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RETRATOS, IMAGENS, SÍNTESE DOS EFEITOS DA CRISE DA ZONA EURO SOBRE CADA PAÍS

ITÁLIA, DEMOCRACIA PRECÁRIA, por  OLIVIER FAVIER.

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

 (DO SITE ON NE DORMIRA JAMAIS)

Parte IV

(continuação)

Malavita e imigração: ferida nacional e os bodes expiatórios

Em 2009, Videocracia, filme de Erik Gandini, também se centrou sobre dois produtos do berlusconismo, ambos envolvidos no ano seguinte no caso eRubygate.

O empresário Lele Mora, depois de um elogio bem franco ao Cavaliere, confessa quase sem transição a sua nostalgia face ao Duce, embora “não sejam comparáveis”. Ele aproxima da câmara o seu telefone portátil para se ouvirem os cânticos do regime, as cruzes suásticas no écran. (Fonte)

Fabrizio Corona define-se, ele mesmo, como um “Robin Hood dos tempos modernos, que rouba aos ricos mas para dar  tudo a si mesmo”. De 2001 a 2008, a sua agência de paparazzi mestres-cantores vende as imagens escandalosas dos que se deixaram fotografar. Encarcerado algumas semanas em 2007, Fabrizio Corona habilmente preparou a sua fuga. As suas declarações foram colocadas na canção “Ostaggio dello stato” [o refém do Estado]. Aproveitando-se da sua semelhança física com Al Pacino, posteriormente, vendeu a sua imagem  em T-shirt, vendeu a sua presença em discotecas e em palcos de televisão, multiplicou as suas aparições em filmes, publicou um livro. Ele confessa também uma grande admiração por Silvio Berlusconi: «Se quiser resultados na vida deve fazer coisas não muito bonitas, o importante é tomar o poder» Em Janeiro de 2013, ele é preso em Portugal de onde depois fugiu . Foi agora condenado a cinco anos de prisão.

Nichi Vendola [esquerda ecologia e liberdade] é, para muitos, a antítese de Sílvio Berlusconi: assumidamente pós-comunista e ecologista, católico e homossexual, tornou-se conhecido como governador de Puglia, uma das regiões mais pobres do Sul. No contexto actual, o slogan ‘Bem-vindo à esquerda’ ressoa como uma ousadia para um partido aliado ao favorito nas sondagens.

Encorajado pela “mutação antropológica”, anunciada desde 1975, por Pier Paolo Pasolini, nas suas Cartas Luteranas, a Camorra napolitana ataca-se a querer entrar e dominar certos  novos mercados: a crise do lixo tem deixado atrás de si, como explicou o director-Adjunto do Il Manifesto, Angelo Mastrandrea, “um depósito de 8 milhões de ecobalas e bem pouco ecológicas’ e um aumento significativo na mortalidade. Mais recentemente, na Sicília, a máfia atirou-se ao mercado das energias renováveis. “A máfia não é um problema do Sul, afirmava Sara Prestianni fotógrafa e candidata de Sinistra Ecologia e Libertà [Esquerda Ecologia e Liberdade] movimento de Nichi Vendola, governador de Puglia e candidato da esquerda radical nas primárias do Partido Democrata: ‘ é necessário atacarmos em todo o território e especialmente nos locais onde o dinheiro pode ser reciclado.” A situação política actual não é uma boa resposta, diz ela, a boa resposta deve ser uma maioria muito forte. É por esta razão que o seu movimento se juntou ao centro-esquerda: “ao contrário da França, a lei eleitoral obriga-nos a coligações amplas.

A Aliança promete que o futuro de Itália será um futuro muito agitado, mesmo muito tumultuoso. Para o analista político Giuliano Santoro, o Partido Democrata insiste demasiado na ideia de que “a imigração não é nem de esquerda nem de direita. Em 2008 e 2009, o ministro do Interior Roberto Maroni – duma liga do Norte agora em declínio – votou dois ” pacotes de dispositivos de segurança”. Eles introduziram, nomeadamente, a qualificação de delito para a imigração ilegal e a possibilidade de um “estado de urgência ” face a importantes concentrações de ‘clandestinos’ ou ‘nómadas’. Neste contexto desinibido, os moradores em Rosamond entregaram-se em Janeiro de 2010 a uma verdadeira caça aos migrantes, por iniciativa da N’ Dranghetta calabresa. Especialista em questões migratórias, Sara Prestianni repete ainda: “eu vivo desde os 7 anos em França e estou bem colocada para o dizer. Há agora mais italianos no estrangeiro do que estrangeiros na Itália. Isto deve-nos levar a todos a pensar. »

A Camorra napolitana matou mais de 4.000 pessoas em 30 anos. Uma foto da rodagem de Fabrizio di Giulio para o filme Fortapasc de Marco Risi (saído em França em 2011)
(continua)
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