A FRANÇA PRETENDE UMA ALTERAÇÃO DOS TRATADOS DA UE PARA EVITAR O BREXIT, E AVISA QUE PODE ESTAR EM JOGO A SOBREVIVÊNCIA DO EURO – por AMBROSE EVANS-PRITCHARD
joaompmachado
Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
A França pretende uma alteração dos tratados da UE para evitar o Brexit, e avisa que pode estar em jogo a sobrevivência do euro.
Ambrose Evans-Pritchard, France signals EU treaty change to avert Brexit, warns on euro survival
Telegraph, 24 de Setembro de 2015
“Nós não devemos fechar a porta aos britânicos se o que eles estão a exigir dos outros Estados-Membros é aceitável”, disse o czar francês da economia Emmanuel Macron.
Macron comparou a situação do euro à de uma nova guerra religiosa de trinta anos no continente europeu
A França abriu a porta a alterações ao Tratado em todos os azimutes numa tentativa de manter a Grã-Bretanha na UE, alertando que seria um grave erro ignorar as legítimas exigências de Londres.
Emmanuel Macron, o ministro francês da Economia, disse que formas criativas podem ser encontradas para alterar os Tratados da UE e de travar uma crise europeia criada pelo “Brexit” europeu que poderia ficar fora de qualquer controlo.
“Não devemos transformar uma alteração do Tratado em algo traumático ou tabu”, disse ele, falando em Londres numa visita feita à Grâ-Bretanha para promover o “renascimento industrial” da França.
A França e Alemanha ainda são as maiores ameaças para um super-Estado da UE
“Nós não devemos fechar a porta aos britânicos se o que eles estão a exigir dos outros Estados-Membros é aceitável”, disse ele.
Macron disse que não está para além da inteligência humana elaborar um acordo em que ambas as partes sejam ganhadoras e em que se procure responder às preocupações da Grã-Bretanha sobre o estatuto dos não – membros do euro, sendo cada vez mais insustentável que os países centrais da zona euro avancem para uma integração mais aprofundada.
Ministro francês da economia, Emmanuel Macron, Photo: Bloomberg Finance
Os comentários foram feitos um dia depois do presidente francês François Hollande se encontrar com David Cameron para uma sessão de reflexão em Chequers. Parece haver aqui um movimento coordenado por Paris para desactivar um confronto desnecessário com a Grã-Bretanha.
Macron disse que as mudanças para os termos de adesão do Reino Unido poderiam ser tratadas em conjunto com a reforma euro no quadro de um mais amplo acordo da UE, dando a Cameron o imprimatur cobiçado da mudança completa do Tratado.
“O primeiro passo seria o do governo britânico esclarecer quais as suas pretensões. A questão é: “o que é que exactamente pretendem”, acrescentou.
A França parece determinada em manter a Grã-Bretanha na UE, até porque os dois países estão a trabalhar bem em conjunto quanto à política externa e de defesa. Ninguém está interessado em desencadear uma luta evitável com o Reino Unido quando a Europa Oriental se está a rebelar sobre o problema dos migrantes e a própria UE enfrenta uma crise existencial.
No entanto, há limites para o apaziguamento francês. “Uma Europa à la carte não é viável. Isto seria matar progressivamente a ideia europeia “, disse ele.
Macron teve palavras ainda mais duras para com a Alemanha, advertindo que a zona do euro irá se desintegrar através de uma tempestade de revoltas populistas a menos que Berlim abandone a sua veemente oposição à união orçamental e às largas transferências para as regiões mais pobres.
O ex-banqueiro de Rothschild disse que o bloco monetário é fundamentalmente inviável sem um orçamento comum para o sustentar e salvaguardar e para evitar que os países na periferia da Europas atingidos pela dívida fiquem na situação de dificuldades permanentes.
“Se não avançarmos, estamos a decidir o desmantelamento da zona euro. Temos que escolher: esta é um sistema de câmbios fixos ou uma união monetária ?”, afirmou .
Temos de sair desta Guerra religiosa
Ele chamou à luta sobre o euro uma nova guerra dos Trinta Anos na Europa travada entre os calvinistas e católicos. “Os calvinistas querem fazer os outros pagarem até ao fim da sua vida. Eles querem reformas mas não querem contribuições quaisquer que elas sejam em termos de solidariedade. Do outro lado estão os católicos, principalmente na periferia”, disse.
“Em cada cimeira da zona euro, em cada Eurogrupo, temos este mesmo dilema entre os estados membros. Nós temos que sair desta guerra religiosa”,
Macron argumentou repetidamente que a abordagem unilateral da Alemanha ao rescaldo da crise do euro é o que tem empurrado a zona euro para uma espiral deflacionista. Os países vulneráveis estão a ser forçados a passarem por reformas duras e por cortes no orçamento com pouca solidariedade económica em troca.
É um presente para os “demagogos”, capaz de capitalizar um profundo ressentimento contra Bruxelas – uma clara alusão à Frente Nacional de Marine Le Pen, que actualmente lidera as sondagem de opinião em França, com 29 % dos votos com votos para restaurar o franco francês.
Macron disse que as falhas da arquitectura da UEM têm levado a uma situação em que o núcleo da zona euro está a sugar o sangue do resto da zona da moeda. “A periferia nunca irá convergir sem transferências fiscais”, disse ele.
Ele apelou a que se crie na UEM o cargo de Ministro do Tesouro com uma Secretaria para o investimento com poderes para aumentar os impostos, a fim de lidar com choques assimétricos que a todo e qualquer momento possam incidir na zona euro, como por exemplo através do dízimo sobre as receitas do IVA.
Os custos de desemprego devem ser “mutualizados” através de um regime de seguro europeu contra o desemprego. Toda a estrutura pode ser construída sobre o actual fundo de resgate (MEE), sob o controle executivo de um super-comissário da UE, e respondendo perante o parlamento da zona euro.
Esses planos são um anátema para a Alemanha, onde todos os principais partidos se opõem a qualquer forma de “união de transferências”. Eles sabem por experiência quanto lhes custou ao longo do último quarto de século resgatarem a velha Alemanha Oriental dentro de uma união monetária.
Especialistas alemães dizem que o custo de sustentar metade da Europa desta forma seria maior do que a carga imposta à Alemanha pelas reparações no Tratado de Versalhes em 1919. Tal medida iria destruir o apoio popular para o projecto do euro.
Otmar Issing, primeiro economista-chefe do Banco Central Europeu e uma figura emblemática na Alemanha, advertiu no início deste mês que qualquer movimento em direcção a um Ministro do Tesouro e do Orçamento na UEM exigiria uma emenda constitucional na Alemanha apoiada por uma maioria de dois terços em ambas as Câmaras do Parlamento alemão. “As chances de união política são vizinhas de zero”, disse ele.
Na sua opinião seria “perigoso” transferir o controle sobre os impostos e as despesas para o nível federal da UE antes de união política completa ter sido estabelecida em bases democráticas. As tentativas de escapar através de tais mudanças pela porta dos fundos seria fatal.
Segundo a opinião de alguns diplomatas o compromisso é estratégico para a França ceder algum grau de soberania, enquanto a Alemanha deveria aceitar um certo grau de partilha dos custos orçamentais, mas um acordo parece bem distante.
Macron está a lançar uma vaga de reformas à “Thatcher” em França, para grande fúria da ala esquerda do seu próprio Partido Socialista. A sua “Lei Macron” é um ataque à burocracia e aos interesses escusos, aplaudido e vilipendiado na mesma medida por uns e por outros e é por ele tomada como sendo o primeiro passo de uma reforma profunda do modelo social arcaico da França.
Já houve antes tentativas para arrastar à força a França a entrar no século 21, mas desta vez as forças do status quo ficaram sem pé. Não podem mobilizar protestos. “A diferença é que hoje não temos pessoas nas ruas a protestar. As pessoas estão perfeitamente conscientes da situação em que estamos “, disse ele.
Questionado sobre a manipulação de dados relativamente às emissões feita pela Volkswagen, Macron disse que esta conduta era ultrajante mas que até agora parece confinada a VW, e que só por si não irá mudar o debate estratégico na Europa cerca do diesel limpo.
Quanto ao contágio instantâneo dos mercados relativamente aos outros fabricantes de carros nas bolsas europeias, a sua resposta foi uma manifestação do desprezo à gaulesa . “É ridículo,” disse.
Ambrose Evans-Pritchard, The Telegraph, France signals EU treaty change to avert Brexit, warns on euro survival. Texto disponível em: