Dizer-se que a democracia é o pior dos sistemas com excepção de todos os outros que se conhecem, uma frase célebre de Wiston Churchill, tem alguma graça, mas não corresponde à verdade. Tem sido uma forma evasiva de branquear modelos de democracia que, como o que vigora entre nós, é uma alameda que conduz directamente à barbárie. Apesar de todas as experiências socialistas poderem ser consideradas como falhadas, onde é que existe um sistema de democracia neo-liberal que tenha erradicado a injustiça social? A democracia, como a entendemos, extrai a sua vitalidade, a sua força motriz, das assimetrias sociais – é a barbárie institucionalizada.
A expressão «socialismo ou barbárie» tem origem numa frase de Rosa Luxemburgo num ensaio de 19<16, ‘The Junius Pamphlet”. A frase da revolucionária alemã deu lugar à criação de um grupo socialista libertário radical francês do período pós-guerra. O grupo Socialismo ou Barbárie existiu entre 1948 e 1965. A personalidade nuclear do movimento era Castoriadis, também conhecido como Pierre Chaulieu ou Paul Cardan. Oriundo da Quarta Internacional (trotskista), onde Castoriadis e Claude Lefort constituíram uma tendência do Partido Comunista Internacionalista francês, em 1946. Rejeitando os partidos como protagonistas do sistema democrático, defendiam a organização dos trabalhadores em conselhos. Rosa Luxemburgo, ao colocar o socialismo como única alternativa à barbárie, consubstanciou em três palavras todo um programa de luta.
Mas não venho colocar aqui mais uma vez a questão dos partidos serem ou não instrumentos válidos para aceder a uma sociedade socialista. Tenho frequentemente expendido a opinião de que são organizações criadas há século e meio para enfrentar uma sociedade capitalista que entretanto se transformou. Partidos, sindicatos e as formas de luta que preconizam, correspondiam a uma realidade que já não é a que vivemos. O sistema capitalista actual incorpora já o antivirus da doença que partidos e organizações sindicais lhe tentam inocular desde a Comuna de Paris. Partidos e sindicatos, fazem parte do sistema – são formas ritualizdas de contestar – tão eficazes como a dança da chuva.
A barbárie está a bater-nos à porta.
O modelo capitalista está esgotado. Ou nos organizamos e nos prepramos para a combater ou aí a temos travestida de democracia. Uma democracia onde as “liberdades” sufocam a liberdade. Uma ditadura do poder económico onde há liberdade para protestar, mas onde os protestos nenhuma influência alcançam.