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A CANETA MÁGICA – DERRUBAR O GOVERNO NÃO CHEGA – por Carlos Loures

Tenho usado com uma frequência talvez excessiva a velha metáfora do labirinto para caracterizar a nossa situação de reféns de poderes que não controlamos e  que nos obrigam a viver em conflito com quase tudo o que pensamos. Poderes que não elegemos, determinam como vamos viver, como vamos alimentar-nos, como vamos vestir-nos. Nem se esquecem de nos ensinar como ser ‘rebeldes’. As coisas não se passam de forma tão ostensiva como George Orwell ficcionou, mas aí temos o Grande Irmão em todo o seu esplendor, vigiando, manipulando e controlando todos os nossos movimentos, impulsos, intenções…

Há dias atrás, Josep Anton Vidal ao enviar-me uma colaboração dizia-me – “Mando-te um texto. Mais do mesmo”. Respondi-lhe: “O que queremos é mais do mesmo até que aquilo que desejamos se transforme em realidade. Dizem que uma mentira repetida mil vezes se transforma numa verdade – esperemos que uma verdade repetida um milhão de vezes se transforme em Lei. Até que assim não seja… mais do mesmo”. Resposta de Josep: “É verdade, mas é muito cansativo. É como estar preso no tempo. Neste país, os meios de comunicação podem encher as páginas do dia copiando artigos publicados há décadas sem que os leitores notem o salto no tempo”. Por «este país», Josep quer dizer a Catalunha.Pois em Portugal passa-se o mesmo. Diria que acontece em todos os países e não apenas no país do Josep. O pensamento corre a uma velocidade diferente daquela a que a realidade se move. E, com todo o aparente dinamismo que a sociedade ostenta – carros velozes, comboios, barcos e aviões que encurtam distâncias entre continentes, comunicações cada vez mais fáceis, acesso irrestrito à informação… apesar de toda esses avanços  tecnológicos que nos dão a ilusão de que há uma evolução e um progresso contínuos, a vida não muda, como queria Rimbaud, nem o mundo se transforma, como Marx desejava.

Quando digo que partidos e sindicatos são peças do jogo que o sistema capitalista controla, não estou a pôr em causa a honestidade de alguns militantes partidários e activistas sindicais. Digo apenas que estamos a combater mísseis usando fisgas. E desgastamo-nos em lutas inúteis. Por exemplo – para todos começa a ser evidente que este governo tem de cair. Há dois anos, dizíamos o mesmo do executivo de Sócrates. E tínhamos razão. Mas Sócrates caiu e foi substituído por Passos Coelho. E quando Passos Coelho cair, virá outro… Como disse Josep Vidal, é muito cansativo.

Era importante que colectivamente percebessemos que derrubar um governo de nada serve se a seguir elegemos outro igual (ou pior). Derrubar um governo não chega – é preciso derrubar o sistema. Repito a metáfora – quem está encerrado num labirinto viciado, sem saída, só tem uma coisa a fazer – destruir o labirinto, saindo a direito (pela esquerda).

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