar.

Mais tarde encontrou aquele que pensava ser o seu cavaleiro encantado.

Era alto, tinha os músculos bem torneados e a alma cheia de violência que era amaciada por uma menina adolescente que, com os seus olhos grandes e pretos, lhe dava os maiores sorrisos como se a vida estivesse a ser o que tinha sonhado.

Esteve três vezes grávida de três crianças que são hoje o seu Sol. Um sol que lhe queima a pele. Tão queimada fica que só o abraço e os beijinhos dos seus três filhos conseguem refrescar a sua pele, a sua vida.

Três crianças institucionalizadas vêem a mãe uma vez por semana, ouvem a sua voz uma vez por semana…

Três crianças vítimas de uma violência cega, como todas as violências, assistiram ao aparecimento repentino de nódoas negras que tatuavam a pele da mãe, assistiram ao jorro de lágrimas que lhe lavava a cara para poder sorrir e dizer que tudo tinha passado.

As palavras, agora, saem por entre os dentes que se iam partindo à medida que os pés do seu falso e enganador cavaleiro acertavam na cara mais bonita do mundo…

Hoje a menina, mulher e mãe, continua com um brilho de quem ama a vida e não admite prepotências, não admite ser vítima.

Pôs o homem na rua, bateu com a porta, procurou ajuda. Não fez queixa porque mais depressa resolve ela a sua vida do que o tribunal.

Ela é que sabe.

Ela sabe pensar, e do pensamento ao acto vai um passo de criança.

Ela sabe pensar, ela sabe que ninguém nasce para ser vítima de violência, seja ela qual for.

Estudou até ao 9º ano de escolaridade. Lê. Sonha. Age.

Esta  Mulher começa a dar os seus passos a caminho da defesa da sua dignidade.

As grandes mudanças sociais são fruto da revolta dos sem poder, dos sem voz.

Esta Mulher faz parte do exército de libertação da Mulher, a sua farda é feita de dignidade, a sua arma é a determinação pela defesa dos Direitos Humanos, dos Direitos da Mulher e da Criança.

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