QUEM DIRIA? por Luísa Lobão Moniz

olhem para  mim

Canina era o João.

João? Quem é o João?

Há! O Canina!

Canina era o menino mais pequeno de todos os meninos que tinham, como ele, dez anos.

Não seria o menino com menos conhecimentos, mas ainda estava no segundo ano de escolaridade e mal sabia ler e escrever.

O seu corpo pequenino tinha medo de ocupar qualquer espaço, parecia que tinha vergonha de estar onde estava.

Como te chamas?

Canina.

Porquê Canina?

Não sei…chamam-me Canina.

E tu, porque lhe chamas Canina?

Porque ele é Canina e agarra-o pelo pescoço, põe-no debaixo do braço e abana-o.

O Canina sorri, os outros riem-se.

O Canina estava sempre a jeito para o agarrarem e fazerem dele um boneco de borracha.

Ele não se importava porque assim tinha amigos…

A mãe ia, com frequência, à escola e dizia:

Oh, professora, olhe o que fizeram ao Canina!

He! O que foi que te fizemos Canina? Diz…diz…

E o Canina ficava ainda mais pequeno, sorria e dizia “era a brincar…”

A mãe ficava a falar com a professora e dizia que o filho era assim pequenino porque tinha passado fome, que o marido lhe batia e bebia muito.

A mãe parecia não se lavar há muito tempo, tal como o Canina.

A mãe, jovem, já não tinha os dentes da frente. O filho tinha os dentes todos careados, “podres”, como lhe diziam, tinha mau hálito. “Cheiras mal da boca”.

Foi uma vez ao médico e não mais…não tinham passe e o hospital ficava longe.

Não faz mal, a irmã mais velha também é assim.

Esta mulher não queria nada, só queria que o seu Canina não fosse gozado na escola.

Se não lhe dava comida era porque não a tinha.

Se não lhe dava banho era porque não tinha água, apesar da água da chuva que caía dentro de casa.

A mãe queria que ele ficasse pequenino para sempre, ele era a única pessoa que a beijava.

Era por ele que ia à escola pedir leite e pão, era por ele que ia à escola pedir ajuda para pagar a água e a luz, era por ele que vivia num mundo desconfortável, agreste e exigente, num mundo que não a reconhecia.

Quantas vezes chorou por ter sido humilhada?

Os anos passaram,  o corpo desta jovem mulher ficou sem forma, a água continuava por pagar e a comida entrava-lhe em casa pelas mãos de uma instituição religiosa.

E o Canina? O Canina engrossou as estatísticas do insucesso escolar, mas não as do abandono.

O Canina foi para França, mas não teve trabalho. Regressou para o seu bairro, para a sua rua e agora engrossa a estatística do desemprego.

Os meninos como o Canina, as mães como a do Canina só existem nas estatísticas que revelam resultados negativos. Quando saltam para fora dos números têm nome, desejos, tristezas…

Quem diria?

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