A ZONA EURO ATRAVESSA O RUBICÃO COM A ESQUERDA ANTI-EURO A SER BANIDA DO PODER EM PORTUGAL – por AMBROSE EVANS-PRITCHARD – II

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Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

Ambrose Evans-Pritchard, Eurozone crosses Rubicon as Portugal’s anti-euro Left banned from power

The Telegraph, 23 de Outubro de 2015

(conclusão)

Não pode haver novas eleições até ao segundo semestre do próximo ano ao abrigo da Constituição de Portugal, arriscando-se assim a quase um ano de paralisia que coloca o país em rota de colisão com Bruxelas e, finalmente, ameaça reacender a crise da dívida do país.

O mercado de títulos reagiu calmamente face aos eventos em Lisboa mas isto já não é um indicador sensível uma vez que o Banco Central Europeu está a absorver dívida portuguesa ao abrigo do seu programa de flexibilização quantitativa.

Portugal já não está sob o regime da Troika e não enfrenta uma crise de financiamento imediato, mantendo reservas de caixa acima de € 8 mil milhões. No entanto, o FMI diz que o país continua a ser “altamente vulnerável” se houver um qualquer choque ou se o país não cumprir as reformas, considerando-se actualmente como estando a continuação da sua aplicação em ponto morto, isto é, paradas.

A dívida pública é de 127% c do PIB e a dívida total é 370 % do PIB, pior do que na Grécia. Um passivo externo líquido superior a 220 %  do PIB.

Rubicão - III

O FMI advertiu que “o milagre pelas exportações” de Portugal permanece muito pouco fracamente sustentado e os ganhos tão propalados tem a ver com as reexportações de pouco valor acrescentado. “Não se verifica nenhum reequilíbrio durável da economia” afirma o FMI.

“O presidente criou uma crise constitucional”, disse Rui Tavares, eurodeputado verde radical. “O Presidente está a afirmar que nunca irá permitir a formação de um governo que inclua a esquerda radical e os comunistas. As pessoas ficaram espantadas com o seu discurso… “.

Rui Tavares [líder do Livre/Tempo de avançar] disse que o presidente invocou o espectro dos comunistas e do Bloco de Esquerda como um “homem de palha” para impedir que a esquerda tome o poder, sabendo muito bem que os dois partidos concordaram em deixar cair as suas exigências de saída do euro, de saída da NATO  e da nacionalização dos pesos pesados da economia sob um acordo de compromisso para a criação da coligação.

O Presidente Cavaco Silva pode estar correcto em considerar que um governo socialista em aliança com os comunistas precipitaria um grande confronto com os mandarins de austeridade da UE. O grande plano de António Costa para um estimulo keynesiano da economia – dinamização assente no aumento das despesas com a educação e saúde – é totalmente incompatível com o Pacto Orçamental da UE.

Rubicão - IV
Antonio Costa, Photo: EPA

Este absurdo Tratado obriga Portugal a reduzir a sua dívida para 60%  do PIB durante os próximos 20 anos, colocando o país numa armadilha da austeridade permanente, e a fazê-lo ao mesmo tempo que o resto da Europa do Sul está a tentar fazer o mesmo, ou seja, a tomar medidas duras de austeridade e curiosamente tudo isto tendo como pano de fundo a presença efectiva de forças deflacionárias poderosas em todo o mundo.

A estratégia de redução do maciço peso da dívida do país através do aperto permanente do cinto é em grande parte autodestrutiva, uma vez que o efeito da estagnação do PIB nominal no denominador da relação Divida/PIB agrava a dinâmica da dívida.

Além do mais esta política é também inútil. Portugal vai exigir uma depreciação da dívida quando a próxima crise global atingir a sua situação de pico. Não há nenhuma possibilidade de que a Alemanha vá concordar com a União Orçamental de modo a evitar isto.

Rubicão - V
O que Portugal precisa de pagar (Fonte : Deutsche Bank)

A principal conclusão a tirar da agonia em que vive o país é a profunda histerese nos mercados de trabalho e também nos crónicos baixos níveis de investimento, que impede que se possa perspectivar um outro futuro.

O Presidente Cavaco Silva está efectivamente a utilizar o seu cargo para impor uma agenda ideológica reaccionária, no interesse dos credores e do quadro ideológico e político das instâncias da UEM e cobrindo-se, sem nenhum escrúpulo, nessa sua posição como estando a agir em defesa da democracia.

Os socialistas e comunistas portugueses enterraram o machado das suas divisões amargas pela primeira vez desde a Revolução dos Cravos e do derrube da ditadura de Salazar em 1970, e mesmo assim ainda lhes está ser negado a sua prerrogativa parlamentar para formar um governo de maioria.

Esta é uma diligência perigosa. Os conservadores portugueses e os seus aliados nos media comportam-se como se a esquerda não tenha o direito legítimo de assumir o poder, e que disso devem ser impedidos por todos os meios.

O movimento do Syriza de Grécia, o primeiro governo da esquerda-radical da Europa desde a segunda guerra mundial foi esmagado na submissão por ter ousado enfrentar a ideologia da zona euro. Agora a esquerda portuguesa está a levar a cabo uma variante da mesma situação.

Os socialistas de Europa enfrentam agora um dilema. Pelo menos estão a despertar para a desagradável verdade que a União Monetária é uma construção dominada pela direita autoritária que escapou ao controlo democrático mas, contudo, se actuam na base dessa percepção correm de toda e qualquer maneira o risco de serem impedidos de assumir o poder.

Bruxelas realmente criou um monstro.

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Ver o original em:

http://www.telegraph.co.uk/finance/economics/11949701/AEP-Eurozone-crosses-Rubicon-as-Portugals-anti-euro-Left-banned-from-power.html

 

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