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ANÁLISES SOBRE A CRISE, OLHARES SOBRE A EUROPA, OLHARES SOBRE O CRIME QUE CONTRA ESTA OS SEUS DIRIGENTES ESTÃO A COMETER

É hora de deixar  de andar a mascar  pastilha elástica enquanto se anda de rede de capoeira  como protecção contra a crise  em  Espanha – II

Por Edward Hugh

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

(continuação)

As preocupações acerca de como o processo de reforma financeiro do sistema no seu conjunto estava a ser trabalhado pelo Banco de Espanha dispararam somente quando o Bankia  reconheceu ele próprio  que tinha renegociado 9,9 mil milhões de activos em 2011 para evitar então estar numa muito má situação. Essa é uma prática que os observadores externos tinham muitas vezes suspeitado de que os reguladores no banco de Espanha estavam a permitir, mas as últimas revelações só confirmam as suspeitas e levantam preocupações de que haja mais bancos espanhóis com os seus empréstimos problemáticos a terem que ser fortemente subavaliados, particularmente ao longo da linha sensível que divide “os bons ” empréstimos dos “maus” empréstimos. Na verdade, muitos perguntam como é que com cinco anos em crise pode ainda haver empréstimos de boa qualidade no sistema, uma vez que as garantias sejam adequadamente avaliadas, devidamente valorizadas.

Naturalmente todo o edifício BFA/Bankia é o primeiro bom exemplo, que eu poderei apresentar a propósito da utilização da pastilha elástica e de querer proteger a Espanha com uma rede de capoeira, uma vez que é difícil imaginar uma maneira mais complicada de fazer qualquer coisa que seja quase garantido que não funciona. Basicamente BFA, o banco mãe, foi criado como um banco ruim, onde os activos tóxicos de propriedades (principalmente terras) de sete bancos de poupança participantes foram colocados, apoiados, por uma mistura de acções preferenciais, de dívida subordinada e os recursos próprios em termos de acções de empresas, de títulos de investimento, etc., além de um empréstimo de “capital híbrido” de 4,5 mil milhões de euros concedido pelo  governo através do fundo governamental para a reestruturação bancária (FROB), que é pago a  8% ao ano. Naturalmente o valor dos activos tóxicos está condenado a cair  à medida que o tempo passa, e suponho que a esperança deve ter sido a de transferir rendimentos  do novo banco Bankia (“melhor” – não significa “bom”) para compensar perdas assim como o serviço do empréstimo obtido através do FROB. Mas as coisas não funcionaram desta forma (como poderia ter sido previsto), uma vez que o próprio banco Bankia foi criado com a sua própria exposição (especialmente sob a forma de empréstimos concedidos aos promotores de imobiliário, muitos dos quais a atingir a situação de “azedar”) como também eles simplesmente não dispunham de recursos suficientes para guardarem fosse o que fosse. E quando o novo governo introduziu uma lei que exige mais provisões, era então o chegar do fim, e a linha de apoio disponibilizada com a grande injecção de dinheiro público era agora uma necessidade para limpar e arrumar a casa. Outros tiveram a oportunidade de chutar a lata um pouco mais para longe no caminho inserindo-se numa fusão e assim compensavam as depreciações dos seus activos ( a tesourada na carteira de activos) contra a entrada de  capital, em vez de ter que transportá-las para ganhos e perdas. Mas Bankia era já demasiado grande e demasiado perto já do seu  abismo, já prestes a cair, para ser capaz de encontrar um “parceiro para esta dança”…

Para além do facto de que o que foi criado era uma estrutura brutalmente deficiente desde o início, especialmente dada a fraca conjuntura económica que a Espanha enfrentava e estaria a enfrentar nos próximos anos e o ajustamento em curso no sentido da baixa dos valores do imobilizado em terrenos, o Bankia enquanto estrutura financeira levanta toda uma série de questões importantes. Por exemplo, o que é que fizeram os reguladores no Banco de Espanha, o que é que eles pensavam quando deram a sua aprovação não só para o plano de actividades do banco  mas também à  flutuação do mercado de acções? Eles não admitiram que havia uma elevada probabilidade de fracasso, e que centenas de milhares de pequenos aforradores – muitos deles clientes do próprio banco, a quem foi vendida a ideia de comprar acções do seu próprio banco local na base da promessa de que isso estava a ser uma “grande oportunidade”, especialmente quando os depósitos normais estavam a pagar tão pouco – quase que certamente iriam perder muito do seu dinheiro aqui investido. O Banco de Espanha não estava consciente de quão vulneráveis eram estes “bons” créditos concedidos aos promotores imobiliários? Como é possível?

Mas a raiz do problema aqui não é o de uma decisão irresponsável, é o de toda uma vasta comédia de erros, a começar pelo início da crise financeira em 2007 e as constantes declarações de que, devido à sua configuração substancial de provisões praticadas, os bancos da Espanha estavam entre os mais sólidos e em melhor situação em todo o mundo. Estas provisões foram, de facto, importantes mas a sua existência e a constante comparação com a queda dos valores das propriedades entre 1992 e 1995 terá levado os reguladores do Banco central e os decisores políticos no Ministério da economia a terem uma falsa sensação de segurança. Eles simplesmente estavam decididos a mostrar essa cara de gente de coragem e a procurarem manter a confiança e simplesmente a tentar que a crise passasse. Quantas vezes ao longo destes anos todos nós ouvimos banqueiros lamentarem-se de  que um dia todos os activos de propriedade irão oferecer um legado valioso para os seus filhos se eles conseguirem  encontrar uma maneira de os manter intactos ao longo da presente tempestade . Infelizmente, olhando para os números de desemprego na juventude, muitos dos seus filhos terão que ir procurar trabalho num qualquer outro país e entretanto os preços sobre os bens imobiliários começam a subir se – olhando para o Japão – é que eles irão subir.

(continua)
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