FALEMOS DE ECONOMIA, FALEMOS ENTÃO DE POLÍTICA – QUANDO A INCOMPETÊNCIA OU A MALDADE SÃO CONSIDERADAS QUALIDADES E, COMO TAL, PREMIADAS, por JÚLIO MARQUES MOTA

Quando a incompetência ou a maldade são consideradas qualidades e como tal, premiadas – IIª Parte – B

Ainda a propósito das recentes promoções de Vítor Gaspar, Álvaro Santos Pereira e José Luís Arnaut

(continuação)

Da suposta ditadura da dívida à verdadeira ditadura da ignorância e da ganância

Seja B a posição da dívida pública expressa em termos reais, com B(t+1) a ser o valor da dívida no momento t+1, B(t) o valor da dívida no momento t. A dívida em termos reais para o período (t+1) pode então ser expressa por:

(1)  B(t+1)=(1+ir)B(t)–EO(t+1)

em que ir é a taxa de refinanciamento da dívida pública em termos reais, admitindo-se i constante para não sobrecarregar o texto, EO(t+1) é a posição do orçamento primário no momento (t+1), expresso por receitas menos despesas. Consequentemente a dívida em (t+1) é expressa pela dívida transposta do momento t para o momento (t+1) acrescido dos juros dessa mesma dívida, ou seja, acrescida de irB(t), que representa aqui a carga da dívida em termos reais.

Se considerarmos a taxa de inflação como π, então a taxa de refinanciamento em termos reais é dada por:

gregos XVI

ou ainda

 gregos XVII

Procuremos agora utilizar estas relações nos rácios em termos do PIB nominal e real que nos são importantes para estudar a dinâmica da dívida. Seja Yn(t) o PIB nominal no momento t. A taxa de variação do rendimento em termos nominais entre dois momentos do tempo é então expressa por:

gregos XIX

Dada a taxa de inflação π, então o rendimento nominal é, por definição,

gregos - XXI

onde Yr(t) representa o rendimento em termos reais no período t.

Mas:

(6)  Yr(t)=Yr(t-1)(1+gr)

onde gr é a taxa de crescimento em termos reais.

O rendimento em termos nominais do período t pode então ser expresso por:

(7)  Yn(t)=Yn(t-1)(1+gn)

ou ainda:

(8)  Yn(t)=Yn(t-1)(1+gn)=Yr(t-1)(1+π)(1+gr)

Das equações 4 à 8, obtemos

(9)  Yn(t)=Yr(t-1)(1+gn)=Yr(t-1)(1+gr)(1+π)

Eliminando o que é comum aos dois lados da igualdade ficamos com:

(10)  (1+gn)=(1+gr)(1+π)

gregos - XXII

gregos - XXIII

Dadas as relações anteriores (3) e (10), por substituição obtemos:

gregos - XXIV

Subtraindo 1 a cada um dos lados desta identidade, então:

gregos - XXV

Estamos pois em condições de estabelecer as relações fundamentais na dinâmica da dívida e como já antes se disse, iremos fazê-lo em termos reais.

B(t+1) é o valor da dívida no momento (t+1). Neste caso, o rácio da dívida por unidade PIB, gregos - XXVI, vem então expresso por:

gregos - XXVII

Mas sabemos que:

gregos - XXVIII

e substituindo teremos pois:

gregos - XXIX

gregos XXX

gregos XXXI

Desta relação torna-se claro que o rácio da dívida relativamente ao PIB cresce com o crescimento da taxa de refinanciamento da dívida pública (que está no numerador), decresce com o crescimento da taxa de crescimento económico (que está no denominador).

Ora, no caso dos países em dificuldade, o aumento da taxa de refinanciamento faz, portanto, subir a dívida relativamente ao PIB, ou seja, o sucedido após o eclodir da crise, acontecendo o mesmo fenómeno com o crescimento da economia que ao decrescer tem o mesmo efeito, isto é, faz disparar o rácio da dívida relativamente ao PIB, uma vez que a dívida dada e com o denominador a descer, o PIB, o seu rácio necessariamente sobe . Com as políticas de austeridade, a taxa de crescimento do PIB tem diminuído, atingido inclusive valores negativos, e o impacto é imediato, também esta baixa do crescimento económico faz disparar o rácio da dívida. Diríamos assim que os dois mecanismos de base para se sair da crise ficaram bloqueados pela própria Troika.

Há aqui um terceiro elemento ou instrumento que que permite baixar o nível da dívida gregos XXXII  por unidade PIB, mas como, então?

Colocando o país em saldo para satisfazer a ganância dos mercados e daí, portanto, a política de privatizações imposta a todo o custo, vendendo as jóias da coroa, e isto passa-se tanto aqui como em Espanha, como na Itália, como na Grécia, como até na Inglaterra. Com alguma ironia, é a Europa a oferecer-se aos países emergentes e sobretudo a quem abunda em reservas, é então a Europa a propor-se como uma futura colónia chinesa e numa bandeja de ouro. Por outras palavras, vender o património do país e com as receitas amortizar parte da dívida e assim reduzir o parâmetro b, o peso da dívida. Tomando como exemplo a Grécia, o jornal Mediapart informava, a 8 de Janeiro de 2014: “Foi o objectivo de 2010: deve-se privatizar tudo e a todo o custo para fazer baixar o endividamento da Grécia. Agora que Atenas assume a Presidência da UE, a avaliação é sem apelo nem agravo. A política de privatizações não teve nenhum efeito sobre a redução da dívida que excede actualmente 300 mil milhões de euros”. A razão é simples: as políticas de austeridade com os seus efeitos fortemente recessivos fizeram disparar os défices, aumentaram a dívida e mais do que as receitas obtidas pelo saque feito ao país. Mas a Grécia é a Grécia, dir-me-ão depreciativamente. Pois bem tomemos então a Irlanda como exemplo, um país de sucessivo, de acordo com a central e intoxicação de informação que é Bruxelas. Um gráfico, três números, e a verdade nua e crua quanto à mentira que diariamente Bruxelas produz, torna-se evidente:

“Ao contrário da fábula da recuperação brilhante da Irlanda, a economia irlandesa está longe de ter recuperado: o PIB é ainda hoje inferior em 12,6% ao que era antes da crise. A taxa de desemprego, actualmente em 13%, é ainda duas vezes maior do que era antes da crise. Entre os jovens, 27% estão desempregados. O sector bancário ainda não cumpriu a sua tarefa principal: metade dos pedidos de concessão de crédito feitos pelas PME no último trimestre foram rejeitadas pelos bancos. A dívida nacional, que tinha explodido de 25 para 91% do PIB entre 2007 e 2010 como resultado do resgate à banca, aumentou ainda mais sob o controle da Troika e atingiu cerca de 124% em 2013, de acordo com as previsões atuais.” Esclarecedores, estes dados.

Gráfico I) Evolução da Divida Pública desde Maastricht (em % do PIB)

bazucab - I(continua)

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Para ler a parte II – A deste trabalho de Júlio Marques Mota, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, vá a:

FALEMOS DE ECONOMIA, FALEMOS ENTÃO DE POLÍTICA – QUANDO A INCOMPETÊNCIA OU A MALDADE SÃO CONSIDERADAS QUALIDADES E, COMO TAL, PREMIADAS, por JÚLIO MARQUES MOTA

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