GIRO DO HORIZONTE – NELSON MANDELA – por Pedro de Pezarat Correia

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           A ONU decidiu instituir o dia 18 de Julho como “Dia Mundial Nelson Mandela”. Porque foi o dia do seu nascimento, exatamente há 98 anos. Associo-me desta forma à escolha justa da ONU, dedicando o GDH de hoje ao “meu herói da minha geração”. Evidentemente que se pode dizer que, pelo que significam, todos os dias devem ser “Dia Mundial Nelson Mandela”. Como todos os dias devem ser Natal, Dia Mundial da Paz e dia mundial de todos os valores que configuram o que há de mais positivo no Homem. Cada dia dedicado a uma figura, a um acontecimento, a um ideal, a um objetivo da humanidade, serve para salientar isso mesmo.

           Já em tempos, em 9 de Dezembro de 2013, dediquei a minha página do GDH a Nelson Mandela. Foi por ocasião do seu falecimento, mas nunca é demais recordar o lutador pelos valores universais da liberdade, da dignidade, da justiça em todas as dimensões, da igualdade, que tudo arriscou e apoiou a luta armada como último mas legítimo recurso contra a violência da tirania e do apartheid e que, chegado ao poder no fim de uma vida exemplar, se manteve fiel aos princípios que sempre nortearam a sua conduta e recusou deixar-se arrastar para radicalismos de ajustes de contas. Mas também sem nunca renegar o seu passado.

        É importante recordar Nelson Mandela numa altura em que tanto se fala de terrorismo, em que o terrorismo concentra justificadamente as preocupações gerais, em que por tudo e por nada se recorre à invocação do terrorismo. É que, convém não esquecer, Nelson Mandela também foi acusado de terrorista e essa acusação, partindo de um regime e de um Estado, esses sim, terroristas, valeu-lhe 26 anos de prisão desumana e privou a África do Sul, o continente africano, a humanidade em geral, do contributo político de um cidadão do mundo que, o futuro viria a demonstrar, tanto tinha para dar. A prisão dos lutadores sul-africanos foi um crime contra o direito das gentes. O sequestro de Nelson Mandela foi um crime contra a humanidade.

            Madiba começou a sua intervenção política como um pacifista, na linha de um Mahatma Gandhi, um indiano que viveu e militou na África do Sul, onde promoveu a resistência pacífica e que ele tanto admirava. Mas em 1960, o massacre de Sharpville, uma das jornadas mais negras do tenebroso apartheid, fez Mandela mudar. Abdicando de uma carreira na advocacia que, apesar das contrariedades que teria de enfrentar, se perfilava brilhante, fez a mais corajosa opção da sua vida: passou a apoiar e a envolver-se na luta armada do seu povo, como último recurso, o único que restava na luta contra a violência do regime de Pretória. Tornou-se combatente e líder da “Lança da Nação”, o movimento armado clandestino do Congresso Nacional Africano contra o terrorismo do Estado racista. Fê-lo conscientemente e, por isso, o futuro estadista presidente da África do Sul libertada, que todo o mundo louvava, era também o herdeiro do jovem lutador e guerrilheiro que nunca renegou. Já no final da sua vida Mandela declarou, com toda a lucidez, que «É sempre o opressor, não o oprimido, que determina a forma da luta. Se o opressor utiliza a violência, o oprimido não tem outra escolha que não seja a de responder pela violência.»

           Estas palavras sábias, que são de um rigor a toda a prova, são também de uma atualidade e universalidade permanentes. São verdadeiras aplicadas a qualquer período da história e a qualquer região do mundo. Foram uma verdade ontem, são uma verdade hoje, aqui, nos Balcãs e no Cáucaso, no Médio Oriente, na África Subsahariana, na Ásia Central e no Sudeste Asiático, na América Latina.

            Sabemos bem isto em Portugal, os que não padecem de memória curta, como a violência da ditadura e do regime colonial empurraram para a luta armada os patriotas da metrópole e os movimentos de libertação das colónias, a quem os torcionários chamavam de terroristas.

            Ao prestar aqui, a minha homenagem a Nelson Mandela, envolvo também os combatentes que em Portugal e nas colónias portuguesas, por lutarem contra a ditadura e contra a opressão colonial, obrigados que foram a elevar a resistência ao patamar da luta à armada, foram chamados de terroristas e, pior, foram tratados como terroristas. O Tarrafal, em Cabo Verde, foi o Robben Island para os resistentes portugueses e das colónias portuguesas. Muito morreram sem terem tido oportunidade de verem o resultado das suas lutas.

Perante eles, perante Nelson Mandela, me curvo.

18 de Julho de 2016

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