Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
Mario Monti, salvador da Europa e ídolos dos media
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Mas quem são exactamente os juízes legítimos da acção do governo italiano? Os mercados ou, antes, o povo italiano? |
Frédéric Lemaire, 20 de Dezembro de 2012
Ao anunciar a sua demissão próxima, no dia 9 de Dezembro, da presidência do Conselho Italiano e a realização de eleições antecipadas nas semanas seguintes, Mario Monti provocou uma onda de espanto na imprensa. No entanto, é raro que um tal incidente, que pode ser visto como qualquer coisa de banal em democracia e em qualquer país europeu, absorva tanto a atenção dos media … É verdade que não se trata de um qualquer primeiro-ministro. Antigo conselheiro internacional de Goldman Sachs e antigo Comissário Europeu, que tomou as rédeas do país sem eleições, Mario Monti não tinha ele conseguido, com o seu “governo de peritos”, tirar a Europa da crise permitindo à Itália recuperar a confiança dos mercados? Olhemos para as homenagens unânimes da imprensa feitas a “Super Mario”.
A preocupação dos banqueiros
“A partida de Mario Monti inquieta a Europa” é o titulo do artigo do Le Monde. “Europa”? Mas que “Europa”? Ao ler o artigo, que apenas relata as palavras de consultores financeiros e de altos funcionários europeus, este resume-se às instituições e aos dirigentes da UE e aos mercados. Para eles, como relata o Le Monde, “Super Mario” tinha-se tornado “incontornável”, ele que tinha formado o seu “governo de técnicos”, com a bênção dos europeus.
O jornal Le Monde parece partilhar a alta estima dos “Europeus” por Monti. Não evitou ele o “naufrágio” da Itália, contribuído para “estabilizar a zona euro” e para “restaurar um pouco de confiança aos mercados”? Certamente, as suas reformas têm um custo, e “esta política teve como efeito o agravamento da situação económica do país.” Mas, é assim, pois é o preço a pagar para tranquilizar os mercados!
Agora, a saída de Monti ameaça “atirar lenha para a fogueira”, e Le Monde menciona “a inquietação do ambiente “: ” os mercados mostravam-se especialmente nervosos na segunda-feira de manhã.” Mais do que a saída de Monti, também é a perspectiva de uma eleição que parece cristalizar a preocupação ” da Europa”: “a zona euro teme, em caso de crise política prolongada em Itália, vir a enfrentar novas turbulências”.
O jornal Le Monde não é um caso isolado: a imprensa faz-se, por unanimidade, o eco… das preocupações dos banqueiros . Assim, Le Figaro publicou um artigo tendo como título original (“a partida de Mario Monti inquieta os Europeus”). Mas os “europeus” do jornal Le Figaro no entanto moderam as inquietações dos “Europeus” do jornal Le Monde, porque “os investidores estão convencidos que o realismo irá prevalecer na Itália”, e que um analista do banco americano Morgan Stanley diz que “a única coisa que esperávamos ainda de Mario Monti este ano era a votação do orçamento, que vai passar. Quanto aos outros “Europeus” – exclusivamente alemães com excepção do Presidente do Conselho Europeu – se eles ” se preocupavam desde há vários meses sobre o momento em que a política e o jogo eleitoral retomariam os seus direitos na Itália”, eles estão de acordo em considerar que ” não há nenhuma alternativa relativamente ao que faz Monti.
Eleições, .. mas não há nenhuma alternativa
“Não há alternativa”, é também a palavra de ordem do Nouvel Observateur, que faz de Monti um super herói: “super-técnico, que surpreendeu a Europa pela sua seriedade, pela sua capacidade diplomática e pela sua concepção intransigente do exercício do poder. “Vencedor do ‘spread’ e campeão do rigor” teria segundo o semanário a escolha entre a Presidência da República ou as eleições – que ele ganharia sem problemas. Na verdade, “os italianos parecem actualmente estar vacinados contra o vírus ilusionista e populista e devem pois dar a preferência ao seu bicho-papão que os salvou do desastre económico.” Só se lhe levantaria para ele, de acordo com o Nouvel Observateur, uma só questão: ” vale mais governar com a direita ou com a esquerda? Engraçado conceito de democracia…
É também o cenário proposto por Libération: Monti tem todas as chances, porque é “muito popular” com 43% de opiniões favoráveis! Uma percentagem importante segundo o jornal tendo em conta “a cura grave de rigor imposta ao seu país”. Portanto, ele poderia voltar a ocupar o lugar “a fim de tranquilizar os mercados e os parceiros europeus”. Para Libération “Europeu convencido”, praticante católico, é mais popular no eleitorado de centro-esquerda e entre os intelectuais, apesar da sua política de austeridade e da sua passagem pelo Goldman Sachs. Uma simpatia aparentemente partilhada por Libération que elogia as suas “grandes reformas”, “significativas”, em matéria de pensões ou a liberalização do mercado de trabalho que terão ajudado a “restaurar a credibilidade internacional da Itália”.
Libération também aprecia o talento para dar cabo de tabús pela parte de Monti: “Para impor as suas reformas e o rigor orçamental, Mario Monti teve a inteligência de agarrar nos tabus da esquerda, impondo um diferir para os 66 anos a idade de passagem à reforma.” Um balanço lisonjeiro que resume um Professor de história económica: “num um ano, ele fez mais do que todos os governos italianos desde 2000.” E quando num segundo artigo, Libération brevemente evoca um balanço menos cor-de-rosa, marcado pelo aprofundamento da crise social e económica assim como pela explosão da pobreza e do desemprego com a recessão, o diário deixa de estabelecer um nexo de causalidade entre este desastre social e as políticas “reconfortantes” aos olhos dos mercados… Melhor, o título do artigo, que é mesmo o menos ambíguo (“apesar das grandes reformas, o governo de peritos de Monti não foi capaz de erradicar a pobreza”), sugere que, apesar dos esforços do governo, que a situação social se deteriorou…
Das ‘Cimeiras da última chance ‘ e dos ‘planos de resgate’, recorrentes, o tratamento dos media sobre a crise Europeia, por vezes, tem tido o aspecto de músicas de novela, com os seus actores fetiche. Destes, há a Chanceler alemã, é claro, transformada então na figura de proa na Europa, do rigor e da ortodoxia orçamental – e o famoso “modelo alemão”; ou até mesmo Mario Draghi, Presidente do Banco Central Europeu, muito estimado pelo Le Monde e acessoriamente ex-vice-presidente do ramo europeu do banco de investimento americano Goldman Sachs, um homem competente, então [1].
Mario Monti, que combina ao mesmo tempo as qualidades da primeira e as competências do segundo, em termos de experiência na finança privada internacional e no seio das instituições europeias, homem de convicções económicas e de política orçamental , não poderia senão estar a ganhar com estas apreciações altamente elogiosas. Na verdade, a falta de análise crítica sobre o balanço do período Monti – considerado por outros «europeus», não mencionados na imprensa citada como sendo considerado, e de muitos pontos de vista, como um período verdadeiramente calamitoso – é pura e simplesmente ensurdecedora. A recessão, o desemprego que atingiu a Itália de forma extraordinariamente dura, são realidades só mencionadas de passagem – como se isto se refira apenas a um problema anexo. Sobre Monti, os artigos da imprensa parecem ser escritos a partir de outro planeta, um planeta habitado por banqueiros e dirigentes políticos, onde não se encara uma outra alternativa, ou quase : o próximo chefe de governo será Mario Monti… ir-se-á fazer de Mario Monti. Uma vez que é isto que os mercados nos dizem…
Mas quem são exactamente os juízes legítimos da acção do governo italiano? Os mercados ou, antes, o povo italiano? Para a imprensa, a resposta está encontrada. A pobreza e a crise social não são mais do que o preço necessário a pagar para evitar a crise… até à próxima cimeira. Consequentemente, a perspectiva de eleições democráticas aparece, na melhor das hipóteses, como sendo uma formalidade e, no pior dos casos, como sendo uma ameaça: a da rejeição – populista, necessariamente – deste governo “de técnicos” que se apresentam com um balanço da sua actividade tão “lisonjeiro”. Trata-se que não apenas nos assuntos europeus, como em muitos outros, os pressupostos dos grandes media , garantes autoproclamados da democracia , são por vezes muito pouco democráticos.
