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GIRO DO HORIZONTE – GLOBALIZAÇÃO DA CONTESTAÇÃO – por Pedro de Pazarat Correia

10550902_MvCyL[1]Distúrbios urbanos persistentes em Paris nos meados da primeira década deste século, revoltas no mundo árabe no início da segunda década, insurreições cívicas nas principais cidades da Turquia, levantamento generalizado no Brasil nestas últimas semanas. Pelo meio contestações em vários países europeus, Grécia, Reino Unido, Itália, Espanha, no extremo oriente, Coreia, Indonésia, no continente sul-americano, Venezuela, Bolívia, México, no continente africano e sub-shaariano, Sudão, África do Sul. E deixamos de fora conflitos armados na Ásia central, no Médio Oriente, na África do Sahel. O que há de comum em todos aqueles movimentos cívicos tão longínquos geograficamente e díspares nos seus desenvolvimentos, começando por incidentes pontuais e tão distintos como a reacção a uma intervenção policial, um cidadão que em protesto se imola pelo fogo, a preservação ambiental de uma praça, o aumento das tarifas dos transportes públicos? Alguns são contidos e parecem esvaziar-se, outros levam à queda de regimes, outros prolongam-se em conflitos violentos, outros dão lugar a evoluções controladas. Eu diria que o denominador comum é a globalização, todos têm origemna globalizaçãoe reflectem as suas contradições.

 A globalização assenta num pilar determinante, a comunicação. Foi a comunicação, nas suas várias dimensões, transportes, circulação, informação, que unificou o mundo. Diz-se que a globalização começou com as viagens transoceânicas dos portugueses e por isso se fala numa era pré-gâmica e numa era pós-gâmica. Desenvolveu-se com a explosão dos transportes das eras do vapor e do petróleo, navio, caminho-de-ferro, automóvel, avião. O último patamar foi odas novas tecnologias da informação moderna que traz o mundo quotidianamente à casa de cada um, em toda a parte e a todo o instante. A globalização foi uma inevitabilidade do progresso.

 Mas há um segundo pilar da globalização e esse já é um aproveitamento dessa inevitabilidade pelo poder económico dominante, o mercado. A globalização é também a instalação de um mercado global, a generalização das perversões do capitalismo, o desemprego, a corrupção, a depredação de recursos, a degradação ambiental, a imposição da sociedade de consumo tornada paradigma societal à dimensão planetária.

 Na sequência do mercado global dominado pelo centro do sistema mundial, impõe-se o terceiro pilar da globalização, o modelo político democrático liberal. É o modelo único assente na exclusividade da democracia representativa formal, nos jogos palacianos do poder, com exclusão da democracia participativa, a política dominada pela plutocracia económica e financeira, longe dos cidadãos e das realidades culturais, que impõe que quem chegue ao poder, mesmo com os mais generosos e solidários programas políticos e sociais, se curve perante a inevitabilidade das regras impostas pelo núcleo duro do sistema mundial. É o império global.

  A contestação que alastra pelo mundo é, simultaneamente, um aproveitamento das condições proporcionadas pela globalização – a mobilização, recrutamento e promoção através dos media –, e a contestação e revolta contra as perversidades da globalização – fraude política, corrupção económica, degradação social, alienação cultural. A globalização criou as redes sociais através das quais se convocam as manifestações e concentrações, montou as cadeias de comunicação de massas que levam as razões da contestação à consciência de todos,proporcionou as mega-concentrações urbanas e as facilidades de transporte que permitem as participações massivas.

 A globalização podia ter sido a oportunidade de uma era virtuosa, de progresso humanista, de qualidade de vida generalizada, educação, cuidados de saúde,velhice segura.Oportunidade perdida porque não era o objectivo dominante de quem a aproveitou e têm sido os seus malefícios que se têm imposto.Isso tem sido denunciado no Fórum Social Mundial por especialistas sociais de forma estruturada e orgânica. Creio que o levantamento cívico generalizado que tem caracterizado esta entrada no século XXI é a expressão de massas, da rua, dessa denúncia.

 O poder vai ter que se reformular profundamente para conseguir lidar com a contestação que está a assumir uma dimensão planetária, global. Esperemos que não seja através de processos que venham a assumir a forma de um fascismo global.

24 de Junho de 2013

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