
A noite em que a água levou quase tudo
por Carlos Pereira Martins
Na noite de 25 para 26 de Novembro de 1967, Lisboa e uma vasta área dos seus arredores foram surpreendidas por uma violência da natureza que, durante décadas, permaneceu muito mais silenciosa do que deveria. Choveu em poucas horas aquilo que, em condições normais, poderia cair ao longo de um ano. As ribeiras encheram-se, os rios transbordaram e a água, engrossada pela lama, desceu das encostas com uma força que pouco ou nada deixou à sua passagem.
Não foi apenas Lisboa. Foi a Lisboa que se prolongava pelos seus arredores pobres, pelas povoações da zona saloia e pelos aglomerados que cresciam desordenadamente à volta da capital: Loures, Odivelas, Pontinha, Póvoa de Santo Adrião, Frielas, Alverca, Alhandra, Alenquer, Barcarena, Colares, Queluz, Oeiras e tantas outras localidades foram atingidas. A bacia do Trancão tornou-se uma espécie de corredor da morte.
A água entrou pelas casas, pelas caves, pelas barracas, pelos quintais. Levou portas, móveis, animais, automóveis e, sobretudo, pessoas. Casas inteiras desmoronaram; outras foram simplesmente arrancadas do chão. Os arredores das grandes cidades estavam pejados de barracas onde quem vinha na esperança de arranjar sustento no comércio ou na indústria, passava com frio e lágrimas muitas noites. Essas, barracas e ocupantes, foram levados na enxurrada! Estradas desapareceram debaixo de rios improvisados. Pontes foram destruídas. As comunicações ficaram interrompidas e os transportes paralisaram. Em certos lugares, só de barco era possível avançar.
Lisboa, porém, não viu imediatamente a verdadeira dimensão daquilo que acontecera à sua volta. Foi escondida dos jornais e televisões, toda a verdade. E o país, só pelo relato de familiares para cá deslocados, tiveram uma ideia vaga. E talvez essa seja uma das mais dolorosas ironias daquela noite: enquanto na capital se via a chuva e a inundação, nos campos e nas povoações dos arredores havia famílias inteiras a desaparecer.
Em Quintas, no concelho de Vila Franca de Xira, a tragédia assumiu proporções quase inimagináveis. Mais de um terço da população daquela pequena localidade terá morrido. Houve famílias em que a morte não levou uma pessoa, mas várias; houve casas onde, quando a água finalmente baixou, já não havia ninguém para abrir a porta.
E depois veio a manhã.
A manhã é muitas vezes mais cruel do que a noite, porque permite ver.
À luz do dia apareceram os destroços, os animais mortos, as casas destruídas, a lama agarrada às paredes e os corpos daqueles que tinham sido levados pela enxurrada. Helena Roseta, então estudante de Arquitectura, recordaria muitos anos depois o cheiro dos cadáveres e o choque provocado pela visão daquela devastação. Para uma geração de estudantes que conhecia a pobreza sobretudo através dos livros, aquela manhã foi uma brutal descoberta de um país que existia ali mesmo, às portas de Lisboa.
Mas houve uma outra realidade que a tragédia tornou visível: a pobreza.
Muitas das pessoas que morreram viviam em condições extremamente precárias, em barracas e construções levantadas em zonas sujeitas a inundações. O território tinha sido ocupado sem planeamento, as linhas de água haviam sido alteradas, a vegetação destruída e a habitação empurrada para onde a cidade não queria ou não podia construir. A chuva foi extraordinária, mas não foi a única responsável pela dimensão da catástrofe. O território, maltratado e desordenado, também ajudou a transformar uma intempérie numa tragédia humana de enormes proporções.
Foi então que aconteceu algo que merece ser lembrado com respeito.
Os estudantes foram.
Milhares de estudantes universitários mobilizaram-se para acudir às populações. Chegaram a ser cerca de seis mil, organizados em brigadas, muitos deles provenientes de Medicina, Engenharia, Arquitectura, Economia e outras áreas. O Instituto Superior Técnico tornou-se um dos centros de organização da ajuda. Recolhiam alimentos, roupa, medicamentos e outros bens; organizavam transportes; apoiavam os bombeiros e as populações; participaram em acções de vacinação e na organização de creches.
A piscina do Técnico, então vazia, chegou a transformar-se num enorme armazém improvisado, onde se acumulavam os donativos que chegavam de todos os lados. Na cantina preparavam-se alimentos para levar às populações, aos bombeiros e aos estudantes que partiam para os locais atingidos.
Era uma juventude que, poucos anos depois, viria a ter um papel importante na contestação ao regime. Alguns dos estudantes envolvidos nas operações de socorro ficaram ligados à história política e cívica do país. António Guterres, Marcelo Rebelo de Sousa e Helena Roseta, entre outros, estiveram associados ao movimento estudantil que nasceu ou se reforçou naquele contexto.
E aqui começa uma segunda história, talvez ainda mais incómoda do que a primeira.
O regime não quis que Portugal conhecesse plenamente a dimensão da tragédia.
Não se tratou simplesmente de uma ausência de informação provocada pelo caos das comunicações. Houve censura. Os jornais receberam instruções para limitar a dimensão das notícias, evitar determinados pormenores e cortar referências à actividade dos estudantes. Um telegrama da censura determinava, por exemplo, que referências às “actividades beneméritas de estudantes” fossem cortadas. Noutro caso, uma instrução ordenava: “Não falar no mau cheiro dos cadáveres.”
O número de mortos tornou-se, assim, uma questão política.
O regime divulgou números muito inferiores àqueles que mais tarde seriam considerados plausíveis. O número oficial foi durante muito tempo apresentado como sendo de algumas centenas, tendo a censura interrompido a contagem em 462 segundo documentação posteriormente divulgada; estudos e investigações posteriores apontaram para uma realidade superior a 700 mortos. A verdade absoluta talvez nunca venha a ser conhecida. Mas a discrepância entre os números oficiais e as estimativas posteriores é suficientemente grande para mostrar que a dimensão humana da tragédia foi deliberadamente diminuída.
Havia, portanto, duas cheias.
Uma era a cheia da água, que derrubava casas e arrastava pessoas.
A outra era a cheia do silêncio.
E essa não vinha do céu.
Vinha do poder.
O Estado Novo tinha uma imagem do país para preservar: uma nação ordeira, tranquila, disciplinada, governada com mão firme e onde as grandes perturbações pareciam acontecer sempre noutro lugar. As cheias mostravam precisamente o contrário. Mostravam pobreza, habitação miserável, ausência de planeamento, insuficiência dos meios de socorro e uma enorme distância entre a realidade das populações e a imagem oficial do país.
Por isso, aquilo que os estudantes viram e procuraram contar era politicamente incómodo.
O movimento estudantil produziu informação própria, recolheu testemunhos e organizou, através da Juventude Universitária Católica e das associações académicas, um Caderno de Reflexão que procurava explicar não apenas o que acontecera, mas também as causas sociais e urbanísticas da tragédia. O documento denunciava problemas que iam muito além da chuva: a habitação precária, a construção em zonas inundáveis, o desordenamento do território e a marginalização de populações inteiras.
É talvez essa a grande lição das cheias de 1967.
Uma catástrofe natural pode ser inevitável. A dimensão da catástrofe humana, muitas vezes, não é.
A chuva caiu do céu. Mas a pobreza, a falta de ordenamento, a construção em leitos de cheia, a insuficiência da protecção das populações e o silêncio posterior foram obra dos homens.
E, quando a água baixou, ficaram duas imagens de Portugal.
De um lado, ficaram os mortos, as casas destruídas, as famílias sem ninguém, a lama e uma tragédia que o tempo não conseguiu apagar.
Do outro, ficaram milhares de jovens que, em vez de perguntarem quem tinha culpa, perguntaram primeiro:
“Onde é que é preciso ir?”
E foram.
Foram para onde havia mortos.
Foram para onde havia fome.
Foram para onde havia crianças sem casa.
Foram para onde o Estado não chegava.
Talvez seja por isso que, passados tantos anos, as cheias de 1967 não devam ser recordadas apenas como uma gigantesca inundação.
Devem ser recordadas como uma noite em que a água revelou um país escondido.
E também como os dias em que uma geração de estudantes descobriu que a universidade podia sair das suas paredes e entrar na vida real — justamente quando uma parte do poder preferia que essa vida real permanecesse invisível.
A água levou muita coisa.
Mas não conseguiu levar a memória.
