Pela mão de Spartacus, de Hegel e de Marx, uma viagem ao mundo infernal da precariedade, em Faro, em Portugal, na Europa
PARTE V
(CONTINUAÇÃO)
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Aos meus dois alunos lembrei-lhes ainda o modelo de Lamfalussy e a sua equação produtividade dada por ϕ = π + p(I/Y), onde (I/Y), representa o acréscimo de investimento por unidade de PIB, π representa o aumento de produtividade a investimento constante, necessariamente crescente com o nível de bem-estar social e de cultura geral da população do país e p reflecte a presença de investimentos inovadores, que tendem a reduzir-se com a redução da presença do Estado na economia, pois são os investimentos portadores de futuro a mais longo prazo e de modificação da estrutura produtiva . Ora com π, com p e com (I/Y), a decrescerem as políticas regressivas só fazem regredir descer a taxa de variação da produtividade, ou seja, a nossa posição na economia mundial regride e tanto mais quanto os nossos concorrentes são conduzidos por políticas expansionistas e inovadoras em termos de estruturas de novos investimentos. Ora, as políticas recessivas levarão à redução de ϕ e, portanto, à redução da nossa capacidade competitiva na economia global, portanto o efeito oposto ao proclamado pela Troika e seus criados. Sugeri-lhes mesmo que fossem ler o texto mais recente sobre Lamfalussy elaborado pela professora Margarida Antunes que está mais adaptado ao tema do que o que lhes ensinei naqueles tempos. Sugeri-lhes igualmente que lessem o caderno de textos de Economia Internacional elaborado pela mesma professora e disponível no nosso blog.
Um dos antigos alunos pergunta: mas espere aí. Nunca se ouve falar deste tipo de modelos. Porquê?
Simples, meus caros. Nestes modelos tipo Lamfalussy os salários entram tanto como sendo um custo de produção como entram igualmente como sendo um rendimento. Ora esta é uma hipótese que os neoliberais negam a pés juntos. Portanto são modelos a eliminar do ensino universitário.
Mas sendo assim, onde é que tudo isto nos leva, perguntaram os três ao mesmo tempo. Como resposta podia-lhes falar de Craigs, de Schummer, dois americanos, podia-lhe falar da minha aula proferida na FEUC, podia-lhes falar da violência da transição do feudalismo para o capitalismo e da violência equivalente que se está a instalar com a passagem de uma regulação nacional para uma desregulação mundializada, com a passagem a uma economia mundializada para lá da governação nacional, como se agora se esteja num barco à deriva e sujeito às leis do mais forte. Podia fazer tudo isso, mas levava tempo. Preferi antes, aqui e como resposta fiz-lhes uma síntese de uma conferência dada por Adam Posen, ex-membro do Comité de política monetária do Banco da Inglaterra (BoE), e presidente do Instituto Peterson para a economia internacional. Falei-lhes pois de um discurso proferido no Royal Institute for International Affairs em Londres, a 17 de Janeiro de 2012. Neste texto ( What the return of 19 th century economics means for 21st century geopolitics) ) pode-se ler:
“Nós já vimos antes um mundo em que os processos da integração económica global actuam contra o pano de fundo das relações internacionais algures entre um claro Hegemon e um conflito externo. Este tipo de mundo multipolar é o que existia no final do século XIX, aproximadamente entre 1870 e 1910.
As implicações económicas de um tal mundo são tais que vale a pena serem delineadas. Olhando para o passado, o que aconteceu com os agregados macroeconómicos de entre 1870 a 1910 relata-nos uma história coerente e relevante. Embora não se possa descrevê-la com precisão a partir de então e até agora, acho que os paralelos têm-se mostrado cada vez mais evidentes e, sobretudo, sê-lo-ão ainda mais evidentes nos próximos anos, não só apenas porque a maioria dos interesses políticos dominantes nas principais economias têm interesses e ideologias semelhantes aos seus homólogos burgueses e nobres da Belle Epoque. Onde se falou sobre interesses estabelecidos à favor dos grandes agrários no final de 1800, deve agora pensar-se sobre os detentores de direitos de exploração garantidos pelos governos (sejam eles de radiodifusão, banca, advocacia e consultoria, serviços médicos, ou similares). Onde se falava da forte e continuada descida dos custos de transporte que impulsionam a mudança e ameaçaram aqueles interesses de então, deve-se agora pensar nas tecnologias de internet a fazerem o mesmo agora. E onde se falava, então dos Estados Unidos (EUA), dever-se-á, agora, pensar na China (e depois do Reino Unido (RU) a perder influência, devemos falar dos EUA agora a acontecer-lhe o mesmo).
(continua)
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Para a Parte IV desta crónica do argonauta Júlio Marques Mota, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, vá a:
http://aviagemdosargonautas.net/2013/09/04/cronica-de-faro-no-4-por-julio-marques-mota-4/
