
Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

Com a Emergência dos seus povos
A Europa sobreviverá …
Robert-Marie Mercier, AVEC L’ÉMERGENCE DE SES PEUPLES, L’Europe survivra…
Revista Metamag.fr, 10 de Abril de 2015
(conclusão)
…
Depois desta decadência cultural (de que sofreram todos os países europeus, sob o efeito perverso da mundialização) aparecem-nos, desde o início dos anos 2000, novas perspectivas. Porque hoje, Internet e a revolução numérica permitem às culturas de nacionalidades oprimidas aceder à hegemonia em relação aos sistemas estatizados (ou mesmo mundializados) que os tinham abafado.
Poder-se-ia tomar o exemplo da Escócia onde, as redes sociais jogaram um papel primordial, a começar pela idade legal do voto para o referendo sobre a independência, que desceu para os 16 anos. Ora, nesta batalha da web, o campo do Sim teve larga vantagem entre as gerações não envelhecidas, ainda que, finalmente, o Não tenha de facto triunfado, essencialmente devido ao voto dos reformados: os jovens de 16 e 17 anos escolheram o Sim a 71%, enquanto os eleitores com mais de 65 anos privilegiavam o Não em 73%. E, no entanto, se fossem, finalmente, os nacionalistas escoceses a terem ganho? Vão obter ainda mais poderes – sendo certo de que tinham já muito – o que não pode deixar de suscitar novas contradições nos seus adversários em Londres e noutros lugares. Uma questão a acompanhar quando estas gerações ascendentes estiverem nos negócios…
Igualmente interessante é o exemplo catalão. O processo de acesso à autonomia começa, nos anos 1970, pelo empenhamento político de artistas plásticos de reputação como Joan Miró, Antoni Tàpies ou Miquel Barceló, que afirmam alto e bom som a sua “catalanidade” (os artistas intelectuais orgânicos). Serão secundados, a nível dos meios de comunicação social, pelos compositores da nova canção catalã (Lluís Llach, com “ La estaca”). Em cerca de algumas décadas, desenvolveu-se um vasto movimento. Este permite, gradualmente, que a cultura catalã suplante a que o Estado espanhol tinha imposto. A partir daí, o governo de Barcelona decidirá organizar, em toda a ilegalidade em relação às leis espanholas, uma consulta eleitoral (com uma pergunta simples: “Querem que a Catalunha se torne um Estado? No caso de uma resposta afirmativa, querem que este Estado seja independente?”) que será proibido pelo estado central espanhol. Mas, o verme barcelonês está a partir de agora na maçã madrilena.
E da França, que me dizem, em tudo isto?
É necessário mesmo assim recordarmos-nos de que “a última barricada” sobre o solo francês (não contamos “a revolução de opereta” de Maio de 1968) data, de facto, de Maio de 1871 no seio desta “república una e indivisível”.
Já com a insurreição de 1848, que assinala o malogro da Segunda República, é a estrutura centralizadora hexagonal (enfim, quase hexagonal, dado que nessa época os condados de Nice e de Savoia ainda não tinham sido anexados) que se vai aproveitar deste acontecimento: é Napoleão III quem, finalmente, tira as castanhas do fogo da insurreição de Fevereiro e, sobretudo, da que, desesperada, ocorre no mês de Junho seguinte. No dia 2 de Dezembro de 1851, o seu golpe de Estado militar instala um peso de chumbo sobre todo o hexágono. Flaubert vai disso dar conta em 1857: será condenado por “insulto à moral pública e religiosa e aos bons costumes” por ter escrito Madame Bovary. Quanto a Victor Hugo, este deverá tomar o caminho do exílio: primeiro em Bruxelas, depois em Guernesey. Será necessário uma derrota militar de primeira importância, a da Guerra franco-alemã de 1870-71, para que um outro sistema político, a Terceira República, possa ver a luz do dia. E no entanto, isso era previsível e inscrito nos arquivos histórico deste país. Vou citar, aqui, o cardeal de Richelieu, durante o cerco de La Rochelle, em 1627, cuja citação retomada no seu Testamento político conhecido publicamente em 1688, mostra bem que o objectivo global deste sistema centralizador não se alterou desde há três séculos: “A autoridade obriga à obediência, mas a razão a esta convence”. E, neste domínio, a república jacobina não fica atrás, em nada, às monarquias.
À primeira vista, este Estado-nação singular não parece preocupado com o que se passa à sua volta. O seu equilíbrio interno durante muito tempo tem assentado sobre estes três pilares inabaláveis que eram o serviço militar, o fisco e a escola comunal. Além disso, estas instituições tinham uniformizado os comportamentos dos Franceses e tinham criado um imaginário colectivo em que se reconheciam: o sistema do desenrascanço, o sistema D antídoto da burocracia, as míticas proezas amorosas de que eles sempre se glorificaram e a arte culinária.
Resumidamente, a causa poderia ser para sempre entendida sem que a eleição de um presidente nacionalista para a Câmara municipal da principal cidade de Córsega ou o desenvolvimento vigoroso de um espírito empresarial transfronteiriço no País Basco pudesse mudar grande coisa. Enquanto que todos os países vizinhos, desde há muito tempo, puseram em prática fortes comunidades regionais (Espanha), uma regionalização dinâmica (Itália e Reino Unido) ou um verdadeiro sistema federalista (Suíça, Alemanha e Bélgica), a França, pela sua excepção cultural, seria ela, portanto, dedicada à uniformidade, ao centralismo e a normalização? Não necessariamente, mesmo se é necessário disso estar consciente, isto será mais duro que noutros lugares devido à história deste país que se construiu, não pela adesão dos povos, mas pela conquista e pela anexação destes mesmos povos. Dito isto, a história não é escrita em parte nenhuma e nada é eterno.
Quereria, actualmente, citar uma personalidade incontestável e incontornável, como a de Claude Levi-Strauss: “Porque, se a nossa demonstração for válida, não há, não pode haver, uma civilização mundial no sentido absoluto que se dá frequentemente a este termo, dado que o termo civilização implica a coexistência de culturas, oferecendo estas o máximo de diversidade, e consiste mesmo nesta coexistência. A civilização mundial não saberia ser outra coisa que a coligação, à escala mundial, de culturas preservando cada uma a sua originalidade”. (Claude Levi-Strauss – “Race et Histoire”).
É assim, enquanto que as alavancas de poder e de informação (?) oficiais procuram demonstrar-nos que a história tem um sentido que seria o de se caminhar para uma cidade mundial única, a realidade corrige-as demonstrando exactamente o contrário. Isto explica todos os seus esforços e os meios colossais desenvolvidos para tentar alterar as mentalidades nesse sentido. Infelizmente, as forças centrífugas são claramente mais fortes, naturalmente, que as forças centrípetas. A natureza sempre teve tendência a caminhar para a diversidade e não para a uniformidade. Ainda que “a máquina de esmagar as culturas”, braço do “sistema de matar os povos”, queira ir contra esta tendência natural, há ainda, certamente, muitas razões para esperar. E, é de resto, verdadeiramente, a única saída para a Europa (falo aqui do nosso Velho Continente e não “dessa coisa” baptizada U.E.) poder sobreviver: é pela emergência de todas as culturas e pelo renascimento dos seus povos (e não pela manutenção em vida, sob assistência respiratória, dos Estados-nações que fizeram o seu tempo) que a nossa velha Europa (bem como a sua civilização) sobreviverá.
“Nada não seria mais contrário à verdade do que ver na afirmação da identidade cultural de cada nação, a expressão de um chauvinismo fechado sobre si-mesmo. Não pode aí haver pluralismo cultural a menos que se todas as nações abrangerem a sua identidade cultural, admitirem as suas especificidades recíprocas e obterem vantagens das suas identidades, enfim, reconhecidas”. (M. Amadou Mahtar M’ Bow – Director Geral senegalês da UNESCO)
« Rien ne serait plus contraire à la vérité que de voir dans l’affirmation de l’identité culturelle de chaque nation, l’expression d’un chauvinisme replié sur soi-même. Il ne peut y avoir de pluralisme culturel que si toutes les nations recouvrent leur identité culturelle, admettent leurs spécificités réciproques et tirent profit de leurs identités enfin reconnues ». (M. Amadou Mahtar M’Bow – directeur général sénégalais de l’UNESCO)
Robert-Marie Mercier, AVEC L’ÉMERGENCE DE SES PEUPLES L’Europe survivra… Texto publicado por Metamag e disponível em:
http://metamag.fr/metamag-2821-AVEC-L%E2%80%99%C3%89MERGENCE-DE-SES-PEUPLES-.html
Illustration en tête d’article : la bataille de lépante *Racines du Pays niçois
__________
Para ler a Parte I deste trabalho de Robert-Marie Mercier, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, vá a:
COM A EMERGÊNCIA DOS SEUS POVOS A EUROPA SOBREVIVERÁ … – por ROBERT-MARIE MERCIER – I
