A GALIZA COMO TAREFA – prisões – Ernesto V. Souza

carta0001Há anos que com o uso do computador fui abandonando a escrita manual, apenas vão saindo ultimamente algumas notas riscadas a lápis ou com qualquer esferográfica em tiras de papel usado. Acho, por vezes, mesmo que esqueci o de escrever a mão, até que me encontro perante cartas ou postáis, tratando de escrever.

Conservo umas quantas e boas penas que o pouco uso faz que tenha de carregar de tinta e limpar quando trato de resgatar a habilidade da mão ou anotar velhos cadernos. Mas, num bom papel, adoro esse pervagar da escrita, deslizando e fazendo aparecer a tinta com as minhas ideias. Sempre gostei da escrita manual, tem outro ritmo, marca uma outra condição às ideias. Não há volta, nem corte, nem correção automática, nem desfazer.

A escrita de mão é uma artesania bem diferente daquela outra da composição tipográfica na que se inclui mais a escrita desde os processadores de texto. Com os anos fomos perdendo o costume da escrita e também a correspondência. Não conservo os e-mails, os milheiros de e-mails que devo ter escrito, apenas alguns dos recebidos. Cartas em papel sim, enchem caixas, com epístolas familiares e amicais, daqueles tempos nos que andava pelos USA, Brasil, Uruguai, Espanha.

As datas revelam a mudança cultural, congelada antes do ano 2000. Não deixa de ser interessante o diferente que é a ortografia, memorizada na prática manual e automatizada em contraste com os hábitos da digitada. Algum dia haverá que refletir sobre isto também.

ByOAqBQIIAAO9NqDesde 2011, porém, recuperei, por obra da Justiça espanhola a escrita de mão e a carta. Aprofundo, trato de rir, converso e deixo percorrer as letras, desde aquele fim de ano escuro, com os meus interlocutores peregrinos pelas prisões e cadeias da Meseta: Antom Santos e Carlos Calvo.

A escrita, a artesania, a história, a arte, as elites, a galeguidade, a história cultural, as cantigas medievais, o desenho, a etnografia e a antropologia social, livros, leituras, horas congeladas e desertas vão enchendo as páginas de correspondência enquanto vejo passar os anos desta injustiça manifesta, deste abuso e suspensão das garantias cidadãs.

Afora os passaros cantam nas suas cartas, dentro sucedem-se as anedotas com que se cuida e dissimula  os amigos e familiares, e ainda mais dentro onde ninguém sabe que acontece em realidade, vão-se formando na sua liberdade imaculada, dous dos grandes intelectuais da Galiza futura.

La luz que iluminaba la celda estaba relacionada, en su duración e intensidad, con el problema que llamaremos de destrucción del tiempo, problema del que había que prescindir si se quería avanzar hacia una solución definitiva. Avanzar, naturalmente, en el camino de la liberación, de la fuga, camino que solamente podía ser recorrido hasta el fin por medio de una acción exclusivamente mental. Cuando Fanto Fantini se demostró a sí mismo que la fuga era una cossa mentale, se tranquilizó por completo. Sabía, ahora, que podía salir. En realidad, sabiendo que la prisión era «una idea de una prisión», ya estaba fuera.
Álvaro Cunqueiro: Vida y fugas de Fanto Fantini della Gherardesca, 1972.

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