Parece que hoje é Dia da Saúde Mental. Como a nossa anda por baixo… Mas, vou aqui falar do que aconteceu nos dias 3 e 4 de Outubro, no International Forum on Innovation in Mental Health, uma iniciativa da Plataforma Gulbenkian para a Saúde Mental Global, com a colaboração da Organização Mundial de Saúde (OMS). As ligações entre os distúrbios mentais e outras doenças crónicas, as inovações nos cuidados de saúde mental e os determinantes sociais da saúde mental foram os temas que estiveram em cima da mesa.
Para além de Vikram Patel (India), Sashi Sashidharan (Reino Unido) e Sir Michael Marmot (Reino Unido), que proferiram as três conferências principais do Fórum, estiveram presentes especialistas e técnicos de todo o mundo, incluindo Shekhar Saxena, que dirige o Departamento de Saúde Mental e Abuso de Estupefacientes da OMS e que faz parte do Conselho Consultivo da Plataforma, tal como Arthur Kleinman, conhecido médico e antropólogo norte-americano. O que se verifica é que as questões relacionadas com a saúde mental continuam a ser largamente ignoradas pela comunidade internacional, apesar de contribuírem substancialmente para a saúde e o desenvolvimento das populações. Daí a necessidade de se discutirem estes assuntos, neste Fórum, cujo propósito é precisamente pôr a saúde mental na agenda de saúde global.
A Plataforma é uma iniciativa da Fundação Gulbenkian que reúne especialistas em Saúde Mental de vários países e que tem como parceiros fundamentais a Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa e a Organização Mundial de Saúde. Benedetto Saraceno é o coordenador científico da Plataforma Gulbenkian para a Saúde Mental Global.
Foram abordadas :
– As conexões principais entre a saúde física e a saúde mental e as implicações na integração dos cuidados em saúde mental na saúde em geral;
– a urgência de uma mudança radical nas formas como as perturbações mentais transtornos são geridos, indo da hospitalização a longo prazo para a Comunidade, tendo por base os cuidados de saúde mental;
– os determinantes sociais que podem ser modificados tendo em vista promover a saúde mental e prevenir transtornos mentais.
As intervenções e exemplos do que se passa em todo o mundo, deixaram-me algumas ideias e interrogações :
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inovação na tecnologia ou na metodologia?
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importância da relação e do cara a cara;
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como actuar quando não há técnicos(por ex, em Moçambique só há psiquiatras)?
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a evidente comorbidade dentre perturbações mentais e doenças crónicas- diabetes, tensão alta, asma, artrite…;
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a evidência de uma infância cheia de traumatismos nestes doentes e correspondente necessidade de investir preventivamente em intervenções nas crianças;
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necessidade de convencer os poderes públicos de que os serviços primários são a primeira porta de intervenção e replanificar os sistemas de saúde;
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como traduzir os resultados das investigações em aplicações práticas?;
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porque se continuam a formar pessoas de uma forma que já se provou ser ineficaz?
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as mudanças não têm vindo da classe médica;
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precisamos de não partir de diagnósticos mas das competências;
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o que é que os países desenvolvidos podem aprender com os menos desenvolvidos?;
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as mudanças devem ser sobretudo nas atitudes;
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para intervir nas perturbações mentais há necessidade de intervir antes, com programas que abranjam toda a população;
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se houver intervenção nos determinantes sociais (já bem conhecidos) podemos evitar as perturbações mentais.
Depois disto tudo, não sei se fique mais satisfeita, se mais frustrada… Opto pelo optimismo, depois de ouvir experiências realizadas em países com pouquíssimas condições mas insistem em tentar resolver os problemas com o que têm, com quem têm e com a ajuda de quem a quiser dar. Disse um dos interventores: “Nós temos uma nova perturbação emocional: somos obsessivos do optimismo”!
Mais informações, assim como muitos textos relacionados, que podem ser descarregados em PDF em: www.gulbenkianmhplatform.com
