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17. Caderno de notas de um etnólogo grego – Elipses I

Falareconomia1

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

Revisão de Flávio Nunes

 

Caderno de notas de um etnólogo grego – uma análise social diária da crise grega

Quarta-feira, 25 Março de 2015

 

17. Caderno de notas de um etnólogo grego- Elipses

No reino dos vulneráveis, é sobre o desconhecido que a divina crise reina como um mestre. O quotidiano ateniense reencontra assim o essencial dos seus ritmos esfolados. VIDAS das gentes do fundo da escala, desligadas da ideia de ter futuro e também suspensas no vazio, para o comum dos mortais naturalmente. “De novo, voltei a apagar a televisão, já não leio mais os jornais, é tudo uma confusão, é tudo impreciso, deverias fazê-lo também”, insiste um reformado num café da praça de Omónia.
A sua alma em presente, distante das obscuridades conhecidas do seu tempo, como o nosso. Abril invisível e fachadas atenienses.

 

A estátua de Kostís Palamás vandalizada. Academia, Atenas, Março 2015

 

Sobre estes lugares no mesmo dia, uma mulher tomada de pânico atravessou toda a praça em diagonal e a correr. Urrava então, com toda a força dos seus pulmões, os seus males da mesma maneira que os seus palavrões, numa língua eslava que mal compreendíamos. Visivelmente, não estava acompanhada, certos transeuntes tentaram acalmá-la, o reformado do café do lugar Omónia e a sua esposa propuseram-lhe mesmo uma bebida, em vão.

Ela desapareceu tão rapidamente como apareceu, pelo fundo da praça, cruzando assim esta fronteira invisível para os turistas, separando a cidade do avesso e a do seu contrário. Facto do dia imediatamente esquecido encarnava esta impossibilidade ontológica anónima, flagrante e iterativa à vontade pelos tempos que correm. Gestos diários que observamos em Atenas, os olhos grandes abertos, fixando assim o teto simbólico e social todo ele desfeito, ultrapassando-se então as piores premonições dos anos ditos de antes da crise.
Subsequentemente, as fronteiras multiplicam-se. Quando se apanha por exemplo um dos autocarros que ligam certos bairros do Pireu aos de Éleusis, o que choca, é a gratuitidade dos detalhes para o que interessa (e revela) do aspeto dos passageiros. Gregos ou imigrantes. A sua aparência vem assim dos altos lugares, dos mais altos mesmo, da pauperização e da guetização: mulheres, homens, velhos ou crianças mesmo, de um tipo ideal praticamente invisível noutros lugares, no centro histórico já. Longe, muito longe mesmo das incertezas e das confusões alimentadas pelos factos políticos, esta parte do país parece já ter sido definitivamente seccionada, encurralada e colocada nas piores profundidades do universo (economicamente) concentracionário da Grécia.

 

A política atual, Imprensa de 23 de Março 2015.

 

Para todas estas pessoas, como para muitas outras, de acordo com que observo, o encontro político como a cimeira desta semana, entre Alexis Tsípras e Angela Merkel, confere apenas sentido ao seu destino. Entraríamos por conseguinte numa nova fase, tão inédita quanto as precedentes, onde o memorando e a Troika permanecem omnipresentes, sem contudo este peso brutalmente desesperante “da governança” Samarás. Os Gregos, emparedados uma vez mais nas suas dificuldades diárias, não veem nunca nenhum horizonte à sua frente, salvo que ninguém lamenta realmente os governos precedentes.
Este período, cheio de episódios indefiníveis, é também o do barulho mediático, mediáticos enfim impecáveis. Por um lado, há esta guerra aberta dos meios de comunicação social do sistema estabelecido das baronias atenienses, contra o governo SYRIZA/ANEL e, por outro lado, há também estes outros meios de comunicação social, próximos de SYRIZA principalmente, os quais se adaptam (e de resto rapidamente), à nova situação, julgando por exemplo muito positivo o encontro entre Alexis Tsípras e Angela Merkel, cujo essencial fica, de resto, desconhecido a todos nós. Ilustres desconhecidos.

 

Livraria aberta. Atenas, Março 2015

 

Simbolos utilizados. Atenas, Março 2015

 

Face a uma tal expansão de notícias díspares, mais contraditórias que nunca, assim empestadas pelos sedimentos sucessivos da realidade virtual, e sobretudo tão penosos de confirmar, Greek Crisis (arrasado já pelo seu terreno participante fortemente tóxico e assim como pela sua triste materialidade financeira), adota doravante uma atitude mais esotérica, mais distanciada num sentido. O blog fará mais então mais elipses evitando assim ( se possível) o eclipse!

Parafraseando apenas Norbert Elias, diria que esta atitude faz lembrar um pouco estes homens das sociedades pré- científicas, materialmente e cognitivamente impotentes face aos “caprichos da natureza”, ou face a eles, impostos pela desrealização dos estímulos, a financeirização das trocas (políticas, económicas, interpessoais) então compreendida. A (suposta) ciência quanto a ela inscrever-se-ia certamente num processo de distanciamento e de controlo dos afetos e, por conseguinte, num processo de civilização, logo, de logos. Na verdade, estes homens das sociedades meta-científicas, os nossos e para sermos rápidos, são material e cognitivamente tão impotentes quanto os nossos antepassados.
Observo também, por exemplo, através das manifestações do tempo presente, a estéril repetição em alguns, que consiste em vandalizar os monumentos ou as construções. Uma parte da imprensa grega denuncia a esse respeito os recentes vandalismos, entre os quais o da estátua de Kostís Palamás, uma vez mais a vítima da nossa modernidade. O poeta, nascido em Patras em 1859 e morto em Atenas em 1943, era considerado como o mais importante da sua geração e de resto foi proposto para o Preço Nobel de literatura em 1939. Uma estátua, notemo-lo, sendo a obra do escultor Vássos Faliréas (1905-1979), antigo aluno em França, dos escultores e artistas, Charles Despiau (1874-1946) e Aristide Maillol (1861-1944).

 

Praça da Constituição. Preparativos tendo em vista a festa nacional do 25 de Março.

 

A sua reputação foi estabelecida à escala internacional: assim, em Paris, Hubert Pernot (1870-1946), helenista conhecido da Sorbonne, organizou uma homenagem a Kostís Palamás em Abril de 1926, e nesse mesmo ano, o poeta é admitido na Academia de Atenas de que se torna Presidente em 1930. Em 1937, é feito cavaleiro da Legião de honra pelo ministro francês da Educação. Em Outubro de 1940, Palamás lança uma mensagem muito famosa no início da ocupação alemã: “Tenho apenas uma coisa a dizer-vos. Embriaguem-se com o vinho imortal de 1821”, referindo-se à Guerra de independência grega, celebrada anualmente pela festa nacional do 25 de Março.
Este vandalismo, a exemplo de tantos outros, prova assim que o fio sensorial da história já está desfeito em certos espíritos; no dia 27 de Fevereiro de 1943, os funerais nacionais de Palamás deram lugar a um comovente apelo à resistência pelo poeta Ángelos Sikelianós, pelo arcebispo de Atenas, Damaskinós, e pela multidão que cantou em coro o hino nacional.
O imbróglio ambiental faz com que ao mesmo momento, certos movimentos políticos gastam e às vezes abusam das imagens do passado, quando se trata por exemplo de recolher fundos e de reproduzir com este objetivo, a famosa fotografia da manifestação do EAM (Front National de Libertação; o principal, movimento de resistência na Grécia, inspirado pelo KKE, o PC grego), Praça da Constituição em 1944.

 

Manifestação da EAM (Frente Nacional de Libertação), Praça da Constituição em 1944. Cartaz de Março de 2015

 

Pode acontecer que peças juntas do passado bem como os seus efeitos e afetos, sejam inacessíveis, como também esquecidas e ignoradas, exceto para as necessidades da caricatura. Relendo uma obra de um confrade historiador sobre os efeitos desastrosos da Ocupação e a Guerra civil (1941-1949) e sobre as representações e as estratégias de sobrevivência (e da condenação à morte) na época, referenciei uma fotografia que data de 22 de Julho de 1943.
Os atenienses então tinham-se manifestado por milhares contra as forças de ocupação alemãs, italianas e búlgaras (ao norte da Grécia). Esta manifestação tinha sido reprimida pelas armas, cerca de sessenta manifestantes foram pois executados, e a fotografia em questão mostra então manifestantes caídos para sempre sobre o passeio da rua Homero. Setenta e dois anos depois dos factos e no mesmo lugar da rua Homero, a poesia continua a permanecer sempre perdida das preocupações e dos gestos. A história é primeiramente um instantâneo mas da adversidade.

 

Manifestantes mortos. Atenas, rua Homero, no dia 22 Julho de 1943

 

Mesmo local. Atenas, rua Homero, Março de 2015

 

A história presente retorna sempre e ainda que seja na forma de um instantâneo de adversidade. Os transeuntes tornam-se assim visivelmente indiferentes aos cadáveres sociais do dia e de cada dia, sobretudo em Atenas. Como durante a Ocupação, os mesmos mecanismos psicológicos da desumanização estão em marcha, a sobrevivência ao nível do custe o que custar, o medo do imediato e a angústia face à imprecisão querida (porque imposta) do futuro e das referências quer existenciais quer espaciais e temporais para a maioria das pessoas.

 

(continua)

 

 

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