O DESEMPREGO NA ZONA EURO – POUCO TEM A VER COM A COMPETITIVIDADE INTERNACIONAL – por BILL MITCHELL – III

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Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

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O desemprego na zona euro – pouco tem a ver com a competitividade internacional

Bill Mitchell, Eurozone unemployment – little to do with international

Billy Blog, 23 de Marςo de 2015

Publicação autorizada pelo autor.

(CONCLUSÃO)

Então parece haver outra coisa mais para fazer, o que faremos depois.

O outro problema com a análise do Conselho Europeu é que não leva em conta as alterações ao nível dos preços. A implicação é que se houver alterações díspares nos custos unitários, em seguida, a competitividade relativa das nações será divergente.

O gráfico a seguir usa os dados a partir dos índices de taxa de câmbio efectiva mensais de Banco de Pagamentos Internacionais (BIS em inglês) – que são publicados a partir de Janeiro de 1994 até Fevereiro de 2015.

Podemos ver estes dados a partir da publicação – os novos índices de taxa de câmbio efectiva do BIS –, que foram publicados na revista trimestral do Banco de Pagamentos Internacionais (BIS em inglês), Março de 2006 (veja-se: http://www.bis.org/publ/qtrpdf/r_qt0603e.pdf). Havia anteriormente uma publicação – Medida dos preços internacionais e a competitividade pelos custos – que apareceu nos Economic Papers do BIS, n º 39, de Novembro de 1993- sobre o mesmo tema.

As taxas de câmbio efectivas reais fornecem uma medida na competitividade internacional e são baseadas na informação pertinente sobre os movimentos correspondentes dos preços relativos e/ou custos, expressos em moeda comum. Os economistas começaram a calcular as taxas de câmbio efectivas depois de que o sistema de Bretton Woods entrou em colapso na década de 1970 porque com este colapso acabava também a “taxa bilateral simples com o dólar ” ( veja-se: http://www.bis.org/publ/econ39.pdf ).

Os índices de taxa de câmbio efectiva real (REER) ajustam as taxas de câmbio nominais com outros dados tais como a inflação interna e os custos de produção.

 O Banco de Pagamentos Internacionais diz-nos que:

Uma taxa de câmbio efectiva (EER) dá-nos um melhor indicador dos efeitos macroeconómicos resultantes da evolução do valor da taxa de câmbio do que qualquer simples taxa de câmbio bilateral. Uma taxa de câmbio efectiva nominal (NEER) é um índice de uma média ponderada das taxas de câmbio bilaterais. Uma taxa de câmbio efectiva real (REER) é o NEER ajustada pela evolução dos preços relativos considerados ou pela evolução dos custos relativos na produção; as alterações na REER, portanto, entram em linha de conta tanto com a evolução da taxa de câmbio nominal como das diferenças nas taxas de inflação relativamente aos seus parceiros comerciais. Na análise, tanto das políticas como da evolução dos mercados, a REER serve para diversas finalidades: como uma medida da competitividade internacional…

Se a REER sobe ( desce), podemos então concluir que a nação está internacionalmente a ficar menos (mais) competitiva.

A análise dos movimentos das REERs pode ajudar-nos a responder à questão : será que a desvalorização interna dinamiza a competitividade externa ?

Os gráficos a seguir mostram-nos os movimentos nas taxas de câmbio efectiva real desde 1999, divididos em duas sub-amostras – Janeiro de 1999 a Dezembro de 2007 e de Janeiro de 2008 a Fevereiro de 2015, períodos estes que de modo aproximado são coincidentes com o período de crescimento e o período de recessão.

Os dados mostram que, depois de entrada em vigor do euro, a competitividade internacional para todas as nações mostrou-se em declínio excepto nos casos de França, da Finlândia e da Alemanha.

Logo a seguir à crise, a tendência geral tem sido a das taxas de câmbio efectivas reais estarem a declinar. No entanto, apesar do programa de enormíssima austeridade que a Grécia sofreu, a diminuição da sua taxa de câmbio efectiva real foi menor quando confrontado com o declínio na Alemanha (10,8 por cento contra 11,9 por cento).

Das nações da zona do euro, só a Irlanda melhorou a sua posição em relação à Alemanha (19,8 por cento) desde o início da crise.

zona euro - IV

O gráfico seguinte mostra a mudança na taxa de desemprego entre 2009 e 2014 contra a mudança em percentagem na REERs de 1999-2007, ( os pontos a azul ) e de 2007-2014 ( os pontos a vermelho). As linhas pretas são as linhas de regressão correspondentes.

No primeiro caso (pontos a azul ) a relação poderia ser retardada temporalmente. enquanto que a segunda é em grande parte contemporânea.

Uma vez mais se o leitor acredita nos resultados da regressão poderia então concluir que quanto maior o aumento na REERs maior seria a redução nas taxas de desemprego, o que, naturalmente, será muito provavelmente um resultado sem sentido.

Essa relação intensificou-se (linha a preto de maior inclinação no período da recessão, o que torna os resultados ainda mais absurdos.

Lição a tirar: uma simples regressão a duas variáveis são perigosas para nos fiarmos nelas para podermos fazer inferências.

zona euro - V

Os dados sugerem-nos que a desvalorização interna não fornece nenhuma base sólida para o crescimento. Em primeiro lugar, é uma estratégia de ‘correr globalmente para o fundo’ que tenta reduzir os custos unitários do trabalho através de cortes nos salários, que comprometem a despesa interna.

Mas se o moral da força de trabalho também cai devido aos cortes de salários, é provável que a sabotagem industrial e o absentismo aumentarão, prejudicando a produtividade do trabalho.

Mais ainda, o investimento empresarial total é susceptível de diminuir em resposta à descida na despesa, o que também corrói o crescimento da produtividade futura. Não existe, portanto, nenhuma garantia de que haverá uma diminuição significativa dos custos laborais unitários.

Há sinais bem claros de investigações robustas que nos dizem que pagando altos salários e oferecendo aos trabalhadores segurança de emprego leva a que as empresas desfrutar de maior crescimento da produtividade e que a nação melhora a sua competitividade internacional como resultado.

Os dados do Eurostat mostram que, entre 2008 e 2013, a produtividade do trabalho por hora trabalhada aumentou em 1,8 por cento, na Alemanha, mas caiu na Grécia, o país mais atingido pela austeridade, em 8,5% e na Itália em 0,7 por cento.

Portanto, não só a abordagem de desvalorização interna falha em não conseguir aumentar a competitividade, como ela própria a coloca numa trajectória de baixa produtividade, o que prejudica os possíveis aumentos nos níveis de vida em termos reais. Os custos enormes para as nações que estão a ser submetidos a esses programas de austeridade na forma de milhões de postos de trabalho perdidos e do desemprego muito elevado da juventude são muito mais elevados a longo prazo do que quaisquer benefícios que de imediato possam surgir.

Obviamente alguma coisa esteve na base das mudanças destas relações. O que seria? Bem, a análise do Conselho Europeu nada menciona por óbvias razões políticas. Afinal, eles estão a promover a austeridade, as privatizações, os cortes nas condições de trabalho, nas condições salariais.

O gráfico seguinte mostra a contribuição da procura interna para o crescimento no PIB real de 2000 a 2014 (em pontos percentuais) para a zona euro, no total (19 países) e para a Grécia.

A procura interna é o total das despesas, com exclusão das exportações. Enquanto se pode argumentar que a despesa em bens de investimento é sensível à competitividade comercial, a realidade é que para a Grécia, como a sua competitividade evoluiu para o período pré-crise (ver o gráfico anterior) o investimento bruto foi crescendo, como aconteceu o mesmo com o crescimento real do PIB.

Uma vez rebentada a crise e com a Troika a ter começado a sabotar deliberadamente a despesa pública e privada na Grécia, a procura interna caiu a pique. Durante esse tempo, a competitividade esteve a aumentar.

zona euro - VI

Conclusão

Existem outros gráficos altamente controversos no documento dos 4 Presidentes. Mas a análise de um deles deu-me uma suficiente dor de cabeça.

A razão pela qual o desemprego aumentou tão fortemente nos países da zona euro entre 2008 e 2014 tem muito pouco a ver com os chamados desequilíbrios comerciais ou com as diferenças na evolução dos custos unitários.

Esses desequilíbrios (como são chamados) e as diferenças nos custos unitários não são novos. O que aconteceu em 2008, foi um grande colapso na procura agregada que depois foi reforçado pela imposição de políticas sucessivas de austeridade.

Se colocássemos graficamente a mudança na posição orçamental (como é medido pela diferença na austeridade imposta) e a alteração da taxa de desemprego obteríamos uma relação positiva muito forte (mais austeridade, maior o aumento nas taxas de desemprego) e isso sim, teria algum significado.

Isso deveria ser o ponto de partida para o Conselho Europeu – mas então isso exigir-lhes-ia levantar algumas questões sobre as suas regras orçamentais notoriamente disfuncionais.

Bill Mitchell – billy blog, Eurozone unemployment – little to do with international competitiveness, texto disponível em http://bilbo.economicoutlook.net/blog/?p=30490

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Bill Mitchell – billy blog, Eurozone unemployment – little to do with international competitiveness, texto disponível em http://bilbo.economicoutlook.net/blog/?p=30490

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Para ler a parte II deste trabalho de Bill Mitchell, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, vá a:

O DESEMPREGO NA ZONA EURO – POUCO TEM A VER COM A COMPETITIVIDADE INTERNACIONAL – por BILL MITCHELL – II

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