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Aos visitantes, aos leitores de A VIAGEM DOS ARGONAUTAS – por Júlio Marques Mota

E aos agentes do audiovisual deste país dedico esta peça. Desde longa data que nós defendemos que a actual crise dita financeira seja colocada no seu verdadeiro lugar, que é ser vista como a expressão da crise do sistema neoliberal. Não se trata de mais ou menos regulação, não se trata de mais ou menos liquidez no sistema, não se trata de mais ou menos peso das agências de rating. Não, trata-se de um sistema com o seu próprio conjunto de regras em que à avidez dos grandes agentes tudo pode ser permitido em que os seus mecanismos de apropriação da riqueza criada, o excedente, entraram em disfuncionamento.

 

É sobretudo disto que se trata. E quando as situações de crise estalam, descobre-se que não há quadro legal para condenar seja quem for, porque o sistema legal em vigor foi construído peça a peça ao longo de décadas, foi construído não para isso, não para condenar a avidez dos mercados e dos seus grandes operadores, mas sim garantir que estes possam agir sem toda a impunidade. Veja-se, por exemplo, o drama de Trichet e do Banco Central Europeu que não pode admitir que se fale em reestruturação da dívida soberana da Grécia, de Portugal, da Irlanda, da Espanha, da Itália e amanhã de outros mais, porque se assim for pelo quadro legal que o neoliberalismo instaurou, estas dívidas passam a ser consideradas em situação de acontecimento de crédito, em situação de não satisfação das condições iniciais da sua emissão, em situação de incumprimento, ou seja, sujeitas à condição de lixo pelas agências de rating.

 

Nada haveria a dizer quanto a isso, se automaticamente não assistíssemos a uma desvalorização destes títulos, a uma desvalorização brutal dos activos dos bancos que estes títulos detêm, pois estes activos passam automaticamente a serem avaliados pelos seus valores de mercado e não pelos seus valores faciais, a uma falta brutal de liquidez pela parte destes mesmos operadores. Mais ainda, assistiríamos a uma impossibilidade do Banco Central Europeu poder fornecer liquidez aos mercados pois ficaria ele próprio impedido de aceitar estes títulos como colateral. De repente, por uma norma interna criada neste do sistema, são os países, são os bancos, são os mercados que entram em disfuncionamento total, é o país que se afunda. Esta foi a lógica de todos os mercados. Disso, aqui vos deixo um exemplo sobre o audiovisual e repare-se que todos os componentes da crise actual estão bem presentes no caso Murdoch como, por exemplo, os reguladores que nada regulam ou que são pagos por aqueles que são estão encarregados de estar a regular, ou ainda, como um outro exemplo, a presença dos paraísos fiscais, obra de analistas e conselheiros financeiros de alto gabarito. A alta finança, em suma. E com isto lembremo-nos do caso português sob a tutela de Cavaco Silva em que se criaram quatro canais de televisão quando não havia recursos de jeito para dois, lembremo-nos do famoso quinto canal quando objectivamente já se tinha fechado um dos quatro, o canal 2.

 

Lembremo-nos de tudo isto, lembremo-nos da ganância no assalto ao poder, lembremo-nos de igual modo do que agora se está já a perspectivar para a Caixa Geral dos Depósitos, para se branquear eventualmente o que foi esta crise, onde se aumentam os quadros de topo e onde o seu potencial Presidente, António Nogueira Leite, defende que se passe por cima das responsabilidades de quem é responsável pela crise..E de novo reencontramos o mesmo personagem, o Presidente da República, seu amigo pessoal, ao que creio. A lógica é a mesma em tudo isto, não o ignoremos. E boa leitura.

 

Coimbra, 26 de Julho de 2011 Júlio Marques Mota

 

Ler amanhã: O escândalo Murdoch ou o espectro da crise de subprimes

  

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