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Uma saída da Grécia do euro não é alta ciência – por Bill Mitchell III

Falareconomia1

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

 (continuação)

 

Segundo o banco central nacional dever-se-ia poder intervir no mercado de câmbios se a nova moeda nova estiver  em  perigo de romper as faixas superiores ou inferiores estabelecidas pelo intervalo  em que é permitido que a moeda possa flutuar.

O sistema de taxas de câmbio fixos na Europa ao longo de muitas décadas falhou miseravelmente e criou um enviesamento para a recessão em nações com  défice externo e uma recusa dos países em excedente da sua balança (particularmente Alemanha) em envolver-se em operações simétricas sobre a divisa estrangeira quando as taxas de câmbio  ultrapassavam os valores fixados.

Sob estes acordos, o banco central perderia a capacidade  de manobra sobre a política monetária e a taxa de juro seria ditada pela taxa resultante da política do BCE.

Mais, a história diz-nos que a moeda se transformaria em  refém dos especuladores do mercado financeiro e esta volatilidade estaria para além da capacidade do banco central em a poder controlar, tudo isto porque que rapidamente ficaria sem reservas estrangeiras.

Na teoria, o BCE poderia fornecer um acordo de swap infinito para permitir que o banco central nacional possa manter  a taxa de câmbio fixa, mas a isto e contra isto encontraria a resistência do  Bundesbank entre outros porque significaria uma expansão do volume de euros emitidos e aumentaria o medo da inflação.

Esta possibilidade era exactamente a razão pela qual o Bundesbank se recusou a funcionar de uma forma simétrica durante a Serpente Monetária  e na primeira iteração do Mecanismo Cambial Europeu na década de 1980 para ajudar a evitar a desvalorização das moedas mais fracas.

Enquanto a nova moeda se poderia  eventualmente desvalorizar (talvez não no curto prazo, pois a oferta seria ainda diminuta  – a proposta não é a mesma coisa que quebrar um acordo de paridade cambial, por exemplo), o alarmismo que sugere que seria uma situação sem limite a levar obrigatoriamente à hiperinflação, não tem nenhum fundamento.

Nós podemos ser guiados, em parte, pelo que aconteceu com o peso argentino nos anos a seguir  ao momento em que o governo argentino decidiu  deixar flutuar o peso  durante a crise de 2001-02. A Grécia, por exemplo, iria suportar alguns queda de curto prazo no novo dracma, uma vez que a  moeda seria transaccionada  nos mercados cambiais.

É verdade que as nações como a Grécia não tem as grandes quantidades de recursos naturais de que a Argentina dispõe  mas é igualmente falso dizer que eles não têm activos que são desejáveis por causa da sensibilidade da taxa de câmbio .

O importante a considerar  é que a Argentina criou uma nova capacidade de exportação dado o impulso competitivo que recebeu do depreciação da sua moeda. Por exemplo, a Grécia provavelmente virá a ter  um boom do turismo, não obstante o facto de que a crise tenha reduzido um pouco a sua capacidade. .

A variação positiva no sentido da balança corrente também coloca um limite  na espiral descendente da nova moeda como o fez no caso da Argentina.

Além disso, da mesma forma que a Argentina teve de suportar um grande impulso na inflação com a depreciação da sua moeda, o que corroeu os padrões de vida reais, a reversão dos padrões foi igualmente muito rápida   quando a moeda começou a valorizar-se na sequência  de um crescimento  económico  renovado. A Grécia iria ter  a mesma dinâmica com  os  alemães a invadirem as ilhas gregas cheias  de sol para escaparem dos invernos de  Berlim e desfrutar as férias dramaticamente bem mais baratas.

Uma dinâmica semelhante ocorreu mais recentemente, quando a Islândia entrou em crise e viu a sua moeda em queda. O Kroner é agora mais alto  em relação ao euro do que em qualquer momento desde o início da crise e o ganho de competitividade de que o país  tem desfrutado foi a sua vantagem.

Qual deve ser a paridade inicial?

A taxa de conversão inicial é pura e simplesmente teórica com os câmbios flutuantes. Os mercados de câmbios irão classificar os níveis de forma suficientemente rápida. O sistema de câmbios flutuantes  dará os instrumentos de política interna (monetária e orçamental ) para se poder ter  o máximo alcance em  prosseguir objectivos nacionais, incluindo  o de restaurar o crescimento e  a criação de empregos.

No entanto, alguns comentadores identificaram a possibilidade de nos defrontarmos com o chamado problema do ‘arredondamento’ onde os preços convertidos são empurrados para cima e  para a próxima unidade monetária inteira, o que  sugere algumas necessidade de reflexão  a ser dada à paridade.

O ponto de partida mais óbvio para a nova moeda e para evitar estes problemas práticos seria para o governo grego  adoptar a paridade de um Novo Dracma contra um euro  e deixar a moeda flutuar.

E sobre a reintrodução do sistema grego de pagamentos?

Uma parte essencial, mas relativamente simples da estratégia de saída implicaria o restabelecimento do banco central nacional soberano.

Em primeiro lugar, os bancos centrais nacionais existentes mantiveram a maior parte das  suas funções anteriores e a sua estrutura quando entraram no chamado  Eurosistema.

Em segundo lugar, já existem estruturas bem definidas em funcionamento entre o Eurosistema e o Sistema Europeu de Bancos Centrais (SEBC), que é constituído pelo BCE e pelos bancos centrais de todos os 28 Estados-Membros da UE. Essa estrutura permite que as nações não pertencentes à  zona euro possam conduzir a sua  política monetária independente (ou seja, definir as suas próprias taxas de juro), mas ainda permite uma estreita cooperação através do Conselho Geral do Eurosistema.

A primeira prioridade para o banco central nacional e soberano seria a introdução de um sistema viável  de pagamentos ​​para facilitar a nova moeda.

Um sistema de pagamentos (Segundo  o Banco Central australiano) :

… .. Refere-se a disposições que permitam aos consumidores, empresas e outras organizações transferir fundos normalmente detidos numa  conta numa instituição financeira para uma outra instituição financeira. Isto  inclui os instrumentos de pagamento – dinheiro, cheques e transferências electrónicas de fundos que os clientes usam para fazer os pagamentos – e os arranjos geralmente invisíveis que garantam que os fundos se deslocam  de contas de uma  instituição financeira para outra.

Um quadro jurídico define os procedimentos operacionais e as regras em que se apoia esse sistema. Existem dois tipos de sistemas: por grosso  (para grandes transacções) e a retalho ou de balcão  (para transacções relacionadas com o consumidor).

A introdução de um sistema robusto de pagamentos por grosso não seria um grande problema. Os bancos centrais já tinham sistemas funcionais a funcionar  quando entraram para a zona euro. Além disso, em termos de sistema TARGET2 da zona do euro, os países do euro como a Dinamarca já vincularam  voluntariamente os respectivos bancos centrais nacionais a este sistema.

Existem também sistemas alternativos que funcionam  na Europa, que processam as transacções expressas em euros  (por exemplo, o sistema gerido pela Associação Bancária Europeia). O sistema de retalho  seria ainda mais fácil dada a utilização generalizada da chamada-Single European Payments Area (SEPA), que é um sistema para simplificar as transferências bancárias em euros. Mesmo nações não pertencentes à UE (Islândia, Liechtenstein, Noruega e Suíça) são membros, assim como o Mónaco e São Marino.

(continua)

 

Uma saída da Grécia do euro não é alta ciência – por Bill Mitchell II

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