Num ensaio ágil, experiente, instigador e luminoso, Richard Sennett, explorava e defendia a figura do artesão, na história e como fórmula humanística do trabalho e da vida mesma.
Pertinente discurso contra o capitalismo desde as suas raízes e contra a competição, contra a exploração, contra a produção destinada a consumo. Contra a absurdidade no trabalho que invadiu as nossas vidas, levanta-se, na obra de Sennett, um discurso apaixonante e uma reivindicação do sentido, da salubridade e da qualidade; do controlo direito do aprendizado, da tarefas e dos processos, sobre o trabalho e a obra final.
Gorentamos (no texto como na própria vida) os exemplos, a história, o passado que vive nas obras feitas e nas ferramentas, na transmissão também do aprendido e do experimentado de mestres a discípulos: o uso das técnicas, a aquisição de habilidades, a confiança nos sentidos, no tato, no olfato, na vista; a análise pessoal e o sentir ponderando das escolhas apropriadas em cada momento da ferramenta e dos materiais com que se trabalha.
O trabalho artesanal é conhecimento, ensaio, repetição e variação, adaptação própria, experiência e horas na tarefa. Aproximadamente 10.000 horas, estabelece com lógica o autor, são as que num ofício são necessárias para que o cérebro e o corpo, normalmente as mãos, apanhem e façam próprios os ritmos, as forças as maneiras em que os instrumentos e ferramentas devem ser apanhados e empregues.
A grande diferença entre um operário valioso e um artesão não reside na eficácia e cuidado com que se executa uma peça seguindo um plano ou um modelo, mas na capacidade de compreender os conjuntos e os detalhes do processo, as ferramentas que devem intervir e a natureza das operações com elas.
O operário trabalha muitas vezes desconhecendo o sentido e o significado do trabalho que executa dentro dos conjuntos. Limita-se a realizar operações aprendidas com eficácia e em tempo.
Um artesão controla o seu esforço e calcula o tempo em horas por cada tarefa ou operação. Dedicar as que dedicar é cousa sua, em função da sua habilidade, da qualidade final da peça produzida ou da execução da tarefa. Mas sempre estará consciente e terá uma satisfação tátil, visual, física e mental ao remate da obra.
Um operário está atado à produção, são os tempos prefixados os que definem o seu trabalho e a qualidade pré-marcada do produto. O operário trabalha por um jornal e num horário, produz mais quanto mais horário, mas não melhor. A sua consciência de produtor está alienada e a sua satisfação reduzida a salário e a férias.
É uma cousa formosa ver um bom artesão trabalhar, parece quase “natural” o seu movimentar-se e é talvez nessa naturalidade aprendida e depois interpretada em que finalmente se distinguem os grandes dos simples imitadores. Os gestos e movimentos desnecessários, como em qualquer intérprete, ator, orador, escritor, as palavras, as frases destacam os bons discípulos dos verdadeiros mestres.
A escrita, a arte de escrever ou o domínio de uma língua vêm pautadas também nesse contexto. Sem computadores ou com eles (são práticas diferentes, como o é a escrita manual, de boa pena, bela tinta em bom papel, da imprensa, da estereotipia ou da máquina de escrever) as horas de escrita e de aprendizagem da língua estão associadas a práticas concretas, a experiências, a magistérios e a práticas, para além das leituras que é como ver os grandes mestres trabalhar.
Mas não chega olhar, sem se pôr de mãos à tarefa, sem refletir nos jeitos, nos truques, nos ritmos, nos passos dos grandes, enfrentando-se na prática à própria obra, não se pode compreender. Aprender uma língua e transformá-la numa ferramenta de uso normal e ao mesmo tempo com a qualidade da obra bem feita, é questão de horas de tarefa, mas também de análise, de estudo e de acumulação na experiência de gerações de artesãos.
O artesanato é liberdade. É a possibilidade de optar, de refletir sobre o aprendido e tornar a fazer de novo, tentando o fazer melhor. É a consciência de saber que um pode ir-se de qualquer parte e de encetar de novo, em tendo mãos, saúde e ferramentas. Simplesmente, como com a língua.


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