Teoria e Política Económica: os grandes confrontos de ontem, hoje e amanhã, também – uma homenagem ao Joaquim Feio — Capítulo 5 – Parte A: Texto 2 – David Ricardo, Karl Marx e o necessário antagonismo dos interesses de classe (excertos da Primeira Parte: David Ricardo e da Segunda parte: Karl Marx) (2/7).  Por Mathieu-Joffre Lainé

Reflexos de uma trajetória intelectual conjunta ao longo de décadas – uma homenagem ao Joaquim Feio

 

Capítulo 5 – Da teoria da renda diferencial de Ricardo à violência da renda absoluta de Marx

Nota de editor:

Devido à extensão do presente texto, o mesmo é publicado em sete partes, hoje a segunda.

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

11 min de leitura

Parte A: Texto 2 – David Ricardo, Karl Marx e o necessário antagonismo dos interesses de classe (excertos da Primeira Parte: David Ricardo e da Segunda parte: Karl Marx) (2/7)

 Por Mathieu-Joffre Lainé

Extrato da tese de Doutoramento em filosofia “David Ricardo, Karl Marx e o antagonismo necessário dos interesses de classe” (Primeira Parte: David Ricardo, pontos 3, 4 e 5; Segunda Parte: Karl Marx, ponto 2.4)

Publicado por  (original aqui)

 

Primeira parte: David Ricardo

 

(continuação)

 

3.1 Renda diferencial

[Nota de tradutor: neste ponto passamos a seguir de muito perto a explicação formal de Ghislain Deleplace sobre a renda diferencial, exposta em Histoire de la pensée économique, págs 69 a 75, assim como do artigo de Simone Fioritti, Renda Ricardiana, Preços De Produção e Recursos Renováveis Escassos: Uma Visão Sraffiana (aqui)]

 

A propriedade privada de terras dá origem, como em Adam Smith, a uma renda: mas esta “não é uma parte constituinte” do preço das mercadorias. Retomando nesta matéria as ideias de Anderson e de Malthus, Ricardo considera que, de facto, tem uma característica não absoluta, ligada ao monopólio da terra, mas diferencial, ligada esta à fertilidade desigual das terras. Daí que só possa, de facto, existir, para qualquer produto agrícola – por exemplo, uma tonelada de trigo- um único preço natural em torno do qual gravita o preço único que vigora no mercado; este preço é necessariamente fixado pela quantidade de trabalho que é necessária para produzir uma tonelada de trigo obtida na terra menos fértil, porque se o preço fosse inferior, o produtor que utiliza esta terra estaria a perder dinheiro – e consequentemente deixaria de o fazer, de produzir esse trigo. Sobre qualquer outra terra mais fértil, a quantidade de trabalho necessária para a obtenção de uma tonelada de trigo será por definição inferior – e, contudo, o preço obtido pelo trigo obtido nas terras mais férteis será o mesmo. Sobre estas terras mais férteis aparece então uma diferença que é recebida pelo proprietário da terra, e não pelo agricultor.

Verifica-se assim

  1. A taxa de renda varia com a fertilidade da terra
  2. A terra menos fértil a ser utilizada não paga renda.
  3. Que o preço da mercadoria determinada por esta “última” terra não contém renda

O exemplo seguinte permite ilustrar esta teoria da renda diferencial. Sejam três terras, 1, 2 e 3, de fertilidades diferentes, mas produzindo a mesma quantidade de trigo (assinalado com a letra b). Devido às diferenças de fertilidade, a produtividade do trabalho é mais elevada na terra 1 que na terra 2 e nesta fertilidade é maior que na terra 3. Tem-se pois:

lb1 <lb2 < lb3 em que lbi representa a quantidade de trabalho por tonelada de trigo nas terras 1,2 e 3.

Devido à concorrência no mercado do trigo, o valor de troca do trigo vb é único no mercado e este é necessariamente determinado pela dificuldade de produção sobre a terra menos fértil. Consequentemente, vb=lb3. Medida em quantidade de trabalho a renda recebida sobre uma dada terra é igual à diferença entre o preço de venda do trigo e o custo na sua produção nesta mesma terra que se está a considerar. O proprietário da terra 1 recebe, pois, como renda T1= vb-lb1=lb3-lb1 pois vb é igual a lb3; o proprietário da terra 2 recebe como renda T2=vb-lb2=lb3-lb2 e o proprietário da terra 3 não recebe renda pois T3=vb-lb3=lb3-lb3=0. Temos assim T1 >T2 > T3.

Vemos assim que a renda é um efeito e não uma causa do preço do trigo: o preço do trigo não é alto porque os proprietários das terras recebem uma renda elevada (a conceção da renda absoluta) mas o proprietário de uma terra recebe uma renda porque o preço é elevado e tanto mais elevada quanto mais elevado for o preço, e com este a ser tanto mais elevado quanto mais elevada for a dificuldade de produzir, ou o que é equivalente, quanto menos fértil for a última terra ser utilizada. A apropriação das terras geradoras de renda diferencial não tem, pois, nenhum efeito sobre o preço das mercadorias. Diz Ricardo:

“A causa da subida do valor relativo dos produtos de base reside pois na necessidade de utilizar mais trabalho para produzir a última unidade e não na necessidade de pagar uma renda ao proprietário da terra. O valor do trigo é determinado pela quantidade de trabalho utilizada na produção sobre a terra – ou sobre a parte do capital- que não paga renda. Não é pois porque se paga renda que o trigo é caro, pelo contrário, é porque o preço do trigo é caro que se paga renda. Nota-se, e com razão, que o preço do trigo não diminuiria mesmo se se renunciasse à totalidade da sua renda!” [462]

 

A teoria da repartição dos rendimentos

A questão da repartição dos rendimentos é, segundo Ricardo, o objetivo central da economia política: ”determinar as leis que regulam esta repartição constitui o principal problema da economia política”. Esta questão é mesmo muito mais importante que a levantada por Adam Smith quanto às causas do enriquecimento das nações, e é um dos pontos de desacordo entre Ricardo e um outro grande economista clássico, Thomas Malthus. Numa carta que Ricardo enviou a este seu amigo muito próximo, diz:

A Economia Política é, segundo o senhor uma análise sobre a natureza e as causas da riqueza. Eu penso que seria bem melhor chamar-lhe análise sobre a divisão do produto da indústria entre as classes que contribuem para a sua formação. Nenhuma lei poderá ser estabelecida no que diz respeito à quantidade, mas pode-se estabelecer uma suficientemente correta quanto às proporções [desse produto]. Estou cada vez mais convencido que a primeira análise é vã e ilusória e que a segunda constitui o próprio objetivo da ciência [463].

Em termos modernos, isto significa que Ricardo se interessou menos pela determinação do produto global do que pelo problema da sua repartição. É esta a principal crítica que Keynes lhe faz na sua Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda não querendo com isto dizer que Keynes considere a questão da repartição como sendo sem interesse, mas critica Ricardo por ter convencido os outros economistas, contra Malthus, de que a procura global não pode limitar o nível de atividade de um país.

Esta teoria ricardiana da repartição não se resume à demonstração de uma relação inversa entre os salários e os lucros. É sobre a base desta teoria que Ricardo pega no problema smithiano do crescimento da riqueza para chegar à conclusão de que existe uma tendência para o estado estacionário da economia de um país. Opõe-se ao seu amigo Malthus sobre as causas desta tendência e o debate que houve entre eles marca o nascimento da macroeconomia, mais de um século antes do trabalho de Keynes.

 

A relação inversa entre salários e lucros

A repartição dos rendimentos tem por origem a alocação do valor agregado do conjunto das mercadorias produzidas no país. Mas só uma parte deste valor – o rendimento nacional – é suscetível de ser repartido entre as três classes constitutivas da sociedade.

Ricardo atribui à economia política a tarefa de determinar as leis que regulam a distribuição do valor total — o valor agregado — de todos os bens produzidos pelo trabalho humano numa determinada nação, por um determinado período de tempo (= rendimento nacional). No entanto, apenas uma parte deste valor é suscetível de ser distribuída entre as três classes sociais que compõem a sociedade. Além disso, se se produz na economia nacional n bens referidos como bens 1,2,…i…n, nas quantidades X1,X2. …Xi…Xn e aos valores de troca v1,v2,…vi…vn, o valor agregado da produção bruta é então:

(1) 

Em que Vi é expresso por:

 (2)  

 

ou seja, Vi é expresso pela soma de trabalho direto, trabalho vivo,  e de trabalho indireto ou dito também trabalho morto,  , relação esta válida para todas as mercadorias de 1…i…n.

Partindo desta decomposição do valor de cada mercadoria, o valor agregado bruto de produção pode ser expresso por:

(3)   

(4) 

 

A componente L0 representa a quantidade total de trabalho vivo, trabalho direto, que foi utilizado na economia no período considerado e representa em termos de trabalho o valor criado na economia e no período considerado. Por seu lado, a equação abaixo (5) representa a quantidade em horas de trabalho materializado nos meios de produção, ou seja, representa o capital constante gasto no processo produtivo, ou ainda como diz Deleplace.: C representa o valor transmitido pelo trabalho passado. Este valor C (amortização do capital) deve ser reconstituído para permitir que o processo produtivo se possa reproduzir e não pode, pois, ser distribuído sob forma de rendimentos.

(5)  

Daqui obtemos Produção bruta menos capital constante, ou seja:

V= Y+C

V – C =

V-C é, pois, o valor adicional criado no período, a produção líquida, igual, portanto, à quantidade total de trabalho que a sociedade utilizou para obter a produção líquida expressa por V-C. De acordo com Adam Smith e Ricardo a parte esquerda desta igualdade representa o valor que se pode repartir entre salários., lucros, ou seja:

V-C=Y =W+P, no quadro de um sistema com duas classes, capitalistas e trabalhadores, a terem direito à repartição do rendimento criado. O rendimento líquido é assim, com o preço das mercadorias no mercado a ser expresso em horas de trabalho, a ser igual à quantidade de trabalho utilizada para a sua obtenção. Considera-se, pois, que os preços no mercado correspondem pois à quantidade de trabalho contido em cada uma delas, daí a afirmação de Ricardo que o rendimento de um país é expresso pela quantidade de trabalho direto utilizado na sua produção.

A rendimento dado Y teremos então Y-W= P e P será tanto menor quanto maior for o nível de salários. Esta é a visão de Ricardo num sistema com duas classes a terem direito à repartição.

Adam Smith distinguia três classes que recebiam os rendimentos gerados na economia: os trabalhadores, os capitalistas e os proprietários agrícolas. Ricardo retoma esta divisão da sociedade em classes e o rendimento nacional a valores de mercado divide-se em salários, (W), lucros ( ) e rendas T.

Ym= W+Π+T

Deve-se lembrar que o valor de uma determinada mercadoria é determinado nas condições de produção mais desfavoráveis. Consequentemente Vi = Li que é a maior das quantidades de trabalho direto e indireto necessárias para a produção de uma unidade de uma unidade de trigo, por exemplo.

Retomemos o exemplo da produção de trigo nas três terras 1,2,3 de fertilidade decrescente: tem-se assim Vb = Lb=Lb3>Lb2>Lb1 e a renda por unidade produzida é respetivamente igual a Vb-Lb1, Vb-Lb2 e V3-Vb3=0.

E Xb1, Xb2 e Xb3 são as produções das respetivas terras 1,2,3, a renda total do trigo T é dada por: 

Tb= (Vb-Lb1)Xb1+ (Vb-Lb2)Xb2+ (Vb-Lb3)Xb3 e é igual a:

VbXb- (Lb1Xb1+Lb2Xb2+Lb3Xb3) sendo Xb a produção total de trigo, ou seja:

Xb=Xb1+Xb2+Xb3

Na quantidade de trabalho necessária para a produção de uma tonelada de trigo na terra 1, podemos distinguir entre trabalho direto L0b1 e trabalho indireto:

(L-1b + L-2b + …+L-tb )  que designamos porCb1.

Na expressão de Tb o membro entre parêntesis escreve-se como sendo a soma de duas componentes:

  1. (Lob1Xb1+Lob2Xb2+Lob3Xb3) que é a quantidade total de trabalho direto utilizado no ramo trigo e que designamos por L0b.
  2. c1Xb1+c2Xb2+c3Xb= Cb que é a quantidade total de trabalho indireto no ramo trigo e que designamos por Cb.

Daqui se segue que sendo Ym o rendimento calculado a valores de mercado, então Tb= Vb Xb – L0b- Cb.

Estendendo o raciocínio ao conjunto dos ramos, conclui-se que a renda global é igual a:

Onde o produto bruto é dado em fórmula por

, que designaremos por PB  

O capital gasto e reposto para a produção do período seguinte é dado por

Que designaremos agora Cc uma vez que nos estamos a referirmo à economia como um todo.

O trabalho direto total gasto no sistema produtivo no período e que designaremos por L0, é em fórmula expresso por:

O produto líquido em valores de mercado é, então, expresso por

Ym=  –   (valor total menos o valor do capital consumido)

A expressão do total de rendas acima é reproduzida agora por

E por substituição das expressões anteriores nesta expressão, o montante de rendas, que designaremos por T, é dado por

T=Ym – L0.

Ou

L0 = Ym-T, ou seja, o valor do rendimento calculado a valores de mercado menos a renda (T) dos proprietários das terras dá a parcela que é repartida entre capitalistas e trabalhadores e esta parcela do rendimento é sempre igual à quantidade de trabalho direto utilizado na economia, assinalado L0. 

Na expressão L0 = Ym-T temos:

L0+T=Ym, ou seja, o rendimento é igual à quantidade total de trabalho utilizado para o produzir mais o montante das rendas. Aqui sublinhemos apenas que na presença de rendas L0 < Ym com Ym medido em horas de trabalho. Na presença de rendas, rompe-se assim, em valores de mercado, a igualdade entre rendimento e quantidade total de trabalho direto utilizado na sua produção rendimento. 

De acordo com os clássicos substituindo Ym pela sua expressão em termos de rendimentos distribuídos temos

Ym = W+ Π+T que substituindo na expressão de T nos dá:

T= W+ Π+T- Lo

Ou ainda:

W+ Π= Lo

Ou

Ym-T=Lo= W+ Π

O significado de Lo= W+ Π é o seguinte:

Depois de deduzido o total de rendas, o rendimento nacional é dividido em salários e lucros num montante que em horas de trabalho é igual à quantidade de trabalho vivo direta empregada na economia. Sendo esta quantidade um dado, o valor global a dividir em salários e lucros é como um bolo de uma dada dimensão cujas partes quotas variam de forma inversamente proporcional. A principal conclusão da teoria ricardiana da distribuição é, então, a existência de uma relação inversa entre salários e lucros. Esta relação é a expressão analítica das duas características essenciais da representação ricardiana da sociedade:

  • Os capitalistas e os trabalhadores assalariados são as duas classes fundamentais (os latifundiários estão numa posição derivada);
  • Os seus interesses são opostos.

Sublinhe-se ainda que os valores das mercadorias que compõem Ym são os valores a que são vendidas no mercado e expressos em horas de trabalho, daí que o índice m significa isso mesmo, rendimento calculado a valores de mercado.

 

(continua)

 


Notas

[462] Ricardo, D., 1992 [1821], Des Principes de l’économie politique et de l’impôt. Paris, Flammarion, p. 96

[463] 9 outubro de 1820 em Works,vol. VIII , pag. 278,279.

 


O autor: Mathieu-Joffre Lainé, doutorado em Filosofia pela Unniversité de Laval (Canadá), é agente de investigação e planificação sócio-económica no Secretariado dos Assuntos Autóctones do governo do Canadá.

 

Deixe um comentário