Selecção e tradução de Júlio Marques Mota
Com a Emergência dos seus povos
A Europa sobreviverá …
Robert-Marie Mercier, AVEC L’ÉMERGENCE DE SES PEUPLES, L’Europe survivra…
Revista Metamag.fr, 10 de Abril de 2015
Como compreender a evolução do nosso continente sem recorrer à História?
“Cada povo não tem um sangue que lhe seja próprio; mas tem sempre a sua própria cultura, o conjunto dos valores morais e estéticos que foram elaborados durante séculos e que constituem a especificidade da sua fisionomia. É aí que reside o elemento que, mesmo se conseguimos alcançar uniões políticas mais vastas, tal como a Europa unida, nunca será destruído e é o que distinguirá, dentro da Europa, cada povo europeu… E não deve ser destruído porque é dele que provem não somente a força criadora de cada sociedade isolada, mas também a força da união de todas as sociedades”. (Constantin Tsatsos – Presidente da república grega).
Hoje cada um estará de acordo em pensar que o mundo está crise e, quando o pensamento dominante quereria mesmo limitar unicamente esta crise ao seu aspecto financeiro, é evidente que este é apenas o epifenómeno de uma crise estrutural do sistema globalizado. Durante séculos, os povos viveram em consciência do que eles eram, da herança que eles traziam e do dever de transmissão que lhes incumbia. Desse ponto de vista, os artistas eram a vanguarda dos depositários da memória colectiva dos povos, e por esta manutenção da memória mais longa tornavam-se verdadeiros despertadores dos povos. Nesse tempo, podia-se verdadeiramente falar de intelectuais orgânicos. De resto, é na Itália que a emergência desta superioridade da cultura sobre a política foi conceptualizada.
Gramsci interessou-se muito pelo papel dos intelectuais na sociedade. Dizia nomeadamente que todos os Homens são intelectuais, mas que nem todos têm a função social de intelectuais. Defendia a ideia que os intelectuais modernos não se satisfaziam com a produção do discurso, mas estavam implicados na organização das práticas sociais. Produziriam o senso comum, ou seja que vai de si-mesmo. Assim os intelectuais comprometidos desempenhariam um papel essencial produzindo evidências que destruiriam o senso comum entretanto gerado, na sua opinião, pela burguesia.
Estabelecia mais de uma distinção entre “uma intelligentsia tradicional” que se pensa (sem razão) como uma classe distinta da sociedade, e os grupos de intelectuais que cada classe gera “organicamente”. Estes intelectuais orgânicos não descrevem simplesmente a vida social em função de regras científicas, mas exprimem antes as experiências e os sentimentos que as massas não poderiam exprimir por elas mesmas. O intelectual orgânico compreenderia pela teoria, mas sentiria também pela experiência a vida do povo.
A necessidade de criar uma cultura própria aos trabalhadores deve ser relacionada com o apelo de Gramsci para um tipo de educação que permita a emergência de intelectuais que partilham as paixões das massas de trabalhadores. Os partidários da educação adulta e popular consideram a esse respeito Gramsci como uma referência. Atribuem-lhe a frase: “É necessário ligar o pessimismo da inteligência ao optimismo da vontade”, a citação exacta (em tradução literal do italiano): “Sou pessimista com a inteligência, mas optimista pela vontade”.
A consciência da missão que incumbe ao intelectual (e por conseguinte ao artista) na sociedade apareceu como uma evidência a um criador como Pier Paolo Pasolini. Pier Paolo Pasolini foi um escritor, poeta, jornalista, argumentista e realizador italiano que nasceu a 5 de Março de 1922 em Bolonha. Teve um destino fora do comum e terminará assassinado, sobre a praia de Ostie, em Roma, na noite de 1-2 de Novembro de 1975. A sua obra artística e intelectual é politicamente empenhada e marcou a crítica. Dotado de eclectismo, distingue-se em numerosos domínios. Conhecido nomeadamente para um forte empenhamento à esquerda, situar-se-á no entanto sempre fora da instituição. Será um observador feroz das transformações da sociedade italiana do após-guerra. A sua obra vai suscitar fortes controvérsias e provocará debates pela radicalidade das ideias que há nelas. Vai mostrar-se desde muito cedo muito crítico para com a burguesia e a emergente sociedade italiana de consumo, tomando as suas distâncias com certo espírito contestatário de 1968.
Na Itália do imediato pós-guerra, foi indubitavelmente o poeta e realizador Pier Paolo Pasolini quem melhor terá representado a figura do intelectual orgânico. Pasolini teve esta revelação ao recolher-se perante as cinzas de Gramsci. Autodidacta e gozando de uma grande influência no mundo artístico transalpino, torna-se a chave, a referência do cinema italiano ilustrado pelas obras de Michelangelo Antonioni, Federico Fellini, Luchino Visconti, Franco Zeffirelli, Vittorio de Sica ou de Luigi Comencini, de Pietro Germi, de Mario Monicelli, Dino Risi e de Ettore Scola. Nessa época, o cinema italiano era um dos melhores do mundo e projectava um olhar muito crítico sobre a sociedade moderna desestruturante. Mas, depois do assassinato de Pasolini, o conjunto do campo cultural italiano vai ser totalmente perturbado.
Nos anos que se seguiram, um conjunto de inovações tecnológicas e administrativas – a televisão por cabo ou a possibilidade de criar cadeias privadas financiadas pela publicidade – vai alterar profundamente a paisagem audiovisual. O exemplo significativo é representado por um empresário da construção, Silvio Berlusconi, que, depois de ter feito fortuna no imobiliário, vai atirar-se a sério neste novo mercado potencial. Em poucos anos, as suas três cadeias de televisão (Canale 5, Itália 1, Retequattro), depois, a holding financeira Fininvest e o grupo de comunicação Mediaset criados para os controlar, não se tornou somente o primeiro operador privado da comunicação na Península, mas, sobretudo, desenvolveu o mercantilismo e a pornografia a todos os níveis da vida cultural. É a paragem de morte do cinema italiano que, desde “a libertação” (Païsa de Roberto Rossellini, 1946 , à “La Pelle ”, (a pele) de Liliana Cavanni , adaptação de uma novela de Curzio Malaparte, 1981) tinha-se tornado um dos mais talentosos do planeta.
(continua)
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Ilustração no início do artigo – Batalha de Lepanto
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Ver o original em:
http://metamag.fr/metamag-2821-AVEC-L%E2%80%99%C3%89MERGENCE-DE-SES-PEUPLES-.html





