Selecção, tradução e nota anexa por Júlio Marques Mota
Diminuição do desemprego no sul da Europa: o que nos mostram os números sobre a fragilidade das economias em questão.
Um texto de Philippe Murer
Desde a baixa da taxa de desemprego na zona Euro, em Julho, as diferenças entre os países estão a aumentar .
Miragem
Publicado a 4 de Outubro de 2013
O número de pessoas sem emprego aumentou em Espanha. Credit Mottez.com
A taxa de desemprego estaria em baixa no segundo trimestre em Espanha. Na Itália, esta taxa tem-se mantido estável, desde há 4 meses. Em França, o crescimento do desemprego continuou até Agosto e somente os dados de Setembro são positivos. A escala do continente, o mês de Julho ainda tinha visto a taxa de desemprego a cair para 12%. Sinais de recuperação, pretende-se que assim seja, e é exactamente isto que se ouve dizer. Contudo, a Espanha e a Itália viram o seu PIB a reduzir-se desde o início do ano em mais de 1% em variação anual.
A Espanha
De facto, as estatísticas do Eurostat sobre o número de empregos perdidos para a Espanha no primeiro e segundo trimestre são cruéis. [1] Há 160.000 postos de trabalho destruídos no T1 e cerca de 90000 no T2, ou seja cerca de 250000 empregos destruídos nos primeiros 6 meses do ano. O número de pessoas desempregadas aumentou em Espanha.
Porquê então estas estatísticas bizarras?
O saldo migratório espanhol é agora positivo de 50.000 pessoas por ano. A partida fortemente divulgada pelos meios de comunicação social da juventude espanhola a caminho de outros céus não pode ser a causa da queda do desemprego. Com o aumento do limite de partida para a reforma e com o aumento natural da população em idade de trabalho de 80.000 pessoas por ano, não se pode explicar a queda no desemprego por esse tipo de enviesamento.
Em contraste, os desempregados em fins de direitos, chamados os desencorajados, correm o risco de não voltarem a fazer as tentativas impostas para permanecerem inscritos no quadro das estatísticas de “desempregado”, sem ter o direito a nenhum auxílio estatal. A perda de 250 mil postos de trabalho teria feito aumentar a taxa de desemprego na Espanha de 26,4% para 27,5% e o número de desempregados , no mínimo, 250 mil para assim se atingir um recorde de 6,1 milhões de desempregados.
Mas aconteceu exactamente o contrário: a taxa de desemprego caiu de 26,4% para 26,3 % nos primeiros seis meses do ano. Três anos após o início da crise no sul da Europa , estamos então a entrar numa miragem estatística : a taxa oficial de desemprego pode cair em alguns países, enquanto que paralelamente o número de pessoas que trabalham está ele também a descer!
Há também uma certa lógica para esta última constatação: como pensar que podemos fazer descer o desemprego com uma recessão de (-1,2%) enquanto o crescimento deveria ser anualmente de (+ 1,2%) pelo menos em Espanha para que o desemprego se reduza!
A Itália
O desemprego subiu ligeiramente na Itália desde o início do ano: um aumento da taxa de desemprego de 11,9% para 12,1% nos primeiros 6 meses. Na verdade, a economia italiana também destruiu empregos no primeiro semestre: cerca de 330.000 postos de trabalho de acordo com o Eurostat. A sua taxa de desemprego, portanto, teria de subir potencialmente de 12% para 13,1%. Aqui novamente, nós estamos perante uma miragem das estatísticas, uma miragem total. O aumento do desemprego é 5 vezes menor do que o esperado.
Uma longa crise pode criar este tipo de miragem na taxa de desemprego, pois esta nunca é mais do que uma taxa oficial e não uma realidade objectiva, absoluta.
A França
Até agora, a taxa de desemprego evoluiu de forma totalmente coerente com as destruições de empregos em França desde o início do ano.
A baixa do desemprego na Europa do Sul: o que a análise dos números nos diz sobre a fragilidade do fenómeno
Desde a baixa da taxa de desemprego na zona do euro em Julho, as diferenças entre os países aumentaram.
Haverá, na verdade, uma inversão real do número dos desempregados no final de 2013?
Vimos um fenómeno recente de forte aumento do número de desempregados removidos das listas de empregos ao longo do mês de agosto (+77.500 desempregados retirados dos cálculos da média usual).
Essas remoções provenientes de uma falha na actualização dos desempregados no site do Pólo Emprego: isto pode ser devido a um retorno ao mercado de trabalho não assinalado, por um esquecimento de actualização ou por uma ausência de vontade de atualizar a sua situação (um desempregado não tendo mais nenhuma compensação tem pouco interesse em tomar as medidas necessárias para permanecer na lista do Instituto de Emprego ). Essas remoções podem corresponder a uma melhoria efectiva da situação em matéria de emprego ou ter uma razão, uma causa, puramente administrativa, difícil de o saber hoje. Confrontados com as interrogações dos jornalistas sobre este crescendo nas remoções, o Ministro do Trabalho tem apoiado na hipótese de que esta melhoria é, em parte administrativa uma vez que metade da queda do desemprego é devido a um bug no sistema informático (sic!)
Para além das vicissitudes da comunicação sobre este assunto e dos artefactos estatísticos, o Governo francês saúda a “recuperação” e parece pensar que esta deve reduzir a taxa de desemprego. Deve, no entanto, ser necessário uma taxa de mais de 1,5% de crescimento do PIB para o desemprego deixe de aumentar.
Mas em 2014 e 2015, é muito provável que a França terá o crescimento inferior a 1,5%. O número de desempregados deverá pois aumentar de novo e de novo: o número real de desempregados estender-se-á, não o número dos desempregados contabilizados nas estatísticas de Pole Emprego.
Um crescimento de 2,5% ano a ano permitiria , no entanto, dar emprego a 300 mil desempregados. Uma taxa de crescimento inacessível com a política económica em vigor em França e na Europa, infelizmente.
Philippe Murer, Membre du bureau du Forum Démocratique, Président de l’association Manifeste pour un Débat sur le libre échange.
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Anexo do Tradutor:
A taxa de crescimento da produtividade, grosso modo é a taxa de crescimento do produto per capita e esta é dada por Δ( ) / ( ), onde Δ(Y/L) representa o acréscimo da produtividade por trabalhador e Y/L é a produtividade por trabalhador. Por definição, este ratio expressa a taxa de variação da produtividade é então dado por = . Uma vez que (dY/Y) representa a taxa de crescimento do PIB e (dL/L) representa a taxa de crescimento da população empregada. Se chamarmos à taxa de crescimento da produtividade, à taxa de crescimento do PIB, (dY/Y), a letra g e à taxa de crescimento de mão-de-obra empregue, dL/L), a letra n, vem então µp = g- n. Se a taxa de crescimento da produtividade pode ainda ser “explicada” pela melhoria reorganizativa da sociedade a nível de investimento dado e pela melhoria introduzida pelos novos investimentos com incidência portanto sobre a evolução da produtividade, teremos assim que esta é expressa então por µp = π +β α, onde α expressa o acréscimo de investimento por unidade PIB. Imaginemos que este valor é nulo, dada a recessão e as políticas de austeridade. Isto não impede que a taxa de crescimento seja dada então por π e que é habitual que esta seja dada a por um ponto e meio percentual ao ano, imputável a investimento dado às melhorias reorganizativas, à subida do nível de formação e educação, ao aumento da intensidade de trabalho, com tudo o resto constante, à reorganização dos processos produtivos, às melhorias nos circuitos de distribuição, etc. Sendo então a taxa de variação da produtividade dada por π, coloquemo-lo na igualdade anterior onde a taxa de crescimento da produtividade era dada pela diferença entre a taxa de crescimento do PIB, g, e a taxa de crescimento da população empregue, n. Teremos assim π = g – n ou ainda n=g- π. Como π é igual a 1,5 % , a taxa de crescimento da população empregue só será positiva se e só se a taxa de crescimento for superior a 1,5% como nos fala o texto para o caso francês e de 1,2% para o caso de espanhol. Dito de uma outra forma, em França só haverá crescimento de emprego se a taxa de crescimento for superior a 1, 5 % mas não o é. Em Espanha, a taxa de variação do PIB é mesmo negativa, o que leva obrigatoriamente a que n seja negativo e nunca positivo, como o afirmam as autoridades.
No modelo acima podemos pois ter aumento do PIB e diminuição do volume de emprego utilizado. Mas o desenvolvimento de tudo isto levar-nos-ia a sair do modelo neoliberal. Mas uma questão simples aqui: com tudo o resto constante, com a procura efectiva constante, teríamos neste caso uma falsa retoma ao supormos o crescimento positivo, teríamos um aumento de existências que a não ser escoado levaria a seguir a uma redução do PIB e ao aumento do calvário a que os povos europeus estão a ser submetidos, com as políticas de austeridade. Foi o que aconteceu num Verão recente em que os jornais anunciaram em parangonas acréscimos de produção, a Recessão acabou, diziam. Foi preciso Martin Wolf chamar a atenção para a mentira pegada das Instituições, pois tratava-se de um aumento das existências ou da reposição dessas mesmas existências. Bem vindo pois ao mundo hilariante da mentira produzida pela central europeia de intoxicação: Bruxelas, com os seus pólos regionais situados nos Conselhos de ministros dos seus Estados membros.
Júlio Marques Mota
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