Canina era o menino mais pequeno de todos os meninos que tinham, como ele, dez anos.
Não seria o menino com menos conhecimentos, mas ainda estava no segundo ano de escolaridade e mal sabia ler e escrever.
O seu corpo pequenino tinha medo de ocupar qualquer espaço, parecia que tinha vergonha de estar onde estava.
Como te chamas?
Canina.
Porquê Canina?
Não sei…chamam-me Canina.
E tu, porque lhe chamas Canina?
Porque ele é Canina e agarra-o pelo pescoço, põe-no debaixo do braço e abana-o.
O Canina sorri, os outros riem-se.
O Canina estava sempre a jeito para o agarrarem e fazerem dele um boneco de borracha.
Ele não se importava porque assim tinha amigos…
A mãe ia, com frequência, à escola e dizia:
Oh, professora, olhe o que fizeram ao Canina!
He! O que foi que te fizemos Canina? Diz…diz…
E o Canina ficava ainda mais pequeno, sorria e dizia “era a brincar…”
A mãe ficava a falar com a professora e dizia que o filho era assim pequenino porque tinha passado fome, que o marido lhe batia e bebia muito.
A mãe parecia não se lavar há muito tempo, tal como o Canina.
A mãe, jovem, já não tinha os dentes da frente. O filho tinha os dentes todos careados, “podres”, como lhe diziam, tinha mau hálito. “Cheiras mal da boca”.
Foi uma vez ao médico e não mais…não tinham passe e o hospital ficava longe.
Não faz mal, a irmã mais velha também é assim.
Esta mulher não queria nada, só queria que o seu Canina não fosse gozado na escola.
Se não lhe dava comida era porque não a tinha.
Se não lhe dava banho era porque não tinha água, apesar da água da chuva que caía dentro de casa.
A mãe queria que ele ficasse pequenino para sempre, ele era a única pessoa que a beijava.
Era por ele que ia à escola pedir leite e pão, era por ele que ia à escola pedir ajuda para pagar a água e a luz, era por ele que vivia num mundo desconfortável, agreste e exigente, num mundo que não a reconhecia.
Quantas vezes chorou por ter sido humilhada?
Os anos passaram, o corpo desta jovem mulher ficou sem forma, a água continuava por pagar e a comida entrava-lhe em casa pelas mãos de uma instituição religiosa.
E o Canina? O Canina engrossou as estatísticas do insucesso escolar, mas não as do abandono.
O Canina foi para França, mas não teve trabalho. Regressou para o seu bairro, para a sua rua e agora engrossa a estatística do desemprego.
Os meninos como o Canina, as mães como a do Canina só existem nas estatísticas que revelam resultados negativos. Quando saltam para fora dos números têm nome, desejos, tristezas…