Publicámos uma carta aberta a António Costa e aos socialistas de todos os quadrantes e depois uma pequena nota sobre a posição recente do Presidente da Republica, onde chamávamos a atenção para a importância de se estudar a evolução política da Grécia. E isto a propósito de uma série de textos editados diariamente em o blog A Viagem dos Argonautas sobre o arco de tempo de Janeiro a Setembro de 2015, ou, dito de outra maneira, tudo isto para procurarmos perceber as forças terríveis de pressão que se estarão a abater sobre António Costa e hão-de continuar a fazê-lo quando o novo governo cair sob a força da coligação de esquerda liderada pelo PS. Não podemos esquecer como caiu Papandreou em Atenas, como foi substituído e muito menos nos podemos esquecer da forma como caiu Berlusconi, com a passagem de deputados do seu agrupamento para independentes. Assim perdeu a maioria absoluta e depois, talvez para tornar a ameaça mais credível, o BCE não foi aos mercados. As taxas de juro dispararam em Itália e Berlusconi foi obrigado a cair. Simplesmente assim e possivelmente com a mão de Jean-Claude Trichet e de Mario Draghi, numa altura em que este último ainda não teria tomado posse. Há aliás aqui também uma vingança pessoal, ao que creio: os senhores capitães do exército das sombras, Mário Draghi e Trichet enviaram um memorando de entendimento, uma carta de intenções, exigindo a Berlusconi um programa de austeridade, sem que se possa dizer que havia Troika. Berlusconi organizou uma fuga de informação, a carta tornou-se pública e a vingança foi terrível: em nome dos interesses da Itália Berlusconi sentiu-se obrigado a demitir-se, um pouco como Hitler obrigava os seus generais a demitir-se quando não estavam de acordo com ele. É certo que Berlusconi ficava mais disponível para as suas festas privadas, mas entretanto escrevia-se uma página negra na história da UE. Poderíamos encontrar histórias equivalentes, em termos de chantagem exercida pela UE para com a Irlanda ou para com a Islândia. E os anos de crise na União Europeia escrevem-se como anos de pressão, de abuso do poder, de chantagem, em suma de negação da Democracia, simplesmente isto. Ora, se entrarmos em governo de gestão, muita tinta há-de correr, muita pressão sobre as pessoas de esquerda do PS singularmente se há-de fazer, muita divisão se há-de criar, muita falta de vergonha se há-de presenciar, muito dinheiro presente ou de futuro prometido se fará circular porque como diz Juncker o que se deve verificar é que:
« Il ne peut y avoir de choix démocratique contre les traités européens. »
Ao ler aqueles textos meus alguns amigos meus entenderam que eu estaria a forçar a leitura sobre a realidade, ou seja, a divagar.
Dias depois, lemos dois artigos que reputo de fundamentais, um escrito por um conservador, Ambrose Evans-Pritchard, e publicado num jornal de direita, o The Telegraph, com o titulo A Europa atravessa o Rubicão, e o outro, à esquerda, publicado por Jacques Sapir, com o título Portugal: o golpe de Estado silencioso onde se faz a mesma referência, a necessidade de ter presente o que se passou na Grécia, porque Portugal estará a passar por uma situação semelhante, embora de menor intensidade, à que se passou e está a passar naquele país. A este respeito citemos Evans-Pritchard:
“O movimento do Syriza de Grécia, o primeiro governo da esquerda-radical da Europa desde a segunda guerra mundial foi esmagado na submissão por ter ousado enfrentar a ideologia da zona euro. Agora a esquerda portuguesa está a levar a cabo uma variante da mesma situação.
Os socialistas de Europa enfrentam agora um dilema. Pelo menos estão a despertar para a desagradável verdade que a União Monetária é uma construção dominada pela direita autoritária que escapou ao controlo democrático mas, contudo, se actuam na base dessa percepção correm de toda e qualquer maneira o risco de serem impedidos de assumir o poder.”
Curiosamente estes mesmos dois artigos ganham uma outra dimensão, ainda bem maior, para nós portugueses, se os articularmos com outros textos, de gente de direita e de esquerda reflectindo seriamente sobre o monstro europeu. Refiro-me em particular, ao texto de Philippe Legrain, antigo conselheiro de Durão Barroso, com o titulo A desintegração da Europa, que, salvo a extrema candura (ou talvez não) com que encara o drama dos refugiados, nos mostra à evidência a situação de encurralados em que nos encontramos na zona euro pela incapacidade ou pela opção ou até pela maldade do senhor Schäuble. Nesta mesma linha se pode inserir o texto de Yanis Varoufakis de título bem elucidativo: As posições de Schäuble atraem nuvens de tempestade sobre a zona euro.
Trata-se de quatro textos que reposicionam Portugal e Grécia no interior do drama que à Europa foi criado, perspectivando as linhas de fractura a que esta Europa parece estar cada vez mais, e inevitavelmente, condenada, o que é devido, por um lado, à arquitectura defeituosa da zona euro e, por outro lado, à incompetência ou sobretudo à maldade dos dirigentes políticos que em vez de corrigir as lacunas detectadas se aproveitaram delas, quer por interesse pessoal (Schäuble e outros), quer pelo interesse nacional, a Alemanha, tornada hoje imperial nesta Europa germanizada.
Esta situação e a releitura dos textos que agora apresentamos pode ainda parcialmente ser sintetizada através da leitura atenta das declarações feitas pelo ministro francês da Economia, Emmanuel Macron, um dos mais duros neoliberais europeus no poder, o actual czar da economia em França, país que agora pode vir a ser a próxima vítima e que corre o risco de ter de aceitar a chegada de Marine Le Pen ao poder!. Adicionamos pois um quinto texto em que se expressam as posições assumidas por Macron em Londres, em reacção à realidade europeia actual feitas pois por um dos mais relevantes líderes neoliberais da actual Europa mas que por azar dele é francês e a França já está em dificuldades desde há muito tempo, apenas abrigada pela mão invisível dos mercados e em que talvez esta mão seja a de Mario Draghi e do BCE. Destas declarações reproduzimos aqui alguns excertos:
A França pretende uma alteração dos tratados da UE para evitar o Brexit, e avisa que pode estar em jogo a sobrevivência do euro.
“Nós não devemos fechar a porta aos britânicos se o que eles estão a exigir dos outros Estados-Membros é aceitável”.
Macron teve palavras ainda mais duras para com a Alemanha, advertindo que a zona do euro irá se desintegrar através de uma tempestade de revoltas populistas a menos que Berlim abandone a sua veemente oposição à união orçamental e às largas transferências para as regiões mais pobres.
O ex-banqueiro de Rothschild disse que o bloco monetário é fundamentalmente inviável sem um orçamento comum para o sustentar e salvaguardar e para evitar que os países na periferia da Europa atingidos pela dívida fiquem na situação de dificuldades permanentes.
“Se não avançarmos, estamos a decidir o desmantelamento da zona euro. Temos que escolher: esta é um sistema de câmbios fixos ou uma união monetária ?”, afirmou. “Temos de sair desta Guerra religiosa”.
Macron chamou à luta sobre o euro uma nova guerra dos Trinta Anos na Europa travada entre os calvinistas e católicos. “Os calvinistas querem fazer os outros pagarem até ao fim da sua vida. Eles querem reformas mas não querem contribuições quaisquer que sejam em termos de solidariedade. Do outro lado estão os católicos, principalmente na periferia”, disse.
“Em cada cimeira da zona euro, em cada Eurogrupo, temos este mesmo dilema entre os estados membros. Nós temos que sair desta guerra religiosa”,
Macron disse que as falhas da arquitectura da UEM têm levado a uma situação em que o núcleo da zona euro está a sugar o sangue do resto da zona da moeda. “A periferia nunca irá convergir sem transferências fiscais”, disse ele.
Com esta série de 5 textos esperamos assim contribuir para ajudar a esclarecer os que nos acompanham nesta viagem dos Argonautas quanto aos trabalhos de Hércules que aguardam António Costa e os seus parceiros de coligação de esquerda e também quanto à complexidade dos mesmos.