
Conservo umas quantas e boas penas que o pouco uso faz que tenha de carregar de tinta e limpar quando trato de resgatar a habilidade da mão ou anotar velhos cadernos. Mas, num bom papel, adoro esse pervagar da escrita, deslizando e fazendo aparecer a tinta com as minhas ideias. Sempre gostei da escrita manual, tem outro ritmo, marca uma outra condição às ideias. Não há volta, nem corte, nem correção automática, nem desfazer.
A escrita de mão é uma artesania bem diferente daquela outra da composição tipográfica na que se inclui mais a escrita desde os processadores de texto. Com os anos fomos perdendo o costume da escrita e também a correspondência. Não conservo os e-mails, os milheiros de e-mails que devo ter escrito, apenas alguns dos recebidos. Cartas em papel sim, enchem caixas, com epístolas familiares e amicais, daqueles tempos nos que andava pelos USA, Brasil, Uruguai, Espanha.
As datas revelam a mudança cultural, congelada antes do ano 2000. Não deixa de ser interessante o diferente que é a ortografia, memorizada na prática manual e automatizada em contraste com os hábitos da digitada. Algum dia haverá que refletir sobre isto também.
A escrita, a artesania, a história, a arte, as elites, a galeguidade, a história cultural, as cantigas medievais, o desenho, a etnografia e a antropologia social, livros, leituras, horas congeladas e desertas vão enchendo as páginas de correspondência enquanto vejo passar os anos desta injustiça manifesta, deste abuso e suspensão das garantias cidadãs.
Afora os passaros cantam nas suas cartas, dentro sucedem-se as anedotas com que se cuida e dissimula os amigos e familiares, e ainda mais dentro onde ninguém sabe que acontece em realidade, vão-se formando na sua liberdade imaculada, dous dos grandes intelectuais da Galiza futura.
