RETRATOS, IMAGENS, SÍNTESE DOS EFEITOS DA CRISE DA ZONA EURO SOBRE CADA PAÍS

 ITÁLIA, DEMOCRACIA PRECÁRIA, por  OLIVIER FAVIER.

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

 (DO SITE ON NE DORMIRA JAMAIS)

mapa itália

Parte II

(continuação)

itáliaprecária - IIIA « caixa » de Libération no dia e 10 de Dezembro de 2012, com o anúncio da candidatura de Silvio Berlusconi.

Da “videocracia ” ao populismo 2.0.

O que surpreende o leitor francês nesta rápida análise da situação é a dificuldade de definir a identidade política das três forças em presença. Lembre-se que Walter Veltroni, ex-membro do Partido comunista e candidato democrata em 2008, tinha-se então recusado a definir ” a esquerda”, preferindo na altura o rótulo “reformista”. Em 2011-2012, a linha definida por Mario Monti  beneficiou do apoio quase incondicional do ‘centro-esquerda’, quando a linha de Monti se aproximava das políticas praticadas pelo UMP em França ou pela CDU na Alemanha.

Entre 1989 e 1994, o colapso do bloco leste e, em seguida, a operação ‘Mãos limpas’ levaram à ruína definitiva as três principais forças políticas no país desde a guerra, o Partido Comunista Italiano, no primeiro caso, o Parido socialista italiano e a democracia cristã no segundo caso, ou seja aqui devido à operação chamada mãos limpas. É neste momento, confirma o ensaísta e analista político Giuliano Santoro, que “a Itália perdeu o seu ponto de equilíbrio”. Neste contexto, Forza Italia, transformada depois em PDL no decorrer do ano de 2009, apareceu primeiramente como uma primeira criação do ‘passado’, mesmo que este estivesse a ocupar um espaço sub-investido desde a queda do fascismo.

Num documentário de 2009, Videocracia, Erik Gandini mostrou como é que ” o chefe da televisão italiana se tornou o chefe do governo. Forza Italia, associação fundada há cerca de vinte anos atrás foi transformada em partido em 1994 – ano da sua primeira e meteórica ascensão ao poder – foi estruturada pelos homens do marketing de Fininvest, sobre o modelo das claques dos clubes de futebol. O programa foi concebido – a receita mudou pouco desde então – a partir de inquéritos  onde os perfis dos eleitores eram classificados como se fossem quotas de mercado. O braço armado e mediático do socialista Bettino Craxi, transformou-se assim em arauto do ‘centro-direita’. Sem nunca recorrer à força, Silvio Berlusconi imediatamente esvazia de sentido as bases do debate democrático.

itáliaprecária - V Beppe Grillo em Trente en 2012.

Nas últimas sondagens, o terceiro lugar é ocupado por um recém-chegado vindo do ‘antipolítico’: “O Movimento 5 estrelas ” de Beppe Grillo. Ter-se-á podido acreditar num primeiro momento que se trata de uma farsa insolente, o modelo da candidatura de Coluche em 1981. Em 1985, Beppe Grillo tinha também partilhado o estrelato com o actor francês na guerra Le Fou de guerre de Dino Risi. A comparação não vai para além disso, entre outras coisas porque Beppe Grillo nunca apresentou qualquer candidatura em seu nome, delegando o exercício do poder aos “grillini”, que conta com muitos eleitos locais.

Na continuidade de espectáculos abusivos, Beppe Grillo criou em 2005 com Roberto entertainer Casaleggio um blog que rapidamente se tornou o mais visto em Itália. Os seus comentaristas nesse blog bem sonham com a democracia directa e participativa. Como o refere Giuliano Santoro, autor em 2012 do livro Un grillo qualunque, “a explosão das aprovações para O Movimento 5 estrelas não foi seguido de um aumento das reuniões e de um maior envolvimento da actividade de base”. Tudo se passa, de facto, como se este blog tenha como seu grande mérito ensurdecer a contestação.

É um dos sinais de um possível paralelo com a “Frente de um homem qualquer “, um pujadismo à italiana desenvolvido no período imediatamente a seguir ao pós-guerra. O velho slogan, ‘Non ci rompete più o scatole’ [não dê cabo dos pés] encontrou um eco explícito no Vaffanculo-day [o dia do vai-te foder] de Beppe Grillo em 2007 e 2008, antes da sua verdadeira entrada na política durante 2009. O “grillismo” partilha com o “qualunquisme” a rejeição dos partidos tradicionais e a postura “nem de direita nem de esquerda. Aqui ele acrescenta a reciclagem de algumas ideias alternativas, como o crescimento negativo, o decrescimento, e a ecologia. A cultura da invectiva, onde a controvérsia, por vezes, se resume por vezes à pergunta de provocação sistemática ketipaga [quem te paga?] faz mesmo soar a outras preocupações. Se o seu eleitorado se situa principalmente entre aqueles decepcionados pela esquerda alternativa, a imprensa italiana refere localmente e em várias ocasiões os curiosos paralelos com o movimento fascista do Casapound. Beppe Grillo disse em Janeiro diante das câmaras: “é um movimento [o nosso] onde ninguém… ninguém… de direita, de esquerda, dos centri sociali, do Casapound que tem as mesmas ideias que nós, pode intervir.”

itáliaprecária - VI

 Guglielmo Giannini, « o homem qualquer »

(continua)

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