GIRO DO HORIZONTE – Criminalidade Transnacional Organizada – por Pedro de Pezarat Correia

10550902_MvCyL[1]Na tipologia dos conflitos da era unipolar da globalização que se seguiu à bipolaridade da guerra-fria, aquilo a que se vem chamando novas guerras, por oposição ou exclusão das guerras clássicas ou guerras convencionais, compreende três tipos que vêm merecendo especial atenção nos centros de reflexão estratégica e que são, em geral, apontados como as grandes ameaças neste início do século XXI. São a proliferação de armas nucleares, o terrorismo global e a criminalidade transnacional organizada (CTO).

A proliferação das armas nucleares assume, em relação aos outros dois, especificidades particulares, mas não deixa de com eles ter alguns pontos de contacto. Nestes meus giros do horizonte semanais já lhe tenho feito algumas referências.

Já o terrorismo global e a CTO aparecem muitas vezes associados, até porque se inserem mais num quadro do banditismo, da marginalidade, da criminalidade comum, que o pensamento militar mais tradicional tem reservas em inscrever no espectro da guerra, preferindo remetê-los para o âmbito policial ou judicial. A verdade é que é, exactamente,por não se inscreverem no paradigma clausewitziano que dominou o pensamento militar nos últimos dois séculos, por poderem não opor Estados, por poderem não estar em causa objectivos políticos, por poderem não envolver estruturas militares institucionais, por poderem carecer de um nexo de racionalidade, que se lhes aplica a terminologia novas guerras.

De facto, hoje, vemos forças armadas serem chamadas a intervir na Ásia Central, no Médio Oriente, na Colômbia, na África do Sahel, em operações militares, isto é em guerras, nas quais se confrontam com inimigos que fogem completamente aos padrões institucionais, organizacionais, comportamentais, metodológicos e conceptuais com que estão familiarizadas. São paradigmas de guerras assimétricas.

Nos últimos dias temos sido confrontados com esta evidência, com as notícias que nos chegam do Mali e da intervenção militar francesa. Ainda que a origem recente do agravamento do conflito esteja na rebelião tuaregue e no posterior aproveitamento islamita, com objectivos políticos cisionistas do nordeste contra o poder de Bamako, e haja relação com as revoluções árabes – implosão da Líbia – ou com a Al Qaeda – sequestro de reféns na estação de gás argelina de In Amenas – as causas do conflito são mais vastas, transversais e inscrevem-se no quadro da CTO. O Mali é centro de uma vasta região que vai do Atlântico ao Corno de África, na qual convergem factores que favorecem a emergência de Estados falhados e estes constituem os redutos mais propícios às actividades da CTO. Os contrabandos vários, de armas, de tabaco, de droga, de ouro, de urânio e outros metais raros, de pessoas, são ali dominados por senhores da guerra, por responsáveis políticos, por líderes religiosos, por “capos” mafiosos, em enormes extensões onde há recursos a explorar e uma circulação sem controlo. A ONU e outras instâncias internacionais apelam, ou cobrem a intervenção das grandes potências do núcleo central do sistema global, que invocam a necessidade de pôr cobro a uma situação que, de facto, ameaça a paz e a segurança mundial. O problema é que, quase sempre, nas potências interventoras também há interesses relacionados com as causas dos conflitos. A CTO normalmente é interpretada como um fenómeno do Sul, da periferia, mas exactamente porque é transnacional está implantada tanto no Sul como no Norte, tanto na periferia como no centro do sistema global. E as suas sedes, os seus cérebros, os seus financiadores e os seus grandes beneficiários, estarão muito mais no centro do que na periferia.

É por isso que as intervenções externas são muitas vezes acusadas de não serem inocentes e desinteressadas. Provavelmente com fundamento. E as forças armadas convencionais continuam a demonstrar grande dificuldade em enfrentarem guerras assimétricas. É o paradoxo da inutilidade da força.

28 Janeiro 2013

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