Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
4. A via estreita para a Espanha conseguir sozinha da crise
Claire Gatinois, Clément Lacombe e Philippe Ricard
Depois da Grécia, da Irlanda, de Portugal… A Espanha vai ser ela forçada a colocar-se sob a assistência do FMI e da Europa? Por sua vez, é evidente que a quarta maior economia da zona euro entrou já nas áreas de forte turbulência. Ao ponto em que a questão de uma ajuda externa ao país – uma hipótese de que o governo espanhol não quer ouvir falar – coloca-se agora mais do que nunca.
O colapso do Bankia, o quarto banco do país que solicita cerca de 19 mil milhões de euros, obriga a Espanha a endividar-se ainda mais. Madrid parece presa, a recessão agrava-se, as dívidas acumulam-se e os mercados financeiros continuam embalados nas exigências: na quarta-feira, 30 de Maio, a bolsa espanhola atingiu o seu nível mais baixo desde 1 de Abril de 2003 e a taxa das obrigações do Estado a 10 anos é agora superior a 6,5%.
A Comissão Europeia diz-se estar pronta para fazer um gesto de compreensão, diferindo de um ano para 2014, o prazo final em que o défice deve ser reduzido a 3% do produto interno bruto (PIB). E isso, desde que o país consiga conter as despesas das suas regiões. Um prazo que pode não ser suficiente.
O país terá ele atingido a «cota de alerta»?
A história da dívida soberana na zona euro envia uma mensagem perturbadora à Espanha. A taxa de empréstimo do país, mais de 6,5%, está a aproximar-se perigosamente perto dos 8% observada na Grécia, na Irlanda e em Portugal, quando a União Europeia foi solicitada para o resgate.
Acima de tudo, o “spread”, a diferença entre a taxa de juro sobre a dívida de Espanha e a que é aplicada à dívida alemã é de 5 pontos percentuais. Um nível que para os outros três países que estão sob assistência representou “o começo do fim”, sublinha Jean Pisani-Ferry, economista do centro de reflexão europeu Bruegel.
“Não devemos apenas olhar para o nível das taxas de juro”, diz Thibault Mercier, economista do BNP Paribas. A Espanha, diz ele, tem a vantagem de ter uma dívida relativamente baixa: 68% do PIB no final de 2011, a dívida espanhola continua a ser inferior à da Alemanha (81,2%).
Além disso, o país, já contraiu empréstimos nos mercados em cerca de 55% das suas necessidades de financiamento para 2012 e a preços razoáveis. Madrid pode agora permitir-se estar a endividar-se a custos mais altos para o segundo semestre do ano, disse Mercier. Contudo, Madrid ainda precisa de encontrar 39 mil milhões ainda este ano. Já para não falar das facturas do sector bancário…
E de quanto é que precisam os bancos?
As empresas e as famílias espanholas em dificuldade, muitas vezes desempregadas, estão a debater-se numa situação muito difícil para reembolsarem os seus créditos. Resultado, os bancos, que acumularam dívidas incobráveis nos seus balanços e num montante que é cerca de 180 mil milhões de euros, já não poderão ser capazes de financiarem a economia e agrava-se assim a recessão.
Para romper com este círculo vicioso, o Estado tem que ir em seu socorro, mesmo que as vias seguidas e a forma como o faz possam chocar os privados, as famílias, cujos bens imobiliários são frequentemente confiscados pelos bancos com a execução de hipotecas. E a conta é dolorosa: o sector teria necessidade de uma recapitalização de 50 a 100 mil milhões de euros.
Uma soma que demonstra também que as autoridades espanholas não souberam avaliar estas dificuldades.
Daí a poder perder a preciosa confiança dos investidores.
Madrid poderá resolver o problema sozinha?
Ainda pouco endividado, o país pode, pelo menos em teoria, permitir-se salvar os seus bancos: isso inflacionaria no máximo a sua dívida em cerca de 9 pontos do PIB, que ainda assim permaneceria abaixo da média europeia.
Mas, qual a taxa de juros que deve pagar por esta nova dívida? Face aos mercados bem nervosos, os encargos da dívida podem-se tornar colossais. Tanto mais quanto o PIB ainda por cima se reduz com a recessão entre (-1.8%) e (-0,3%) em 2013 segundo estimativas de Bruxelas.
Para sair desta situação, o país só lhe deixam como opção continuar a acentuar a austeridade. “É defensável mas só com mais selvageria social”, alerta Jean-Paul Fitoussi do Observatório Francês das Conjunturas Económicas (OFCE).
Na verdade, “a Espanha já se auto-administrou com uma dieta severa sem qualquer via para o crescimento, ao contrário da Itália ou do Reino Unido”, disse Ludovic Subran, economista-chefe da seguradora de crédito Euler Hermes.
Neste contexto, o país pode ter interesse a solicitar a ajuda da Europa. Mas a resistência de Madrid explica-se bem: no âmbito da assistência financeira, o país estaria sob tutela dos seus fornecedores de fundos. Madrid perderia não só a sua “dignidade democrática” mas perderia também as suas margens de manobra para dosear as políticas de austeridade., diz-nos Fitoussi.
Que pode fazer a Europa para salvar a Espanha?
Pela primeira vez, Olli Rehn, Comissário Europeu dos Assuntos Económicos e Monetários, falaram em público, quarta-feira, na hipótese de um resgate Europeu dos bancos espanhóis. Um método que tem a vantagem de não afectar as finanças do país.
Mas uma tal opção depara-se com a relutância da muito ortodoxa Alemanha. Os fundos europeus – o fundo europeu de estabilidade financeira (FEEF), ou o seu sucessor, o mecanismo europeu de estabilidade (MEE) – não podem ajudar directamente os bancos: eles precisam de passar pelos Estados em causa, em troca de condições o que Madrid rejeita.
As negociações foram realizadas. François Hollande como Mariano Rajoy, o chefe do Governo espanhol, pedem que se modifique o funcionamento do fundo. “As reflexões continuam, mas a questão não será resolvida a nível técnico e uma arbitragem política será necessária, talvez no Conselho Europeu de Junho”, pensa uma fonte de Bruxelas.
Para complicar ainda mais a situação a entrada em serviço do MEE, programado em Julho, está a assumir algum atraso. “Deparamo-nos com problemas de calendário,” disse um diplomata da zona euro.
“Na Europa, falamos muito mas age-se mesmo muito pouco”, resume Fitoussi. E mesmo quando estes mesmos obstáculos são levantados, ” não se deve limitar a ajuda somente para a recapitalização dos bancos, adverte Subran.” “Será também necessário uma componente de crescimento para reanimar um tecido industrial destruído como resultado do desemprego e das falências das empresas.
Claire Gatinois, Clément Lacombe e Philippe Ricard (em Bruxelas), La voie étroite de l’Espagne pour s’en sortir seule, Le Monde, 31 de Maio de 2012
