QUANTITATIVE EASING, GRÉCIA, EUROPA – NOVAS SÉRIES – UMA CARTA DE JÚLIO MARQUES MOTA
joaompmachado
Caro Editor
Propus-lhe publicar uma série de 10 artigos sobre a quantitative easing. Aparentemente um artigo técnico qualquer seria o suficiente, mas este programa tem a ver com a Europa, com os seus problemas. É então à luz destes que a quantitative easing deve ser vista, estudada, criticada, se houver razões para isso e, lamentavelmente, há muitas mesmo para o devermos fazer.
Ainda agora, um autor de que não gosto, Martin Feldstein, antigo assessor económico de Reagan, e que não pode ser considerado como um economista de esquerda escreveu:
“Thus, QE’s success in the US reflected the Fed’s ability to drive down long-term interest rates. In contrast, long-term interest rates in the eurozone are already extremely low, with ten-year bond rates at about 50 basis points in Germany and France and only 150 basis points in Italy and Spain.
So the key mechanism that worked in the US will not work in the eurozone. Driving down the euro’s dollar exchange rate from its $1.15 level (where it was before the adoption of QE) to parity or even lower will help, but it probably will not be enough.”
Esclarecidos, mesmo à direita, portanto, do que pode valer a quantitative easing de Draghi.
Mas com a quantitative easing muita gente embandeirou em arco como estando aí, bem à mão, o instrumento que nos iria livrar da crise, a bazuca que iria rebentar com a ganância dos mercados de capitais. Do Largo do Rato nem pela boca de António Costa nem de Ferro Rodrigues nem de nenhum porta-voz se ouviu seja o que for de crítico quanto a este instrumento publicitado intencionalmente a três dias das eleições gregas. Preocupante, do meu ponto de vista, este silêncio a denunciar que a substituição de António José Seguro Seguro não serviu para nada ou pior ainda, face a Bruxelas parece que o PS continua a assumir a postura de quem está ainda mais disponível para a Frau Merkel servir, desde que se crie uma mudança de cenário, de forma. Um servilismo feito a uma terceira figura, a Bruxelas, uma vez que Bruxelas não é mais do que o instrumento de que se servem os alemães para colocarem a Europa, nós todos, debaixo da sua pata. Um economista mal intencionado diria que Lisboa continua na corrida ao prémio europeu da maior reptilização, numa corrida em que também concorrem os franceses, os espanhóis, os italianos, entre outros países menores, mas das gentes do PS não digo nem pretendo dizer o mesmo. Dos répteis em comportamento de servilismo político já temos que nos baste na Presidência do Conselho de Ministros ou na Presidência da República, com todo o respeito que eu tenha por estes cargos mas não pelas práticas que dos seus actuais ocupantes emergem. Veja-se a vergonha da prova feita aos professores com o maior dos silêncios de Belém e com a aprovação de S. Bento. Mas mais triste ainda, no meio de tudo isto, é não ter havido nenhuma Universidade que se levantasse, pelo menos contra o absurdo que são este tipo de provas. Fê-lo Pulido Valente, no jornal Público. Será que o ministro passaria nelas, ele que parece não saber falar mais que três minutos de seguida? E ainda neste campo, ou de silêncio ou de falta de vergonha inerente à reptilização política, veja-se a recusa do Primeiro-ministro em aceitar os dados sobre a situação de pobreza em Portugal porque, sendo referentes ao período de há um ano atrás, já não são relevantes! Que argumento para quem ocupa tão alto cargo. Na opinião deste ocupante do cargo oficial são apenas relevantes os dados que ao governo interesse ou à la limite, não é preciso estatísticas no reino dos Coelhos destes matagais porque por definição se referem sempre ao passado e portanto sem interesse. . Mas a ser assim também se passa o mesmo com as estatísticas da Comissão, em que os relatórios são sempre publicados dois anos depois da recolha dos dados do ano a que se referem. E a conclusão seria então inabalável: sendo assim porque é se pode dizer que há crise, dada a desvalorização feita pelo senhor ministro sobre os dados que a afirmam?
Nâo é pois o campeonato de reptilização política a que acima aludi que tenho em mente quando falo das provas impostas aos professores, pelo achincalhar de todos os seus formandos e por isso mesmo, de todos os seus formadores também, provas estas que são a confirmação da incompetência de quem nos governa. E ainda alguém do governo que falou em provas assentes em raciocínio lógico. Façam estas questões a um juiz do Tribunal Constitucional, qualquer que ele seja, e digam-me se algum deles, formados em Direito que são e com matemáticas equivalentes ao nono ano , é capaz de responder, por exemplo à pergunta dos grupos de jogadores. De Belém, perante todas estas atrocidades, e o Presidente também foi professor, nem um murmúrio, o silêncio dos fantasmas é o que se ouve por aqueles lados.
Não é pois o campeonato de reptilização política a que acima aludi que tenho em mente quando me refiro ao silêncio do Largo do Rato ao falar de quantitative easing. Daqui, falo desse silêncio, porque entretanto abatem-se sobre a Europa uma multiplicidade de cenários, a partir da situação actual da Grécia e cenários nada bonitos na sua maioria . E por estes cenários passa igualmente o silêncio de muita gente face ao que se tem feito na Europa e que Bill Mitchell definiu da seguinte forma que cito de memória: os Tratados são para modificar quando a Alemanha não o pode fazer ou não tem a força de os impor e para tal tem sempre com o apoio de toda a gente, são para respeitar ao milímetro quando são os outros que o não podem fazer, sempre com o silêncio dos que têm de cumprir. E o silêncio do Largo do Rato a propósito da mascarada que é a Quantitative easing insere-se, ou pode ser visto como tal, no quadro do respeito absoluto por tudo o que vem de Bruxelas ou Frankfurt. Esperava mais, depois de tantas promessas feitas por confronto com a não dureza de António José Seguro face à ditadura alemã. Não é por acaso que os cenários traçáveis têm apenas dois actores principais em cena: Grécia e Alemanha. Simplesmente porque com o abdicar de tanta gente o que temos é agora uma Europa alemã. E não podemos continuar neste ámen de quem diz não ir à missa, mas a cumpre religiosamente, silenciosamente. Daí que se deva sempre ir ao fundo das questões que a Europa nos impõe, sobretudo na defesa dos valores da Democracia e da utilização das ferramentas de política com que esta se deve construir, com as quais a Democracia se deve sistematicamente apoiar.
Pois bem, aqui tem uma colectânea de artigos à volta da quantitative easing do senhor Draghi e dos problemas europeus que lhes estão directa ou indirectamente ligados, pedindo-lhe que esta colectânea venha a ser publicada. Uma tentativa nossa para que se fique esclarecido quanto ao que o programa de Draghi representa, uma colectânea de textos que é também indirectamente uma crítica ao silêncio do PS sobre o tema.
Como atrás se disse falar de quantitative easing é falar de Europa e não é por acaso que este programa é anunciada três dias antes das eleições na Grécia. Ora a Grécia levanta novas questões à tragédia europeia, levanta novos cenários. E um deles, mais um, tem também a ver com o silêncio das vítimas desta tragédia. Um das hipóteses que se levanta agora é de um cenário de dureza da Alemanha com este país a querer o pagamento da dívida ( como é possível nestas condições , alguém me diz ?) e de dureza igualmente pela parte da Grécia com o argumento desta que quer igualdade de tratamento, dando como exemplo o enorme presente que foi dado pelo BCE à Irlanda com a cumplicidade alemã, relativamente à dívida, com uma reestruturação e enorme alongamento das maturidades desta dívida, passando-as de curto prazo a enormes períodos de longo prazo, uma reestruração silenciosa altamente favorável à Irlanda. Deste presente fizemos no nosso blog um texto, grande como é o osso lamentável hábito , sobre a vigarice que isto comportava face aos Tratados, chateámos igualmente muita gente para publicamente falar nisso, mas de lado nenhum houve uma resposta, de lado nenhum houve um grito de não, assim não. Desse presente oferecido, desse presente silenciado, nos fala agora também Jean Claude Werrebrouck também relativamente à Grécia:
Este cenário da inflexibilidade [entre a Alemanha e a Grécia ] deixa supor que a disputa vai ser dura e a desencadear-se em torno do exemplo irlandês do refinanciamento ilegal pelo BCE. É necessário com efeito recordarmo-nos de que em Fevereiro de 2013, na sequência de diversas peripécias, relativas ao sistema bancário irlandês fortemente suportado sobre bancos franceses e alemães, o Tesouro Irlandês pôde emitir obrigações directamente monetarizadas pelo BCE. Na época, a Alemanha tinha aceite esta situação devido à muito forte exposição do seu sistema bancário. A Alemanha já não está hoje na mesma situação e será por conseguinte inflexível. Em contrapartida, o governo grego sabe que já houve violação dos tratados, e pode por conseguinte reivindicar um presente equivalente ao que foi presenteado à Irlanda: a sua inflexibilidade potencial alimentar-se-á do exemplo Irlandês.”
Deste caso ninguém falou, por terras lusas. Venho pois propor que em paralelo à edição dos dez artigos sobre a Quantitative easing e a Europa se aceite também editar uma colecção de textos dedicada especialmente à Grécia e aos seus possíveis impactos sobre a evolução da crise na Europa. E que a rematar esta segunda colecção se reedite também o texto sobre a prenda oferecida por Draghi e Merkel à Irlanda .