COMO É QUE OS COMPORTAMENTOS ADQUIRIDOS NA ADOLESCÊNCIA SE VÃO REFLECTIR NA VIDA ADULTA? Por clara castilho
clara castilho
O projecto EPITeen ((Epidemiological Health Investigation of Teenagers in Porto) desenvolveu-se a partir de uma “coorte” de 1990 e tem como objectivo principal compreender de que forma os hábitos e comportamentos adquiridos na adolescência se vão reflectir na saúde do adulto. Iniciado no ano lectivo de 2003/2004, participaram neste estudo 2943 adolescentes nascidos em 1990 que frequentavam as escolas públicas e privadas da cidade do Porto e os participantes serão acompanhados ao longo da vida e estão actualmente a ser avaliados pela terceira vez.
Uma equipa multidisciplinar de profissionais (equipa de investigação do ISCSP, com sociólogos e outros cientistas sociais com especialidades em diferentes áreas – trabalho, educação, família, género, classes sociais, saúde, qualidade de vida, capital social e redes sociais – a uma equipa de investigação do ISPUP, Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto) recolhe informações através de questionários e efectua medições objectivas, tais como, a pressão arterial, o peso e a estatura, a densidade mineral óssea e a função respiratória, sendo também realizadas análises sanguíneas.
O projecto EPITeen é o primeiro deste tipo alguma vez organizado em Portugal. A análise dos dados colhidos irá permitir responder a numerosas questões científicas e fornecerá informações essenciais ao planeamento de medidas preventivas adaptadas à nossa população.
E porquê um estudo longitudinal? Estes constituem um método mais robusto para analisar práticas, atitudes sociais e individuais, mudança e mobilidade social. Ao contrário dos inquéritos de aplicação única estes apresentam grandes vantagens:
1) deixa de haver problemas de comparação das amostras, problemas que surgem habitualmente em inquéritos que se replicam mas não à mesma população;
2) são avaliados os efeitos de trajectória, porque se acompanha o mesmo indivíduo ao longo da vida, sendo possível detectar mudanças de percurso;
3) tornam-se os instrumentos por excelência de “medida” da mobilidade social sobretudo quando, como é o caso, permitem a comparação entre gerações.
São três os objectivos fundamentais do projecto:
– avaliar de que forma as condições sociais de origem marcam as trajectórias e as diferentes oportunidades dos jovens, definindo-lhes destinos diferentes. Pretendemos saber como se reproduzem as vantagens ou desvantagens da origem social, analisar efeitos inter-geracionais e verificar qual o peso relativo de factores como escolaridade, género, profissão, capital social ou factores subjectivos e motivacionais nesses percursos de vida. Esta avaliação associa de forma estreita as trajectórias sociais com saúde, estilos e qualidade de vida.
– avaliar os factores que contribuem para que se contrarie o destino, para que se escape a trajectórias modais, isto é, para estudar de forma sistemática os trajectos de mobilidade social ascendente, procurar as causas que os explicam, associando-os também à dimensão da saúde.
– avaliar os efeitos da crise económica e financeira dos últimos anos nas trajectórias sociais e individuais e como esta nelas eventualmente interfere introduzindo mudança de percursos, de realidades e de expectativas.
Foram ainda definidas, de uma forma mais específica, quatro linhas de investigação a explorar.:
– análise das relações entre educação, trabalho, mobilidade e desigualdade social. Sabemos que Portugal tem taxas de abandono escolar precoce ainda elevadas, mas que, por outro lado há notórios efeitos de mobilidade ascendente entre pais e filhos quanto aos níveis de instrução, dados também os baixíssimos níveis de escolaridade dos pais. Que efeitos têm essa mobilidade na empregabilidade dos jovens? O que pesa mais: origem social ou escolaridade atingida?
– avaliar os efeitos de género, percursos biográficos e constituição de família. Sabemos que as mulheres jovens têm melhores desempenhos escolares, em média, do que os jovens rapazes e procurar explicar essas diferenças será decerto relevante. Mas interessa também avaliar que efeitos têm esse sucesso diferenciado na inserção no mercado de trabalho e na constituição de família?
– correlacionar saúde, bem-estar subjectivo, qualidade de vida e seus determinantes sociais que constitui outra das linhas centrais a desenvolver procurando relacionar certas patologias específicas com antecedentes sociais e familiares. – investigar e explorar os assuntos relacionados com o capital social, a cidadania e As redes sociais, procurando saber como são mobilizados pelos jovens os recursos e redes de relações disponíveis, avaliando também capacidades de intervenção na esfera pública e efeitos da crise.