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PRAÇA DA REVOLTA – A hora de agir – 2 – por Carlos Loures

Eugène Delacroix - La Liberté guidant le peuple 

Nir Baram, jovem escritor israelita, nasceu em 2 de Junho de 1976 em Jerusalém. Estudou Literatura na Universidade de Telavive. No Verão de 2006, foi um dos líderes do movimento de jovens poetas e autores que exigiram um imediato cessar-fogo na guerra do Líbano. Em 2010 proferiu um controverso discurso de abertura do II Festival Internacional de Escritores, que teve lugar em Jerusalém. Publicou até agora três romances, The Remaker of Dreams (2006) e Good People, (2010). Boas Pessoas (Good people) foi já traduzido para dez idiomas (incluindo o português). Autor premiado, o seu mais recente romance, World Shadow, publicado em Agosto de 2013, foi um best seller, provocando numerosos comentários, críticas e recensões vindas do mundo da literatura e também de outros quadrantes. Colunista do Haaretz e colaborador de outros jornais, é conhecido pelas suas opiniões políticas, geralmente polémicas e desenquadradas relativamente à linha oficial.

Num recente artigo publicado no jornal Haaretz, Nir Baram opina que chegou o momento de agir, de passar das palavras aos actos. Pensa que os israelitas padecem de um sentimento de superioridade moral que se transformou numa doença – matar crianças, reconhecem ser terrível, mas a desculpa é que não têm alternativa – mesmo matando milhares de palestinianos e sofrendo baixas insignificantes, os judeus consideram-se vítimas. No entanto, nos semblantes há um ar apreensivo – o escritor diz nunca ter visto tantos israelitas com ar abatido. Cada vez mais Israel se assemelha a um grande gueto, defendido por muros e por esse sentimento de superioridade que, apesar de tudo, vai dando lugar a um visível cansaço moral. Dá a ideia de que que perderam a fé na sua capacidade para construir o próprio futuro. E Baram pergunta: – Poderá o absurdo da guerra de Gaza mudar a mentalidade dos israelitas?

A afirmação de que a morte dos nossos filhos é um acontecimento cruel, mas quando morre uma criança palestiniana – ou mesmo uma família inteira, como tem acontecido durante estes ataques a Gaza, a culpa é do terrorismo, é um argumento tão disparatado que só pode ser sintoma de uma patologia generalizada. Como autómatos, os apresentadores dos telejornais, não se cansam de afirmar que as forças de intervenção não matam crianças sem motivo. Que motivo?Os ineficazes foguetes do Hamas? Ou o «motivo» situa-se no futuro?

Os israelitas sabem que qualquer desaire militar ditará a extinção de Israel e poderá provocar uma catástrofe humanitária de dimensões incalculáveis – não se pode contar com uma atitude serena e justa por parte dos palestinianos e a cobardia militar dos estados árabes, poderá ditar uma carnificina gigantesca. É necessário uma escala de valores completamente oposta, que não fale de separação nem de muros – judeus e palestinianos têm de ser criados e educados dentro do princípio de que são iguais em direitos e em humanidade. É o único caminho. E tem de ser começado já – chegou a hora de agir.

Amanhã, este espaço será dedicado a Nurit Peled – judía, israelita, e professora de Educação na Universidade de Telavive. Defende que o  terrorismo do Hamas é uma consequência da política de ocupação. O facto de ter perdido sua filha, de 14 anos, num atentado suicida reivindicado pelo Hamas, não influencia o seu juízo. Autora do livro A Palestina nos livros de texto israelitas: ideologia e propaganda na educação, onde revela os mecanismos de doutrinação que actuam no seio da sua sociedade.

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