Cada hum fala do que gosta & usa. Os cavaleyros falam da guerra, os pacíficos da paz, os lauradores da terra & e os marinheyros do mar. Do qual sabia bem pouco e menos poderá gostar se o nauegara, hum velho daranda de douro, que pasando eu per aquella terra me preguntou como era feyto o mar. E seria, o bom velho que isto me preguntou a esse tempo de sessenta annos & mais de idade, a qual tinha lograda em tanto repouso, que nem sabia a que parte estaua Portugal onde eu lhe disse que nacera, nem como era feyto o mar, o qual lhe disse ser nosso vezinho.
Fernando Oliveyra, Prólogo a Arte da guerra do Mar, Coimbra, 1555
A início da modernidade, ou quem sabe se contribuindo para iniciá-la, Fernando de Oliveira define sobre três pés o seu projeto nacional para Portugal, com uma gramática, uma história nacionalista e uma completa teorização e prática do mar. Pioneiro em tudo, a sua Arte da guerra do mar, revelou-se trabalho revolucionário quanto à estratégia naval e profético quanto ao período histórico do colonialismo que viria a seguir.
Se há algo que define ambas, Galiza e Portugal, é o mar. Se há algo que separa ambas também é o controlo desse mar. Fonte de alimento, espaços natural de comunicação e intercâmbio; desde a mais remota antiguidade, no comércio da Idade do Bronze, até o hoje em que os grandes portos traçam a ritmo de interesses políticos as grandes autovias do mar, passando pelas rotas das Índias e a descoberta das Correntes do Golfo. O Portugal definido pelos grandes portos comerciais de Lisboa e do Porto e a Galiza, com o último faro [farol] antes do ignoto Norte da antiguidade e porta estratégica do mar, capaz de fechar o abrir o Norte do Atlântico; conformam a fachada ocidental da península ibérica.
Com a sua rede de portos, rias, ensaeadas e calas, feitorias pré-históricas, assentamentos pesqueiros e comerciais, com vilas que já foram potências portuárias internacionais medievais, em disputa entre a nobreza, a mitra de Compostela e o trono, capazes de deporem e porem reis e dinastias, a Galiza bastião naval dos Austrias e inimigo natural da Inglaterra, França e Holanda, ficou como Portugal, condicionada aos interesses comerciais e estratégicos das grandes potências, desde fins do XVII e especialmente no século XIX.
Se o Brasil ficou separado de Portugal e as colónias africanas caíram na parte lusa e não da brasileira (criando uma temível superpotência no Atlàntico Sul), foi bem por causa dos interesses e política britânica (e dos franceses e alemães depois). Se os portos militares galegos (Baiona, Marim, Crunha e Ferrol tão admirados pelos británicos) e os comerciais (Vigo, Corcubiom, Ribadeu) ficaram em Castela e não em Portugal, foi também uma e outra vez mais cousa dos equilíbrios continentais e das estratégias navais.
António Sérgio, abre com este envio, o capítulo I da primeira edição da sua Introdução geográfico-sociológica à História de Portugal (Lisboa, o Autor, s.d.):
ouviu-o o monte Artabro; e Guadiana
atrás tornou as ondas, de medroso.
Do monte Artabro, – ao Guadiana. O monte Artabro, como se sabe, está no extremo Noroeste de tôda a Ibéria: e o verso que associa no nosso espírito a avançada sobranceira do cabo Ortegal e êsse humilde contôrno em que o Guadiana se perde – sugere-nos a idéia da extensão inteira da «ocidental praia» da península hispânica; sucedeu, porém, que ante a belicosa intimação do Planalto – do clangor arrogante dos senhores da terra – a parte nortenha da população da Praia não veio a manifestar pela independência política um distintivo carácter comercial-marítimo: e não é por isso naquele Monte Artabro, mas no rio Minho, que a «pequena casa lusitana» assentou o limite setentrional.
Convinha não esquecer, antes de prosseguir, aquilo que noutra parte intuía o mesmo Sérgio: Portugal não tinha trigo, Castela não tinha mar. E eu acrescentaria que o bom Oliveira talvez foi mais lido, no seu tempo, na Inglaterra e na Holanda.
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N.B. A edição do autor, Gráfica SANTELMO, Lisboa, de Introdução geográfico-sociológica à História de Portugal, edição do Autor, parece ser dos anos 50. Porém as datas da bibliografia e o final das “Divagações Proemiais”, permitem considerar que o texto é de meados da década anterior.

