JOÃO DOS SANTOS E AGOSTINHO DA SILVA por clara castilho
clara castilho
Era grande a amizade entre estes dois homens, baseada no respeito e admiração que tinham um pelo outro. Conviviam bastante e ainda pude ter o prazer de os ouvir, quietinha num canto a ver se encaixava tudo, perdida na imensidão dos seus saberes…
Já depois de João dos Santos ter falecido, realizou-se na Fundação C. Gukbenkian, a 21.03.89, o Encontro da CEFEP (Centro de Educação e Formação de Professores), dedicado à divulgação do pensamento e acção de João dos Santos, Nele interveio Agostinho da Silva. E disse: “Então a minha sorte, quando deixei Brasília para vir para Portugal, foi exactamente – e ponho entre o melhor que me tem sucedido na vida – o ter conhecido João dos Santos. […] Então, o grande gosto em Portugal era estar com João dos Santos em qualquer dos ambientes em que ele era pleno: na sua casa de Sesimbra ou na sua casa de Sintra ou na Casa da Praia.
[…] foi muito bom que João dos Santos tivesse cumprido o seu dever de ser do seu tempo. Mas o melhor dele não estava aí. O melhor dele era ser o homem que era, ser a pessoa extraordinária que foi em todos os aspectos da sua vida.[…] Eu diria que João dos Santos teve três qualidades essenciais:
– foi um homem que nunca foi possuído por aquilo que possuía, nunca foi tido por aquilo que tinha. […] Ele conseguia ao mesmo tempo ter a posse das coisas e não ser possuído por elas.
– não era dono daquilo que amava, nem era dono daqueles a quem amava, mas também não estava de maneira nenhuma disposto a ser possuído por aquilo que amava ou por aqueles que amava.
– tendo bastante consciência da sua personalidade e disposto a exercê-la em qualquer ocasião e em qualquer circunstância, ele também era um homem que sentia o vento da vida e, se gostava de navegar aa favor dos alícios, também se lembrava que o grande trunfo dos portugueses, de que às vezes tanta gene se esquece, tinha sido navegar contra ventos contrários.
Então essas três qualidades, esses três votos – o de não ter, o de não possuir gente e o de ser obediente à vida, mais do que a si próprio, tendo, no entanto, o cuidado de ser sempre ele mesmo – faz lembrar realmente os votos de um religioso e me faz lembrar um religioso […que escreveu] “O verdadeiro culto se deve formar, se deve fazer, na humildade e no silêncio”. A mesma coisa penso eu para um homem como João dos santos. É preciso venerá-lo, entendê-lo e venerá-lo na humildade do silêncio, mas, por causa da nossa maneira de ser a que estamos habituados, sempre com muito cuidado para não ficarmos com orgulho da nossa humildade e não acabar falando muito do silêncio que deveríamos ter”.
Neste ano do centenário do seu nascimento, lembrei-me deste texto. E das palavras de Agostinho da Silva, escritas em bilhetinho: