CONTOS & CRÓNICAS – O Carnaval que vamos tendo nos dias de hoje – Por José Magalhães
José Fernando Magalhães
Na semana que agora termina, com tolerância de ponto ou sem ela, lá se cumpriu mais uma época carnavalesca.
Pelo menos cumpriu-se a época oficial do Carnaval, já que na realidade vivemos nele o ano inteiro. E se nesta altura ele é protagonizado por foliões que a todo o custo nos querem aparvalhar, divertindo-nos e fazendo-nos esquecer as agruras da vida, no restante do ano ele é protagonizado por foliões que a todo o custo nos querem chamar de imbecis, e nos querem fazer esquecer a realidade de continuadamente sermos governados por quem tem como único objectivo, o seu próprio bem estar e o dos grupos a que pertencem.
Enfim, mas deixemo-nos de tristezas que esta vida são dois dias, e um já passou . Falemos então destes dias que há pouco terminaram.
Mais um ano, mais um Carnaval que na maior parte do país, é estrangeiro, sendo que neste ano, e por causa da crise e das crises, a contenção de despesas tenha obrigado a que sejam muito menos os artistas, do outro lado do Atlântico, convidados a “abrilhantar” as festas.
Continuam no entanto por aí uns senhores, e uma parte significativa da população, a fazer corsos, à moda do Brasil, com as miúdas nuínhas e tudo, a desfilarem debaixo de chuva com um sorriso meio forçado, cheias de frio, coitadinhas, e a tentarem dançar samba, despidas com as roupas do Carnaval do Rio.
Até quando?
CARNAVAL “PORTUGUÊS” (?) 2014
Por muito bonito que seja, por muito alegre que seja ou pareça ser, não é nosso, não é da nossa tradição, não está bem.
Felizmente, ainda há por aí umas terras onde se faz o dito à nossa moda, com sátira política e social, e com as nossas tradições a imporem a sua valia. São todavia uma pequena gota no charco da nossa vida.
Mais um ano, mais um Carnaval importado, apesar de cada um lhe chamar “à moda da sua terra”.
Tenho saudade dos tempos em que o Carnaval não era, como agora, só para as crianças e para os basbaques verem o corso passar, tendo como pano de fundo o lucro que a respectiva organização terá de ter. Saudades do Carnaval, que ao contrário dos dias de hoje, era muito mais que um brinquedo, igual a tantos outros com que as nossas crianças brincam (?), e que tudo fazem sozinhos. Do Carnaval que não era quase só o estar sentado a olhar para a televisão que passa o Corso de Brasil.
Nessa altura, as pessoas, muitas, mesmo muitas, viviam a festa destes dias, e preparavam-se com antecedência para esses três dias de folia.
Brincavam ao Carnaval, organizavam grupos e mascaravam-se tematicamente. Lembro-me de num ano me ter mascarado de “Homem Invisível” e de no meu grupo haver mais alguns mascarados de heróis da banda desenhada da altura como o “Fantasma”, o “Zorro”, “Conde Drácula” ou o “Mandrake”, e de noutro ano o nosso grupo se ter mascarado de “ambulância e urgência de hospital” com médicos, enfermeiras, e dois doentes, um numa padiola com soro e tudo e outro com muletas e cheio de ligaduras, levando à frente a sirene a sinalizar a nossa marcha e chegada à festa.
Nessa altura, havia, espalhadas pela cidade, inúmeras festas particulares e muitas festas públicas, todas com a obrigatoriedade do uso de máscaras, onde nos divertíamos noite fora. E para os não convidados (muitos de nós não queríamos convites para nada), havia sempre a hipótese de um assalto organizado. Imensos grupos de gente mascarada assaltavam festas e, imagine-se, eram sempre muito bem recebidos. Sim, havia “assaltos de Carnaval” nas noites de sábado e segunda-feira. Quase se poderia dizer que festa que não fosse “assaltada”, não era festa. Coisa impensável nos dias de hoje, por falta da capacidade da nossa juventude se saber divertir, e mais importante, por causa da insegurança que graça por aí.
E tantas outras coisas que se faziam por esse Portugal fora, próprias do nosso Carnaval, e que hoje quase só existem em poucos lugares, meio esquecidos.
Mas também havia corso, mas à nossa moda, à moda Portuguesa, sem samba ou meninas despidas e cheias de frio. Nós fazíamos a festa. Inventávamos alegria. Gente de todas as idades brincava nestes três dias. Tinha de ser assim também, porque não tínhamos, como nos dias de agora, um ano inteiro de Carnaval, protagonizado pelos nossos dirigentes que dia-a-dia nos (des)governam, o que convenhamos, cansa qualquer um!