A GALIZA COMO TAREFA – alfabetização – Ernesto V. Souza

Toda a gente é consciente que a alfabetização como direito universal é uma das aspirações e características das sociedades modernas. É um direito, vinculado à própria noção e à ideia de Cidadão e portanto à de Estado, que pretende que toda a gente adquira, a poder ser na infância, uma capacidade para ler, escrever, uma mínima compreensão oral e escrita, competência em matemática básica e ser quem de usar métodos científicos, manuais e algumas fontes básicas de informação.

Porém, o domínio pleno do padrão, da língua culta é outra questão. Relacionada com os níveis de competência e com o papel que essa competência reconhecida ou domínio desempenha na imagem, no status, na pertença a uma classe ou grupo.

Até há nada a Escrita arrebatara presença à Oralidade, que através da oratória retórica fora tão importante na história. Porém nas últimas duas décadas de novo pela tecnologia e a internet volveu a palavra dita a ganhar espaço como manifestação diversa em uso, classe, status.

A oralidade (fora dessa prática culta ou formal vinculada à oratória) aprende-se na comunicação e há na realidade tantas possíveis como espaços diastráticos e diatópicos; mas a escrita é um hábito, um conhecimento formalizado adquirido, com não pouco esforço, antigamente um privilégio, modernamente pela escola e a alfabetização obrigada, convertido em Direito e também em vínculo de cidadania com a Nação. Uma e outra podem estar mesmo desvinculadas entre elas ou ligadas a espaços sociais e culturais com práticas diversas.

De qualquer jeito o domínio do padrão, da norma culta escrita, não é apenas um conhecimento quanto também uma habilidade, cujo domínio (o domínio do padrão estabelecido que se identifica com o poder económico, político, social e o cânone dos imortais) confere autoridade, reconhecimento escolar, e até prestígio social.

É uma artesania, por sua vez. Precisa de inúmeras horas e esforço e até não há nada ficava relacionada através da escrita de mão (sobre papel e com tinta) com a memória manual (com a habilidade treinada das mãos) e portanto com práticas em tradições e escolas caligráficas e automatismos diversos muito arraigados no cérebro.

Esta automatização (em quase todo ponto desvinculada da língua oral) é que explica as soluções imediatas no mais dos processos de colocação de letras, acentos gráficos. Tudo isto, sem necessidade nenhuma de recorrer a dicionários, gramáticas ou à oralidade: sei que é com J, G, X com ô ou ó, com b ou v, com s, -ç ou -ss- sem hesitações porque a mão quase automaticamente escreve assim. Sei também que preposições regem, que verbos pedem complementos, qual a sintaxe pronominal que o ritmo me pede e que léxico de repertório é apropriado para o tom ou o registo. E se não sei é porque não tenho treinamento adequado, ou careço das horas no estudo de modelos.

Boa letra, boa ortografia: horas de escola, de esforço, de pensamento, de prática… como não vai ser a ortografia e a correção algo sentimental e relacionado com a identidade, com a imagem e com o posto que ocupamos na República das Letras?

Para nós, na Galiza, a questão ortográfica não faz parte da normalidade, dos benefícios do nacionalismo banal. A contrário é algo, nos mais dos casos, contra-institucional. Que rompe com a identidade escolar e de Estado, contra a aprendizagem regrada. E mais quando como no nosso caso, esse esforço e hábito adquirido é numa língua outrizada, numa língua castelhana (na que estamos portanto tão marcados os que fomos escolarizados) com a que por motivos políticos, ideológicos e sentimentais, rompemos propositadamente tratando de nos dar outra.

E que percorrido, o de toda a gente, autodidatas, já na vida adulta, com voluntarismo e não pouco amadorismo, transitando momentos (lembranças, esforços e saudades) a normas e práticas de escrita diversas. E até já em muitos casos desligada da função de aprendizado manual, dissociada em escrita de computador, que vai portanto noutro apartado de prática, hábito e memória.

Nós carecemos da base formal, da norma interiorizada para interpretar o conceito NORMA, menos ainda para perceber variações pertinentes entre normas. Pois andamos por décadas a variar, a hesitar entre propostas, soluções e práticas.

A formalização individual das normas coletivas exigem antes uma aprendizagem regrada e para além uma prática continuada, um hábito. Que norma podemos ter nós? quanta gente na Galiza tem uma completa, sólida e regrada alfabetização em qualquer uma norma padrão que não seja a castelhana?

Todos os que atualmente escrevem e mais todos os que levam escrevendo galego na idade moderna desde fins do século XVIII apresentam a mesma problemática. É mais, podemos dizer que escrevem (escrevemos) um galego autodidata e individual, com traços de grupo em vias de formalização a partir de 1850 mas não realmente sistematizados e popularizados antes da escolarização em galego (que não aconteceu senão como processo incompleto – e hoje todavia precário – antes de 1980).

O fenómeno da alfabetização voluntária em português regrado a adultos (rudimentar ou mais ou menos profissional) é uma questão também individual e nos mais dos casos precária e tremendamente moderna. A moda ou tentativa dos reintegracionistas escreverem com a ortografia portuguesa é com todas as hesitações e defeitos e com todas as implicações, desafio e procura de coerência, cousa de há umas poucas décadas. É pouco o volume e escasso o tempo para podermos analisá-lo como realidade e como espaço de criação alternativa de uma Norma Galega.

Agora, deixar uma prática à que nos afizemos, na que vinculamos esforço, decisão, paixão, ideologia, política e com ela momentos, ambientes, projetos, pessoas, por outra é difícil. Não é uma simples escolha técnica, ou vontade, é também uma questão de hábito, de lealdades, de identidade e de imagem pessoal e grupal. Não é questão de capricho ou de pouca importância, mas também, portanto, não é de pertinência ou idoneidade linguística.

Um dos grandes erros sociais e políticos de 1980 a hoje, foi não promover ou dar um sentido a iniciativas e campanhas populares de alfabetização para adultos. Efetivamente que isto é algo que teria de ter feito a Xunta que tem os recursos e dificilmente poderiam ter feito particulares ou coletivos. Não fez. Talvez por má vontade. Talvez porque não deram prioridade ao ensino do galego.

Lembro com saudades aqueles manuais populares e iniciativas de espaços associativos dos anos 80 e sempre admirei o grande trabalho formativo popular que fizeram as Associações culturais – nomeadamente as reintegracionistas – nas últimas décadas. É de lamentar que não se desenvolvesse, a sério e por todo o país, como programa, algo neste esquema, em espaços paroquias, associações de vizinhos, bibliotecas, centros de cultura e de dia, espaços de socialização popular. Aproveitando esses espaços para desenvolver algo como o que se fazia nos cursos de galego desenhados para emigrantes.

E isto digo por experiência, não se tratava tanto dos títulos, esses eram para a gente nova que procurava saídas profissionais, quanto para gente já idosa, de poder aprender a ler e até escrever a própria língua; o que acontecia em forma diversa, em função da alfabetização e cultura prévia, e com dificuldades, nomeadamente, quando as carências educativas eram enormes; mas para essa gente era maravilha, era abrir a porta a um mundo.

A Galiza depois da Pandemia, tem de pensar na alfabetização pendente dos adultos, agora e definitivamente numa perspetiva lusófona.

1 Comment

  1. Muito bom. Manda-o ao PGL.
    Resumindo, na Galiza só existe uma perspetiva de escrita de normalidade que é lusófona. A outra é um vale tudo. Ou de jeito muito mais precoso, nada importa, essas regras a correção social é cousa só para o castelhano.
    A tua proposta devia fazer parte do programa de qualquer prganização que se tomar a sério o país, e esquecermos essa impertinência.. De isso é cousa da Junta, que como pouco é asneira, sabendo que são os tafures do jogo e como marcam as cartas do barslho

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