A GALIZA COMO TAREFA – epistolários – Ernesto V. Souza

Para o Antom Santos, por fim na casa.

Efeito colateral de ter amigos em prisão foi recuperar a arte de escrever cartas de mão. Nuns anos, escrever cartas, foi algo que me era habitual; e até reuni – para isso mais escrevi – um bom golpe delas. Os amigos emigravam, ou estudavam fora, depois eu viajei, e emigrei. Acho que desde 1999 não voltei a escrever cartas em papel, substituí pelo e-mail, e ultimamente pelas mais diversas escritas em redes sociais.

Esta forma de comunicação, que hoje parece material de museu ou género literário desusado, era o jeito em que se transmitia e comunicava: com pais, irmãos, parentes, amigos, namoradas. E era também, a maravilha, com aqueles outros com que compartilhávamos projetos e sonhos literários, artísticos, políticos ou intelectuais.

As cartas conservavam-se, podiam-se ler passados anos, herdar, ou reencontrar, e permitiam, como objetos físicos que são, evocar, a cada tato, momentos, tempos e pessoas, com uma intensidade que os – já em muitos casos inexistentes ou não conservados – depoimentos eletrónicos não permitem na sua virtualidade efémera. Sempre haverá quem selecione e arquive os infinitos e-mails, para além do big brother, mas eu não.

E que prazer tranquilo tinha encher umas páginas numa mesa de um café à luz de qualquer parte do mundo ou na casa sentado; e que alegria imensa e, por vezes inesperada como agasalho festivo, topar na caixa dos correios uma letra amiga.

A escrita tornou tão diferente nestes anos. Antes os escrevedores de epistolário (não confundir com os rascunhadores de postal, notas, parabéns e informes) éramos poucos: gente com letras, cultivada, que mantinha uma tradição que remontava direitinha ao renascimento e até a antiguidade clássica. Hoje toda a gente escreve, por toda a parte, na rede ou na nuvem, em dispositivos móveis, nas mais diversas plataformas, apps e dispositivos, e num click encaminha com sofreguidão e ai… se não há resposta imediata.

A gente escreve. Mas escrever cartas a mão é outra arte, e exige outros espaços, tempos, ferramentas próprias e disciplinas. Um mínimo de letra legível, papel, caneta e envelope. Claro que uma pena, uma letra elegante e um bom papel sempre afagam o destinatário. Em resumo, precisa-se um algo de tempo e de organização.

A organização é importante. A carta pode se improvisar, ou rascunhar antes, isto último melhor, dado que a escrita de mão nos menores de 55 foi enferrujando. Mas falta vagar e espaço. Repararam já o importante que era antes a luz, o espaço, a mesa onde a gente escrevia? Um escritório, uma mesa confortável, uma tábua portátil, um cantinho sob a luz da manhã num cafezinho amigo, uma meia explanada, uma biblioteca.

Mas falta-nos hoje vagar, faltam espaços físicos e tempos para escrever aquelas cartas. É curioso como os hábitos foram mudando os espaços de trabalho, de jeito que agora escrever a mão é uma complicação, um pequeno trabalho inusual que deve ser planificado por fora das nossas rotinas. Há que arrumar um lugar no escritório, agora ocupado com o teclado, o portátil, a tableta, o telefone; ou um outro espaço nas mesas da casa ou do trabalho. Há que procurar algum papel (quem tem papel ?) canetas cómodas e com tinta, e envelope.

Têm isso tudo? Perfeito. As mesas e as cadeiras, desenhadas para optimizar a escrita com teclado e a visualização de ecrã não estão dispostas à mesma altura, há que ajustar as cadeiras ou a nossa colocação nelas. As mesas incomodam, a mão se cansa e o braço não responde. Mas e esta letra tão ruim?

Já nada está disposto para a escrita manual, e em breve as luzes, os assentos irão deixando de estar preparadas até para a leitura em livro, não sonhe mais em anotar aí nas margens. Vai sendo mais e mais estranho, e nenhuma pessoa, salvo algum rico extravagante tem como duplicar espaços, escritórios e os lugares para ler confortavelmente nos salões.

Bem que na cozinha, a polivalente mesa da cozinha, ainda conserva dimensões e tamanhos pensados  para velhos usos.

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