JOÃO DOS SANTOS E AGOSTINHO DA SILVA por clara castilho

9349741_b7nul3[1]

Era grande a amizade entre estes dois homens, baseada no respeito e admiração que tinham um pelo outro. Conviviam bastante e ainda pude ter o prazer de os ouvir, quietinha num canto a ver se encaixava tudo, perdida na imensidão dos seus saberes…

Já depois de João dos Santos ter falecido, realizou-se na Fundação C. Gukbenkian, a 21.03.89, o Encontro da CEFEP (Centro de Educação e Formação de Professores), dedicado à divulgação do pensamento e acção de João dos Santos, Nele interveio Agostinho da Silva. E disse: “Então a minha sorte, quando deixei Brasília para vir para Portugal, foi exactamente – e ponho entre o melhor que me tem sucedido na vida – o ter conhecido João dos Santos. […] Então, o grande gosto em Portugal era estar com João dos Santos em qualquer dos ambientes em que ele era pleno: na sua casa de Sesimbra ou na sua casa de Sintra ou na Casa da Praia.

js e as

[…] foi muito bom que João dos Santos tivesse cumprido o seu dever de ser do seu tempo. Mas o melhor dele não estava aí. O melhor dele era ser o homem que era, ser a pessoa extraordinária que foi em todos os aspectos da sua vida.[…] Eu diria que João dos Santos teve três qualidades essenciais:

– foi um homem que nunca foi possuído por aquilo que possuía, nunca foi tido por aquilo que tinha. […] Ele conseguia ao mesmo tempo ter a posse das coisas e não ser possuído por elas.

– não era dono daquilo que amava, nem era dono daqueles a quem amava, mas também não estava de maneira nenhuma disposto a ser possuído por aquilo que amava ou por aqueles que amava.

– tendo bastante consciência da sua personalidade e disposto a exercê-la em qualquer ocasião e em qualquer circunstância, ele também era um homem que sentia o vento da vida e, se gostava de navegar aa favor dos alícios, também se lembrava que o grande trunfo dos portugueses, de que às vezes tanta gene se esquece, tinha sido navegar contra ventos contrários.

Então essas três qualidades, esses três votos – o de não ter, o de não possuir gente e o de ser obediente à vida, mais do que a si próprio, tendo, no entanto, o cuidado de ser sempre ele mesmo – faz lembrar realmente os votos de um religioso e me faz lembrar um religioso […que escreveu] “O verdadeiro culto se deve formar, se deve fazer, na humildade e no silêncio”. A mesma coisa penso eu para um homem como João dos santos. É preciso venerá-lo, entendê-lo e venerá-lo na humildade do silêncio, mas, por causa da nossa maneira de ser a que estamos habituados, sempre com muito cuidado para não ficarmos com orgulho da nossa humildade e não acabar falando muito do silêncio que deveríamos ter”.

001

Neste ano do centenário do seu nascimento, lembrei-me deste texto. E das palavras de Agostinho da Silva, escritas em bilhetinho:

“Jamais perdi um amigo

só que a morte mo levou

e vivo o deu ao eterno

eterno à vida o deixou

 

2 Comments

  1. Ontem tive a sorte de ter ligado a TV e na RTP2 poder ver parte do “Photomaton – Retratos de João dos Santos”. Nada conhecia dele, e nada conheço ainda. Conheço um pouco mais de Agostinho da Silva, de maneira que me ocorreu há pouco que ambos se dariam muito bem caso se tivessem encontrado. Bem, está resolvida, para grande deleite meu, a questão. Terei que aprofundar em leitura sobre o Dr. João dos Santos já que pouco material parece haver online. Agradeço-lhe imenso o belo artigo.
    Cumprimentos.

    1. Viva, Cristiano! Ás vezes acontecem estas confluências… Se quiser saber mais sobre João dos Santos, visite a página http://www.casadapraia.org.pt. Tem lá o telefone e pode pedir para falar comigo e combinaremos como lhe fazer chegar o livro que editei em Setembro. Também pode ver o site joaodossantos.net, feita este ano pelos filhos dele, para assinalar o centenário do seu nascimento, e onde constam muitos depoimentos sobre a sua obra e vida.

Leave a Reply